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O show
do milhão
Com
empenho nunca visto, o governo
abre o balcão e esmaga a CPI
da Corrupção
Malu
Gaspar, de Brasília
AFP
 |
| O
presidente: reunião para pedir que os ministros agissem |
Rodrigues,
o bispo, pediu perdão fiscal de uma dívida de vários
milhões de reais para sua igreja evangélica, mas ninguém
ouviu suas preces. O sindicalista Luiz Antonio de Medeiros, liderando
a turma combativa do PL, só queria a presidência da BR Distribuidora,
mas o governo achou que ele estava indicando para o cargo gente "muito
desqualificada", segundo sábias palavras de um dos líderes
do governo. Combativa, insistente, sindical, a turma solicitou então
uma diretoria da Petrobras. De novo, não levou. A deputada Alcione
Athayde reivindicou uma emissorazinha de televisão em Campos, no
interior do Rio de Janeiro, só para distrair seus eleitores, e,
por caridade, pediu um troco, de 16 milhões de reais, para um hospital
de sua região. Coitada: não lhe deram nada e, suplente que
era, ainda lhe tomaram a cadeira de deputada pelo menos provisoriamente.
O bispo, o sindicalista e a sem-cadeira ficaram tristes na semana passada.
Falharam na hora de negociar no balcão que o Palácio do
Planalto instalou no Congresso Nacional para desmantelar a tentativa de
montar uma CPI da Corrupção.
Fotos Ana Araújo

Jader
Barbalho, que
manobrou as sessões: será que o ranário ajudou? |
RR

ACM,
cujos aliados recuaram na CPI: será que o painel violado ajudou? |
Mas
uma turma fez a festa. Robério Araújo, deputado do PL de
Roraima, deu o pulo-do-gato. Em apenas dois dias, arrancou 453.000
reais em verbas federais, para alegria do povo em Mucajaí e Normandia.
Luciano Bivar, do PSL de Pernambuco, um deputado bem mais comedido que
Robério Araújo, ficou com 80.000
para financiar projetos de interesse de seus eleitores. Augusto Nardes,
do PPB do Rio Grande do Sul, levou 103.000
reais para obras nos pampas. E o pessoal do PFL da Bahia, que age sob
as ordens do senador Antonio Carlos Magalhães, voltou a dar sinais
de sua inabalável firmeza ideológica. Ursicino Queiroz saiu
com 69.000 reais para benfeitorias em sua base
eleitoral e ainda teve a deferência de uma conversa com o presidente
da República. Luiz Moreira arrancou 60.000.
Eujácio Simões, que é filiado ao PL mas é
um baiano mais ACM que Gal Costa, levou 65.000
reais. Todos eles Bivar, Nardes, Ursicino, Moreira, Eujácio
haviam assinado o pedido para criar a CPI da Corrupção.
E todos, à última hora, retiraram a assinatura. O pedido
de CPI foi apresentado com 182 assinaturas, onze a mais que o necessário,
mas vinte deputados cancelaram o nome. Com isso, a CPI foi definitivamente
enterrada.
Eles retiraram
a assinatura porque receberam verbas do governo? Não, não
e não. Bivar estava mal informado. Assinara o pedido de CPI e,
de repente, descobriu que a adesão à CPI não era
unânime em seu PSL. "Para minha surpresa", sublinha ele. Aí,
retirou seu nome. Nardes, preocupado com as irregularidades, só
recuou depois que recebeu a promessa de Aloysio Nunes Ferreira, o secretário-geral
do Palácio do Planalto, de que o governo criará uma controladoria
anticorrupção. O governo acaba de instituir a corregedoria-geral,
entregue a Anadyr Rodrigues, mas Nardes quer a controladoria. Ele explica
a diferença: a corregedoria atua em casos passados de corrupção.
"A controladoria vai fiscalizar a corrupção enquanto estiver
ocorrendo." Ele acreditou que a controladoria vem aí. Osvaldo Biolchi,
do PMDB gaúcho, outro que retirou o nome, disse que aderiu à
CPI por causa dos rombos na Sudam e na Sudene, mas depois se convenceu
de que o governo "está dando duro" nos dois casos. Antes de se
convencer, Biolchi bateu um papo no ministério que libera verbas
para a construção de quadras de esportes.
Setenta
e cinco milhões Com a operação abafa correndo
solta, o deputado Arthur Virgílio, que ocupa o cargo de líder
do governo no Congresso, já estava certo de que o Palácio
do Planalto venceria a parada. Mas tinha sua explicação
para a vitória. "Os deputados voltarão à melhor razão,
e voltarão pelo argumento, voltarão pelo debate", dizia.
A razão, o argumento e o debate custaram, até sexta-feira
passada, em torno de 75 milhões de reais em verbas. O dinheiro
saiu dos cofres da Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano (Sedu),
cujas verbas são gerenciadas pela Caixa Econômica e se destinam
a obras de habitação, saneamento e infra-estrutura. De janeiro
até a semana passada, o cofre da Sedu liberara 16 milhões
de reais. Nos cinco dias úteis que antecederam a decisão
sobre a CPI da Corrupção, e também no dia seguinte,
sexta, saíram os 75 milhões de reais, entre verbas represadas
desde 1999. Parece até pouco, mas são apenas as primeiras
gotas de uma cachoeira. O governo garante que não liberou um tostão
motivado pela necessidade de convencer deputados a retirar a assinatura
da CPI. Mas por que razão a Sedu conseguiu miraculosamente destravar
a burocracia e desencadear uma chuva de verbas públicas sobre o
Congresso? Súbita agilidade administrativa, talvez.
O rolo compressor
do Palácio do Planalto mostrou o valor de alguns políticos
do Congresso. O deputado José Aleksandro, do PSL do Acre, assegurava
que manteria sua assinatura. "O quê? Não vou retirar assinatura,
vocês estão desinformados", garantia, com ar de indignação.
À meia-noite de quinta, na listinha de defecções
entregue pelos governistas, lá estava o nome de Aleksandro. Não
custa lembrar: Aleksandro ganhou uma cadeira com a cassação
de Hildebrando Pascoal, aquele que serrava gente, e está, ele mesmo,
enrolado na CPI do Narcotráfico. José Egídio Tinoco,
do PL do Rio de Janeiro, que ocupa uma cadeira como suplente, também
mostrou firmeza. Ele assinou a CPI e logo recebeu um telefonema do prefeito
do Rio, Cesar Maia, que foi curto e grosso. Ou Tinoco retirava o nome
da CPI ou o titular da cadeira reassumiria. Tinoco não vacilou:
entre deixar a boquinha em Brasília e voltar para Itaperuna, desistiu
da CPI.
Bananas
de Pijama Nunca o governo se empenhara tanto para barrar uma
CPI, talvez porque nenhuma tenha chegado tão perto de se materializar.
Na véspera do sepultamento da CPI, o presidente Fernando Henrique
chegou a reunir onze ministros para pedir-lhes que saíssem da letargia.
Antes disso, só dois haviam feito movimentos públicos. Francisco
Dornelles, ministro do Trabalho e do Congresso, reassumiu sua vaga para
tirar sua suplente, Alcione Athayde, aquela da televisão e do troco
hospitalar. Carlos Melles, ministro dos Esportes e do Congresso, despachou
entre deputados e verbas de quadras de esporte. A atuação
maciça da cúpula do governo revelou que os dois encarregados
da articulação política com o Congresso os
ministros Aloysio Nunes Ferreira e Pedro Parente, da Casa Civil
não estavam dando conta do recado. Os parlamentares não
perderam tempo: inspirados em bonecos que divertem o público infantil,
apelidaram a dupla de "Bananas de Pijama".
No pano
de fundo da operação encetada na semana passada, já
fazia muito tempo que a base de apoio ao governo no Congresso não
atuava unida e de forma coordenada. Na consumação desse
matrimônio repentino, inclui-se o senador Antonio Carlos Magalhães,
que ordenou a seus cinco comandados retirar o apoio à CPI. Inclui-se
também o senador Jader Barbalho, que, na condição
de presidente do Congresso Nacional, adiou uma sessão e convocou
outra de surpresa, manobrando segundo a conveniência do governo
para desorganizar a montagem da CPI. ACM e Jader eram signatários
do pedido de comissão de investigação. A unidade
governista reconstituída na semana passada pode servir para mostrar
que nem sempre faz mal ao governo ter um painel violado de um lado e um
ranário de outro.
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Luiz
Moreira
Deputado
do PFL da Bahia, assinou a CPI, recebeu dinheiro e retirou sua assinatura
60 000 reais
Ursicino
Queiroz
Outro
deputado do PFL da Bahia que fez o mesmo: pediu CPI, ganhou verba
e mudou de posição
69 000 reais
Luciano
Bivar
Afirma
que, para sua "surpresa", descobriu ser um dos poucos do PSL que
assinaram a CPI e então voltou atrás
80 000 reais
Augusto
Nardes
Conta
que exigiu do governo a criação de outro órgão
de combate à corrupção. Por isso recuou
103 000 reais
Robério
Araújo
Dos
que retiraram a assinatura da CPI, é o campeão em
volume de verba
453 000 reais
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TEATRO,
RASTEIRA E CASTIGO
Em
Brasília, as demissões de ministros costumam ficar
em duas categorias: são silenciosas ou barulhentas, mas nem
sempre se conhecem seus bastidores verdadeiros. Na semana passada,
a demissão do ministro da Integração Nacional,
senador Fernando Bezerra, foi um desastre público: teve um
teatro público, uma rasteira pública e um castigo
público. Bezerra enrolou-se quando se soube de suas relações
com a Metasa. A empresa, propriedade do ex-ministro de 1989 a 1998,
recebeu, nesse período, 3,9 milhões de reais de dinheiro
público. Deveria colocar de pé um projeto para industrializar
400 toneladas de tungstênio e empregar 145 pessoas. Mas, em
nove anos, o projeto mal saiu do papel. Na terça, o ministro
convocou entrevista coletiva e, entre pilhas de papéis e
uma fita de vídeo de uma década atrás, procurou
mostrar que, apesar de tudo, sua empresa não desviara recursos
públicos. Começou falando como ministro, disse que
suas explicações convenceram o presidente de sua inocência
e terminou comunicando que não era mais ministro do governo.
No teatro, Bezerra explicou que estava saindo porque não
teve solidariedade "ninguém me ligou para dizer 'e
aí, como está, Fernando, o que houve?' " de
membros do PMDB, seu partido. Balela. Há um mês, pressionado
por notícias sobre o gigantismo das fraudes na Sudam, o ministro
garantiu que ficaria no cargo enquanto tivesse apoio do presidente,
mesmo porque estava de saída do PMDB (veja frases abaixo).
Na entrevista, transmitida ao vivo pelas televisões,
Bezerra aplicou uma rasteira espetacular no presidente. Primeiro
anunciou ao país que estava saindo, e só depois, como
quem cumpre um ato desimportante, de pura formalidade burocrática,
avisou Fernando Henrique. Antes, o presidente recebera Bezerra,
ouvira suas explicações, mas, como de praxe, não
o demitiu, ainda que, dias antes, já tivesse escalado seus
auxiliares para preparar a fritura do ministro.
Alan Marques/Folha Imagem
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"Vou
continuar enquanto tiver o apoio do presidente da República"
Fernando
Bezerra, ministro, em 9 de abril passado
"Deixo
o ministério porque me faltou solidariedade do meu
partido"
Fernando Bezerra,
ex-ministro, na semana passada
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Logo
após, o governo aplicou ao ex-ministro um castigo público.
O presidente da Comissão de Ética do governo, João
Geraldo Piquet Carneiro, avisou Bezerra que precisava cancelar suas
intenções de reassumir, de imediato, a presidência
da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Carneiro disse que, como lidava com verbas para empresas, e a CNI
é uma entidade que as representa, Bezerra teria de atender
à quarentena de quatro meses. Pelo código de ética,
o governo está coberto de razão. Mas não deixa
de ser curioso: Bezerra, por todo o tempo em que foi ministro, morou
numa casa que pertence à CNI, ferindo o código de
ética. Só agora que deixou o ministério o governo
se lembrou de avisá-lo que a ética tem de ser rigorosamente
observada.
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VEJA também
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