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A matança
dos
inocentes
Morte de crianças
assinala a
escalada do conflito entre
israelenses e palestinos

Cristiano
Dias
Fotos AP
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Fotos AP
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| Desespero:
funeral de Iman Hijo, bebê palestino de 4 meses, vítima
de um morteiro israelense que caiu em sua casa |
Enterro
dos dois garotos judeus: crianças mortas tornam-se ícones
para ambos os lados |
O pesadelo
do conflito olho no olho entre palestinos e israelenses pôde ser
medido, na semana passada, pelas crianças engolidas no turbilhão
de violência. Na segunda-feira, Iman Hijo, um bebê de 4 meses,
morreu após um morteiro israelense atingir sua casa, em Gaza. Dos
22 feridos no ataque, incluindo a mãe e a avó de Hijo, outros
dez eram crianças. No dia seguinte, dois garotos judeus, Kobi Mendel
e Yosef Ishran, ambos de 14 anos, foram apedrejados e esfaqueados nos
arredores de um assentamento na Cisjordânia. O crânio deles
foi esmagado e os corpos, encontrados numa gruta na manhã seguinte,
desfigurados. Menos de 24 horas depois, outro bebê palestino, de
3 meses, foi ferido por estilhaços de uma bomba israelense na fronteira
de Gaza com o Egito. Quase um quarto das mais de 450 mortes nos sete meses
de Intifada, o levante palestino, envolve menores de 18 anos. Até
a última sexta-feira, 103 crianças palestinas e seis israelenses
haviam sido mortas.

Reema
Ahmed, 3 meses, com a mãe: sorte ao sobreviver à explosão
de uma bomba |
O modo como
elas perderam a vida na semana passada é coerente com a escalada
do conflito. As crianças já não são apenas
atingidas por balas de borracha no tumulto dos protestos palestinos ou
vítimas de terroristas-suicidas em Israel. Morrem no meio de ataques
com armamento pesado, como ocorreu com os bebês palestinos, ou massacrados
com fria determinação por terroristas, como se deu com os
meninos israelenses. Dos dois lados, as crianças mortas são
usadas como símbolo de luta, e a sede de vingança de seus
conterrâneos gera ainda mais violência. Foi o que aconteceu
com Mohammed Jamal Aldura, menino de 12 anos morto pelos israelenses em
setembro do ano passado diante das câmaras de televisão,
e com a garotinha Shalhevet Pass, de 10 meses, alvejada na cabeça
por um franco-atirador palestino.
Muitas famílias
tentam fugir dessa violência se mudando para bem longe das zonas
de risco. Com a generalização do conflito, contudo, não
há para onde correr. Os que ficam na linha de tiro geralmente
em áreas próximas a assentamentos judeus nos territórios
árabes ocupados desde a guerra de 1967 permanecem vulneráveis
aos ataques de ambos os lados. Como a maioria dos bombardeios e das trocas
de tiro ocorre à noite, a população acorda de madrugada
com o estardalhaço de helicópteros e foguetes explodindo
no quintal. Com isso, uma geração de crianças cresce
apavorada e sem amparo emocional. "O que estamos vendo aqui são
crianças sem esperança no futuro", diz Eyad el-Sarraj, diretor
do Programa de Saúde Mental de Gaza. Ele calcula que mais de 100.000
pessoas (10% da população total de Gaza) passaram por algum
tipo de tratamento mental no instituto coordenado por ele. Quase metade
da população de Gaza tem menos de 14 anos e inventa maneiras
mirabolantes para conviver com a violência. Sarraj conta que um
dos reflexos mais evidentes da guerra é um dos passatempos preferidos
da molecada: brincar de árabes e judeus que se matam, uma versão
bélica do inocente pega-pega. "A auto-estima dos palestinos está
tão baixa que os garotos sempre preferem ser o judeu, mais poderoso."
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| Yosef
Ishran (à esq.) e o amigo Kobi Mendel (à dir.):
morte bárbara e comoção em Israel |
Enquanto
as bombas caem, as duas figuras capazes de colocar fim à matança
vivem um impasse. É bem possível que o líder palestino
Yasser Arafat já não tenha condições de controlar
a infinidade de grupos paramilitares ou civis, armados com todo tipo de
arma, do fuzil ao carro-bomba, que atacam os israelenses para vingar seus
mortos e externar sua insatisfação com a falta de governo.
Nestes sete meses, também secaram os cofres da Autoridade Palestina
e, conseqüentemente, sua capacidade de dar empregos. Para
piorar, eram os judeus do outro lado da fronteira que empregavam boa parte
dos árabes. Com as fronteiras fechadas pela guerra, o desemprego
disparou, aumentando a insatisfação popular. A situação
agrava-se com a decisão do primeiro-ministro israelense, Ariel
Sharon, de não deixar ataque sem resposta e só voltar à
mesa de negociações se os palestinos depuserem as armas.
No fim da
semana passada, o Exército israelense passou a considerar como
forças inimigas a segurança pessoal de Arafat e o Fatah,
a organização dirigida pelo líder palestino. Na prática,
isso significa sinal verde para que os israelenses ataquem áreas
sob jurisdição palestina e prédios da Autoridade
Palestina, o que era impensável há alguns meses. A estratégia,
de ambos os lados, é a guerra de desgaste. Israel quer fazer com
que a Intifada custe caro aos palestinos. Já os árabes querem
tornar insustentável a presença dos judeus nos territórios
ocupados. Na lógica palestina, quanto mais israelenses forem assassinados
nesses assentamentos, pior fica a posição de Sharon. Nessa
queda-de-braço, a única certeza é que mais crianças
morrerão no fogo cruzado.
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