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Saber ou não
saber
Como
lidar com a angústia que
podem trazer os exames de
doenças transmitidas pelos genes

Fábio
de Oliveira e Fernanda Colavitti
Com
os avanços recentes da genética, submeter-se a testes para
verificar a propensão a ter determinadas doenças passou
a ser uma iniciativa acessível a moradores das maiores cidades
brasileiras. A tomada de decisão quanto a fazer os exames e a atitude
diante de um resultado positivo invariavelmente cercam os pacientes de
muita angústia. Há quinze anos, a secretária Luciene
Marques, 39 anos, de São Paulo, foi alertada por um oftalmologista
de que os problemas de visão na família poderiam ser decorrência
de uma doença rara, a síndrome de Von Hippel-Lindau, conhecida
também como VHL, que entre outras complicações é
freqüentemente associada ao surgimento de câncer na retina,
no cerebelo e nos rins. Somente em agosto passado ela resolveu fazer o
exame genético. O resultado foi positivo. "Tive muito medo, fiquei
chocada, mas em seguida veio o alívio por saber que teria tempo
para procurar ajuda e lutar contra a doença", lembra-se Luciene.
Descobriu, então, ser portadora de um tumor maligno de 5 centímetros
no rim direito, alvo de uma operação para retirada. "Sem
o teste, não sei se estaria viva hoje. Meu pai morreu de um tumor
sem saber que tinha o mesmo mal", conta.
A
decoradora H.S., de São Paulo, que prefere não ter o nome
revelado, viveu também uma situação traumática.
A mãe e a avó morreram de câncer na mama. Apesar de
sentir verdadeiro pavor de enfrentar o teste, H.S. não conseguiu
mais conviver com a dúvida quando passou dos 30 anos, bem próximos
da idade de 33 que a mãe tinha quando foi vítima da doença.
O teste deu positivo. "Fiquei sem forças para esperar e decidi
eliminar o medo", H.S. relata. No caso, isso significou uma atitude radical:
extrair os dois seios, ainda que muito jovem. O temor de câncer
na mama também era a preocupação de Janete Couto
Stevanin, 53 anos, dona de uma loja em Porto Alegre. Em sua família,
a incidência da doença era alta (oito em treze mulheres),
mas só em 1998 ela recorreu ao teste, que confirmou a tendência.
"Entrei em pânico, mas passei a me cuidar melhor", disse ela. De
prático, isso representou passar a fazer mamografia a cada semestre.
Com a detecção precoce, as chances de flagrar o câncer
em seus estágios iniciais, quando pode ser combatido com eficiência,
são mais garantidas. Hoje, Janete faz terapia para tentar amainar
a ansiedade. "Se tenho uma febre ou tosse, já fico apavorada. Meu
pavor é pensar que chegou a hora", desabafa.
Instrumento valioso que se incorporou ao arsenal das boas tecnologias
disponíveis para melhorar a saúde do ser humano, o teste
genético apresenta uma espécie de efeito psicológico
colateral. Com exames corriqueiros de laboratório é possível
saber se um indivíduo carrega o gene que, no futuro, será
responsável por uma lista de diversas doenças. Em parte
delas, conhecer a predisposição é um alívio.
A pessoa pode prevenir o problema e adiar ou afastar a eclosão
do mal. Em outras, aquelas doenças para as quais não há
cura ou tratamento, saber pode ser um martírio, um sofrimento antecipado
e inútil. Num artigo recente publicado pela revista British
Medical Journal, a psicóloga Theresa Marteau, do King's College,
de Londres, e a oncologista Caryn Lerman, do Centro Médico da Universidade
Georgetown (EUA), mostram que a informação sobre o risco
genético é uma via de mão dupla. Para muitas pessoas,
ela pode aumentar a motivação na busca de tratamento. Para
outras, independentemente do nível de gravidade da doença
detectada precocemente, pode desmotivar e levar a um pessimismo paralisante
que as afasta do tratamento ou prevenção adequados.
Liane Neves
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| A
lojista Janete: mudança de hábitos depois do resultado positivo |
Segundo o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal
de Minas Gerais, uma das principais autoridades brasileiras no assunto,
a melhor coisa a fazer é informar o paciente de sua predisposição
genética apenas nos casos em que isso ajude a combater a doença
futura. Diversos tipos de câncer, a osteoporose e a obesidade pós-parto
são alguns dos males cuja prevenção fica mais fácil
quando se sabe estar condenado geneticamente a sofrer deles. São
doenças em que não apenas os genes, mas também os
hábitos do dia-a-dia, têm papel preponderante. "Nesses casos,
o indivíduo, ao saber que tem uma predisposição genética
para determinada doença, tem condições de ajustar
seus hábitos e escapar dela", explica Pena. Contudo, não
há muita utilidade para aqueles males conhecidos como monogênicos,
em que grande parte das pessoas que herdaram um gene com mutações
vai desenvolver o problema, sem chances de prevenção. Tome-se
o exemplo da doença de Huntington, uma degeneração
neurológica na qual o indivíduo vai perdendo gradativamente
o controle motor. Não se conhece cura para esse mal. "Nesse caso,
o teste é questionável, pois não há como evitar
o desenvolvimento dos sintomas", afirma Pena. Estão na mesma condição
algumas síndromes associadas ao desenvolvimento infantil anormal,
conhecidas pelos nomes científicos de Prader-Willi, Angelman e
Williams.
A psiquiatra Maria Teresa Lourenço, do Hospital do Câncer,
de São Paulo, lembra que, além do medo de desenvolver uma
doença e de morrer, há outros temores que pesam muito psicologicamente
quando alguém se descobre portador de uma disfunção
genética grave. Os maiores deles são o receio de ser discriminado
no trabalho e o colapso no relacionamento afetivo. O sentimento de culpa
de vir a transmitir aos filhos uma doença gera ansiedade e, muitas
vezes, a decisão de não se casar ou de nunca ter descendentes.
É comum o paciente adotar uma visão fatalista e assumir
um comportamento de risco, como saber da probabilidade de um câncer
de mama e se recusar a fazer exames periódicos. Nesses casos, o
papel do psiquiatra ou do psicólogo é ajudar a pessoa a
levar uma vida normal, apesar do diagnóstico. Uma das principais
dificuldades é lidar com os testes feitos em crianças que
descobrem doenças latentes que só vão manifestar-se
muito mais tarde. "Algumas famílias acabam sofrendo antes da hora
uma dor tão grande quanto a da perda", diz a psiquiatra Maria Teresa.
"É difícil dominar esse sentimento."
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O
PREÇO DA VERDADE
Para saber os segredos que guardam os genes, o preço não
é obstáculo, conforme as tabelas de dois dos principais
centros especializados do país, o Genomic, de São
Paulo, e o Gene, de Belo Horizonte. Neste, o exame de detecção
precoce do câncer de útero sai por 80 reais. O teste
mais caro é o que detecta genes envolvidos com o desencadeamento
do câncer colo-retal. Ele custa 1 960 reais. Identificar a
predisposição à obesidade pós-parto,
mal que aflige mulheres que engordam muito depois da gravidez e
não retornam à forma anterior, sai por 180 reais.
No centro paulista, por 400 reais pode-se descobrir a tendência
hereditária à osteoporose, que provoca o enfraquecimento
dos ossos, e por 200 reais a predisposição à
fibrose cística, que bloqueia os pulmões e o pâncreas.
Desde a semana passada, os planos de saúde estão obrigados
pelo governo a cobrir os custos de alguns dos testes mais pedidos
pelos médicos no Brasil.
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