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Por que tudo
some no Pará?

Depois do relatório do BC,
desaparece outro processo
sobre os desvios do Banpará

Ana d'Angelo

 
Ana Araujo
Cristina Martins/O Liberal
Jader Barbalho e uma agência do Banpará: um caso cheio de sumiços

Já se sabia que o senador Jader Barbalho tem o poder de transformar em ouro tudo aquilo que toca. Afinal, fez política durante trinta anos, sociedade com um fraudador da Sudam, comprou fazendas invadidas por sem-terra, sua mulher é uma pobre criadora de rãs – e, no entanto, ele conseguiu erguer um patrimônio visível de 30 milhões de reais, pelo menos. Como Midas, tudo que toca vira ouro. Agora, aparecem sinais de que Jader talvez se esteja beneficiando de outro poder mágico – o que faz virar pó os documentos que o comprometem. O processo do Banpará, que investiga o desvio de 10 milhões de reais do banco ocorrido entre outubro e dezembro de 1984, é um caso exemplar. Virou ouro na conta de familiares e empresas de Jader, pois uma auditoria do Banco Central comprovou que o dinheiro foi parar nas contas de familiares e empresas do senador, mas virou pó na hora de ser investigado. Enviado ao Ministério Público do Pará em 1992, o processo desapareceu. Agora, soube-se que uma ação popular, que trata do mesmo desfalque, também sumiu. Ninguém viu, ninguém sabe onde está.

Em 1986, diante de denúncias de que Jader Barbalho estaria envolvido no desvio dos 10 milhões, o advogado paraense Paulo Nery Lamarão resolveu mover uma ação popular contra os responsáveis. Nessa ação, pede a condenação dos dirigentes do Banpará na época e dos beneficiários do desvio. Na lista de acusados, além de Jader, aparece o ex-diretor Hamilton Francisco de Assis Guedes, amigo do senador desde a adolescência. Ainda que iniciada a ação popular em 1986, o único registro de sua existência data de 1º de janeiro de 1998, conforme dados da 14ª Vara Cível da Justiça Estadual do Pará. Mas ninguém conhece seu paradeiro atual. "Nós não sabemos onde está", admite o escrivão responsável pela guarda dos papéis, Mauro Vianna, que procurou em vão os documentos na semana passada. "Talvez o processo tenha sido emprestado na base da confiança", arrisca Vianna, que, há um ano no cargo, garante que jamais o viu. "O processo está sumido", admite a juíza Rosileide Barros. Agora, ele só tem chance de reaparecer caso uma das partes o requisite. Se alguém o fizer, Rosileide dará prazo de dez dias para que a papelada seja localizada.

O sumiço da ação popular só foi detectado devido a outro processo. Duas semanas atrás, a 14ª Vara recebeu um pedido de vistas de um processo – que tramita na Justiça há quinze anos! – movido pelo mesmo advogado Paulo Lamarão e sobre o mesmo assunto: desvios do Banpará. A diferença é que, neste caso, o processo pede punição do ex-diretor Hamilton Guedes por ter recebido, em sua conta, parte de um pagamento de 1,3 milhão de reais feito pelo Banpará que deveria ter sido destinado a um instituto tecnológico de Brasília. A suspeita de que o instituto serviu apenas de escala do dinheiro é de 1985. Jader Barbalho, neste caso, não é citado. O processo, conforme a lei, foi entregue ao advogado de Hamilton Guedes. "Só espero que ele volte. E logo", clama Paulo Lamarão. Sossega, Lamarão: Jader não é citado, o processo deve voltar, sim.

 
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