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Edição 1 700 - 16 de maio de 2001
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O público e o privado

"Não sei se é correto tornar
público um assunto privado.
Às vezes, porém, não existe
jeito
correto de agir"

Até que ponto uma pessoa deve tornar público um assunto privado? Andei pensando nisso depois de escrever o artigo da semana passada, em que falei sobre a paralisia cerebral de meu filho. Muita gente antes de mim já tratou do tema. Um dos melhores exemplos é o de Marie Killilea. Em 1952, ela publicou um livro sobre sua filha Karen. A imensa popularidade da obra ajudou a difundir a fisioterapia no tratamento de crianças com paralisia cerebral. Meu artigo é incomparavelmente menos útil. Não tenho nada de bom a oferecer. Exceto, talvez, espantar alguns fantasmas, exibindo sem muito pudor o caso de meu filho, a fim de demonstrar que não é nenhuma tragédia.

O escritor inglês Nick Hornby também optou por expor sua vida privada. Ele tem um filho autista, que estuda numa escola especial. Por falta de verbas, poucas crianças têm acesso a tais escolas. No ano passado, Hornby reuniu contos inéditos de doze autores britânicos, entre os quais Roddy Doyle e Irvine Welsh, e publicou-os no volume Speaking with the Angel (Falando com o Anjo). Nenhum dos contos tem a menor relação com o autismo. De cada exemplar vendido, porém, 2 dólares vão para instituições especializadas no tratamento de crianças com esse tipo de problema. Em sua introdução, Hornby abre as portas de sua casa, descrevendo a angústia de conviver com um filho autista e a felicidade de ver o seu isolamento finalmente rompido.

A caridade é um excelente motivo para revelar a própria intimidade. Como não doei o dinheiro do artigo da semana passada, não posso me justificar dessa maneira. O crítico literário John Bayley também não. Em 1998, ele fez um livro de memórias relatando os efeitos do mal de Alzheimer sobre sua mulher, a escritora Iris Murdoch. Foi um sucesso. Tanto que Bayley resolveu escrever um segundo livro sobre o mesmo argumento. E, depois, um terceiro, transformando seu casamento com uma doente terminal numa espécie de indústria. Agora a história do casal está para virar filme. Perguntado se não se sentia constrangido por confessar detalhes melancólicos da decadência física de sua mulher, Bayley respondeu apenas que, quando uma pessoa envelhece, acaba pondo a vergonha de lado.

Portadores de câncer também costumam sentir a necessidade de falar sobre sua doença. O cineasta italiano Nanni Moretti mostrou passo a passo o tratamento de seu câncer no último episódio do filme Caro Diário. Susan Sontag fez o contrário: em vez de seguir o caminho da autobiografia, escrevendo a respeito do próprio câncer, ela preferiu investigar a doença com grande distanciamento intelectual, no ensaio A Doença como Metáfora. A tese de Sontag é oposta ao que o título indica. Para ela, a doença não deve ser vista como um instrumento de análise filosófica ou social, mas pura e simplesmente como uma doença. Parece uma obviedade. Não é. É difícil resistir à tentação de tirar algum ensinamento do sofrimento. Só que o sofrimento, infelizmente, não ensina nada. E a morte ensina menos ainda.

Não sei se é correto tornar público um assunto privado. Provavelmente não. Às vezes, porém, não existe um jeito correto de agir.

 
 
   
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