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O público e
o privado
"Não
sei se é correto
tornar
público
um assunto
privado.
Às
vezes, porém, não
existe
jeito correto
de agir"
Até
que ponto uma pessoa deve tornar público um assunto privado? Andei
pensando nisso depois de escrever o artigo da semana passada, em que falei
sobre a paralisia cerebral de meu filho. Muita gente antes de mim já
tratou do tema. Um dos melhores exemplos é o de Marie Killilea.
Em 1952, ela publicou um livro sobre sua filha Karen. A imensa popularidade
da obra ajudou a difundir a fisioterapia no tratamento de crianças
com paralisia cerebral. Meu artigo é incomparavelmente menos útil.
Não tenho nada de bom a oferecer. Exceto, talvez, espantar alguns
fantasmas, exibindo sem muito pudor o caso de meu filho, a fim de demonstrar
que não é nenhuma tragédia.
O escritor
inglês Nick Hornby também optou por expor sua vida privada.
Ele tem um filho autista, que estuda numa escola especial. Por falta de
verbas, poucas crianças têm acesso a tais escolas. No ano
passado, Hornby reuniu contos inéditos de doze autores britânicos,
entre os quais Roddy Doyle e Irvine Welsh, e publicou-os no volume Speaking
with the Angel (Falando com o Anjo). Nenhum dos contos tem a menor
relação com o autismo. De cada exemplar vendido, porém,
2 dólares vão para instituições especializadas
no tratamento de crianças com esse tipo de problema. Em sua introdução,
Hornby abre as portas de sua casa, descrevendo a angústia de conviver
com um filho autista e a felicidade de ver o seu isolamento finalmente
rompido.
A caridade
é um excelente motivo para revelar a própria intimidade.
Como não doei o dinheiro do artigo da semana passada, não
posso me justificar dessa maneira. O crítico literário John
Bayley também não. Em 1998, ele fez um livro de memórias
relatando os efeitos do mal de Alzheimer sobre sua mulher, a escritora
Iris Murdoch. Foi um sucesso. Tanto que Bayley resolveu escrever um segundo
livro sobre o mesmo argumento. E, depois, um terceiro, transformando seu
casamento com uma doente terminal numa espécie de indústria.
Agora a história do casal está para virar filme. Perguntado
se não se sentia constrangido por confessar detalhes melancólicos
da decadência física de sua mulher, Bayley respondeu apenas
que, quando uma pessoa envelhece, acaba pondo a vergonha de lado.
Portadores
de câncer também costumam sentir a necessidade de falar sobre
sua doença. O cineasta italiano Nanni Moretti mostrou passo a passo
o tratamento de seu câncer no último episódio do filme
Caro Diário. Susan Sontag fez o contrário: em vez
de seguir o caminho da autobiografia, escrevendo a respeito do próprio
câncer, ela preferiu investigar a doença com grande distanciamento
intelectual, no ensaio A Doença como Metáfora. A
tese de Sontag é oposta ao que o título indica. Para ela,
a doença não deve ser vista como um instrumento de análise
filosófica ou social, mas pura e simplesmente como uma doença.
Parece uma obviedade. Não é. É difícil resistir
à tentação de tirar algum ensinamento do sofrimento.
Só que o sofrimento, infelizmente, não ensina nada. E a
morte ensina menos ainda.
Não
sei se é correto tornar público um assunto privado. Provavelmente
não. Às vezes, porém, não existe um jeito
correto de agir.
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