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pensando como
gente grande
Pesquisa
mostra que, ao lado de boas
notas e de ver televisão, o que as
crianças pequenas mais desejam
é ter dinheiro e boa aparência
Aida
Veiga
Entre
roupa e brinquedo, criança prefere brinquedo, certo? Errado
os baixinhos brasileiros, contrariando a sabedoria convencional, gostam
mesmo é de ganhar roupinhas da moda. Tem mais. A garotada entre
6 e 11 anos, aquela que num passado cada vez mais remoto curtia boneca
e carrinho, morria de vergonha de aparecer e queria distância do
sexo oposto, hoje pensa em namorar, sim senhor, e, quando crescer, quer
mesmo é ser rica e famosa. Essas e outras revelações
são resultado de uma pesquisa que a Cartoon Network, canal de TV
a cabo dirigido ao público infantil, promoveu com 1.000
crianças de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Entre
entrevistas pessoais e discussões em grupo, formou-se um retrato
da criança brasileira de cidade grande que tem muito pouco a ver
com a idéia da criança à moda antiga: uma moçadinha
que gosta de brincar, é fato, mas preocupa-se com aparência
e dinheiro com empenho de gente grande. Para quem tem filhos nessa idade,
saber que essas características são disseminadas pode trazer
grande alívio. "Só descobri que meus filhos eram normais
depois de ir a muita reunião de pais na escola e conversar com
outras mães", comenta a empresária paulistana Maria Alice
Fonseca, mãe de Júlia, de 10 anos, e Guilhermo, 8. "Os dois
gostam de roupa de grife, fazem dieta, interessam-se pelo meu salário
e querem ser famosos tudo totalmente diferente da minha geração."
A pesquisa
mostra como mudaram o estilo de vida e os interesses das crianças
das classes A, B e C, alvo do estudo. Roupas são o presente favorito
de 46% delas e metade da turma confessa que, se sobra um dinheirinho da
mesada (que 40% ganham), opta por torrá-lo incrementando o vestuário.
Ter boa aparência é aspiração de 86% das crianças
entrevistadas. Tipicamente, quando questionados sobre o que mais gostam
em si mesmos, meninos e meninas citaram qualidades morais, como ser verdadeiro,
companheiro e extrovertido. Mas, ao fazerem a lista do que menos gostam
em suas pessoinhas, só deu problema ligado a aparência: rosto
feio, nariz grande, barriga "mole".
Hambúrguer
com culpa "Andar na moda virou obrigação para
todo mundo. Nesse contexto, a criança precisa se vestir como o
resto do grupo, para assegurar seu lugar", analisa a psicóloga
paulistana Ceres Alves de Araújo, professora da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. "Nos últimos
anos, tenho atendido cada vez mais crianças que se sentem excluídas
da turma porque não correspondem ao padrão de beleza vigente."
Segundo Ceres, é comum hoje em dia meninos e meninas manifestarem
culpa por "não resistir" e comer hambúrguer no fim de semana,
um sentimento normalmente associado a adultos com muita quilometragem
de regime. Mais preocupantes ainda são os casos de anorexia, distúrbio
de natureza psíquica que leva uma pessoa magérrima a se
achar gorda e não comer para perder mais peso algo, em princípio,
impensável para quem está na faixa dos 8 anos.
Para efeito
de comparação, mesmo nos Estados Unidos, onde o culto ao
físico tem um papel avassalador, uma pesquisa semelhante da Cartoon
Network apresentou resultados diversos: em primeiro lugar nas aspirações
infantis está tirar boas notas; em segundo, cursar uma universidade;
aparência vem em quinto lugar. "Lá, a beleza não é
tão valorizada quanto saber se virar sozinho", compara Pablo Verdin,
diretor de pesquisa da Turner Broadcasting, grupo a que pertence o canal
infantil. "A sociedade estimula a criança a ganhar o próprio
dinheiro, amarrar o próprio tênis, em suma, a ser independente
dos pais."
Não
há pai que não fique pelo menos um pouquinho ressabiado
diante de pesquisas que indicam como aquelas "gracinhas de gente grande",
geralmente tão apreciadas nos filhotes, parecem ganhar demasiada
preponderância na vida das crianças. Para tranqüilizá-los,
ressalte-se que o essencial a família continua ocupando
o centro do universo infantil. E de maneira positiva. A imensa maioria
das crianças pesquisadas (91%) considera que se relaciona bem com
pai e mãe e um número maior ainda (98%) acata seus conselhos,
os avós têm enorme influência moral (89% acham importante
a opinião deles) e 83% gostam de passar tempo junto dos familiares.
Fazendo o quê? Vendo televisão, é claro, a atividade
preferida da meninada (54% a apontam como favorita e outros 43% queriam
dispor de mais tempo para passar na sua frente). É da televisão,
basicamente, que vem o apelo extrafamiliar mais marcante: 80% se dizem
influenciados por artistas, esportistas e famosos em geral. Embora fortíssima,
a atração das crianças brasileiras por seus ídolos
não é necessariamente um ponto negativo. "Adolescentes até
podem imitar os valores das figuras famosas, mas crianças nessa
faixa de idade limitam-se a imitar gírias, jeito de vestir ou de
dançar", atenua a orientadora educacional Maria Tereza Andrade
e Silva (bem, é melhor não falar aqui, de novo, dos rebolados,
dos shortinhos, das popozudinhas...).
Em
segundo lugar, depois de ver televisão, o que as crianças
mais gostam é de brincar (ufa). Em terceiro lugar vem jogar videogame.
A TV é companheira nas refeições, diversão
nas horas vagas e momento de relax depois da escola. "Meus pais passam
o dia trabalhando. Quando estou sozinho, ligo a TV e nem vejo o tempo
passar", conta o paulistano Diogo Marchesini, 9 anos, descrevendo uma
rotina firmemente instalada nas vidas infantis. Na televisão, os
desenhos animados são os campeões de audiência (92%),
mas logo em seguida vem um programa que nem consta da pesquisa americana:
as novelas. Entre crianças de 6 a 8 anos, 63% dizem assistir a
novelas diariamente; dos 9 aos 12 anos, são 73%, sendo que entre
as meninas o porcentual vai a 83%. Nem no México, país noveleiro
por excelência também pesquisado pela Cartoon Network, esse
tipo de programa é tão popular: apenas um terço das
crianças mexicanas vê novelas. Com tamanha onipresença,
a televisão ocupa lugar de destaque no quarto dos sonhos da criança
brasileira, outra ambição que a pesquisa mediu. As mais
novas ficariam satisfeitas com um aparelho de TV (com canais por assinatura,
claro), acompanhado de computador, som e videogame. Já as mais
velhas fazem reivindicações arrojadas. Querem telão,
toda a parafernália de multimídia e equipamentos impressionantemente
parecidos com os de suíte de motel: cama de casal com colchão
de água, banheira de hidromassagem e geladeira.
Com aspirações
tão sensuais não é de estranhar que as crianças
brasileiras manifestem interesse precoce pelo sexo oposto com mais intensidade
do que as de outros países: 59% consideram muito importante namorar,
sendo que o número de meninos nesse caso (77%) é bem maior
que o de meninas (39%). "Namorar, mesmo, eles ainda não namoram.
Mas esses interesses demonstram que os brasileiros exprimem a sua sexualidade
mais do que outros povos", afirma Pablo Verdin. Na Argentina e no México,
só 25% dos pesquisados mostraram interesse em namorar; nos Estados
Unidos, não passaram de 21%.
Estudar,
sem exagerar Nos quatro países pesquisados, a maior
preocupação das crianças é com a educação.
No Brasil, 96% querem tirar boas notas e 79% aspiram a um diploma universitário.
As meninas gostam mais de ir à escola (87%) do que os meninos (73%),
mas nem todos são de ferro: metade deixa para fazer a lição
de casa no último minuto e 63% confessam levar bronca da professora
por não prestar atenção na aula. "Ninguém
quer ser ótimo aluno, é coisa de nerd (tradução:
bobalhão)", afirma a carioca Cristiane Almeida, 10 anos. "Mas é
preciso estudar, para não virar mané (tradução:
burro, de raciocínio lento)." Integrar-se ao grupo sempre foi,
e continua sendo, fundamental, em qualquer lugar do mundo. No Brasil,
71% das crianças disseram que querem ser populares entre os colegas.
Por popular, entenda-se (na definição dos entrevistados):
ser convidado para tudo, adotar uma atitude meio rebelde, ditar moda,
ser considerado bonito, saber das novidades e ser o primeiro a usar as
gírias dos mais velhos.
Bombardeada
por informações, expostas mais precocemente aos riscos da
competição, as crianças também demonstraram
uma preocupação excepcional com a segurança financeira.
Nas entrevistas, os pequenos pesquisados expressaram medo de que os pais
fiquem desempregados, um temor presente em todas as camadas sociais. Até
perdas inconcebíveis para a imensa maioria das crianças,
como não ir à Disney todo ano ou ficar sem o motorista,
podem reforçar esses sentimentos. "No meu consultório, já
atendi muitos meninos e meninas inseguros por não terem mais o
status financeiro de antes", diz o psiquiatra Haim Grunspun, especialista
em crianças e adolescentes.
Se hábitos
e valores mudaram, na essência criança continua a ser criança.
"Elas querem o que nós queríamos na idade delas: ir bem
na escola sem precisar se esforçar muito, ter amigos e ser queridos
e admirados por eles e ser atraentes para garantir eternamente o amor
dos pais", resume a psicóloga Ceres. "Só muda a forma de
conseguir tudo isso." Para o futuro, as crianças entrevistadas
disseram almejar um bom emprego, casamento, filhos, casa própria
e carro, tudo igualzinho a seus pais. Só que ninguém pensa
em conseguir isso sendo médico, engenheiro ou funcionário
público. O sonho dos baixinhos é fazer sucesso em profissões
que tragam fama e dinheiro, como jogador de futebol, modelo e artista.
A vida, espera-se, vai convencê-los de que, infelizmente (ou felizmente),
não há vaga para tanta celebridade.

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