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Política,
nem pensar
O escritor cubano sobrevive na
ilha de
Fidel driblando os
rótulos,
mas conta como
traça os retratos
devastadores da vida na
miséria
de Havana
Lucila
Soares
Marianne Greber
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"Dostoievski
teria
escrito um panfleto, não Crime e
Castigo, se
focalizasse a situação terrível da
Rússia"
|
O
escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez sempre diz que tem horror
à política. É sua maneira de continuar produzindo
num regime odiosamente repressivo. E, também, de continuar em Cuba,
que ama e não quer trocar pelo exílio forçado. Aos
50 anos, avista o mar do Caribe do sótão em que mora no
8º andar de um prédio caindo aos pedaços. Lá
embaixo está a dura, miserável, brutal realidade que serve
de cenário a Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana.
Os dois livros, que mesmo escapando ao foco político pintam o mais
devastador retrato da esqualidez da vida sob Fidel, o eterno, já
foram lançados em mais de vinte países (no Brasil, são
10.000 exemplares vendidos), mas não na ilha. Para se preservar,
nem em conversas com jornalistas estrangeiros ele fala de política.
O assunto, no entanto, está presente em cada linha da entrevista
que concedeu por telefone a VEJA, antes de embarcar para o Brasil, onde
participará da Bienal do Livro do Rio de Janeiro e de palestras
em São Paulo e Belo Horizonte.
Veja Por que seus livros não são lançados
em Cuba?
Gutiérrez
Uma editora grande aqui de Havana e não vou dizer qual
leu Trilogia Suja e O Rei de Havana e decidiu não
publicar, alegando razões comerciais. Mas na verdade fazem uma
leitura muito política de meus livros. Isso me incomoda. O pessoal
de Miami também faz uma leitura política. É incrível
o comentário que li no Miami Herald. Eles não falam
de literatura, falam como se eu fosse um político. As leituras
dos dois lados me dão raiva, porque diminuem o valor de meu trabalho
literário e tentam me manipular. Por isso trato de me afastar o
máximo possível da política.
Veja Cuba pode ser vista como a pequena ilha que resiste
ao imperialismo ianque, como uma ditadura que sintetiza a falência
do modelo socialista, como a pátria do rum, dos charutos e da salsa.
O país que o senhor mostra em seus livros é paupérrimo,
sórdido, sem perspectiva. Qual a visão mais verdadeira?
Gutiérrez
Para mim é difícil fazer esse tipo de análise. Cuba
é um país em que a política preside a vida individual
de todas as pessoas desde a revolução socialista, há
42 anos. E não me interessa, ou não quero, ou não
devo, fazer análise política. Minha obra não é
jornalística, nem sociológica, nem antropológica.
Meus livros são resultado de catorze anos de vida num bairro muito
marginal, numa das áreas mais pobres de Havana. Tenho uma capacidade
de observação muito apurada, aperfeiçoada em 26 anos
de jornalismo, e utilizo essa farta matéria-prima que o dia-a-dia
me oferece para fazer literatura. Nada além disso.
Veja Filmes como Morango e Chocolate e Buena Vista
Social Club, que fixaram uma imagem marcante de Cuba, retratam com
fidelidade a vida em seu país?
Gutiérrez
Como meus livros, esses filmes mostram fielmente um pedaço da vida
em Havana. É claro que a realidade do país é muito
mais complexa. O mesmo acontece quando um cubano que conhece o Brasil
pelas novelas de televisão ou por filmes brasileiros conhece o
país ao vivo. No ano passado me convidaram para ir a Fortaleza.
Imediatamente me lembrei de Glauber Rocha, de quem vi todos os filmes
na época em que foram feitos, e pensei: "Vou para Deus e o Diabo
na Terra do Sol". Fui no avião pensando nisso e, quando cheguei,
não era nada do que imaginara. Tinha chegado a uma metrópole.
E eu me dei conta de algo interessante: o artista é antes de tudo
um mentiroso. O que acontece é que a gente sabe organizar as coisas
de maneira que não se vejam as costuras entre ficção
e realidade.
Veja Alguns dos maiores escritores cubanos, como Guillermo
Cabrera Infante, vivem no exílio e fazem de sua obra uma plataforma
de crítica ao regime de Fidel Castro. O senhor traça um
retrato muito cruel de Havana, mas afirma que seu trabalho não
é político. Qual é o sentido de sua obra literária?
Gutiérrez
Dostoievski e seu Crime e Castigo são o melhor exemplo do
que penso a esse respeito. Se ele tivesse decidido centrar sua narrativa
na situação terrível que a Rússia vivia naquele
momento, teria escrito um panfleto político, nada mais. No entanto,
construiu um personagem maravilhoso, o Rashkolnikov, e a partir dele fez
um romance fantástico, um clássico da literatura universal.
Ressalvando-se a diferença entre mim e o gênio que é
Dostoievski, trato de usar o momento e o espaço em que vivo para
fazer literatura. Se quisesse fazer política, teria uma coluna
num jornal, um programa de rádio ou algo assim. A literatura tem
de ser mais universal, mais atemporal. A política é muito
circunstancial.
Veja Foi por alguma circunstância política que
o senhor decidiu trocar o jornalismo pela literatura?
Gutiérrez
Não decidi nada. Decidiram por mim. Quando saiu a Trilogia Suja
de Havana na Espanha, em 1998, passei três meses na Europa promovendo
o livro. Trabalhava havia doze anos numa revista, fazendo jornalismo honesto.
Quando voltei, eles me disseram: "Não queremos mais que você
trabalhe aqui". Perguntei o motivo e inventaram um pretexto administrativo,
de que tinha ficado três meses fora. Fui demitido de lá e
também de outra revista, em que tinha uma página que se
chamava "A Cuba de Pedro Juan Gutiérrez", muito bonita. Nunca abandonei
o jornalismo, ele é que me abandonou.
Veja Abandonou como profissão, mas há uma marca
muito visível em sua obra literária. Qual a influência
do jornalista sobre o escritor Gutiérrez?
Gutiérrez
O jornalismo me ensinou, em primeiro lugar, a investigar com muito rigor.
Escrever é o último passo. Depois de dois meses investigando
é possível escrever tudo em três horas. Esse é
um aprendizado fundamental do jornalismo. Escrevo muito rápido.
Preparo tudo muito bem, decido o começo e o final e me sento para
escrever. Outra coisa que o jornalismo me ensinou foi ser econômico
na linguagem. Não escrever à toa, porque, se lhe dão
uma página, é uma página, não são duas.
Então não é possível gastar tempo com adjetivos,
retórica, bobagens. É preciso enxugar para poder dizer o
máximo no espaço disponível. Mas é claro que
tudo isso vai para o espaço em determinados momentos. Há
personagens que me arrastam. Em O Rei de Havana apareceu Sandra,
um travesti que inventei apenas para masturbar Reynaldo, o personagem
principal, e ir embora. Pois o rei se enroscou com o travesti e Sandra
acabou participando de três ou quatro capítulos. O tipo começou
a ganhar em humanidade, em força. E isso é que é
maravilhoso na literatura, e diferente do jornalismo: ela é feita
com o coração, enquanto o outro serve no máximo para
ganhar o feijão-com-arroz.
Veja O senhor começou a trabalhar com 11 anos, como
vendedor de sorvetes, e hoje é um escritor reconhecido internacionalmente,
numa trajetória que pode ser comparada à de um self-made
man. Confere?
Gutiérrez
Não me identifico com essa imagem de vencedor. O verdadeiro self-made
man foi meu avô, que nasceu nas Ilhas Canárias e veio
para Cuba muito jovem, com 17 ou 18 anos. Casou-se com uma cubana, teve
oito filhos e sempre nos meteu na cabeça a honra, a disciplina,
a necessidade de trabalhar. Morreu analfabeto, aos 85 anos, sem nunca
ter deixado de trabalhar no campo. O pessoal das Canárias tem essa
fama aqui em Cuba. É uma gente um pouco bruta, analfabeta, mas
muito honrada, que dá valor à verdade e não mente
jamais. Meu pai era assim também. Um sujeito estupendo. Comecei
a trabalhar com ele em Matanzas, perto do balneário de Varadero,
onde fui criado. Eu vendia principalmente no porto e na rinha de galos
de briga, porque lá se conseguia vender o sorvete mais caro e ganhar
um pouco mais de dinheiro. Foi uma época muito interessante, fim
dos anos 50 e anos 60. Pensei várias vezes em escrever sobre esse
período, e o livro se chamaria "O Filho do Sorveteiro". Se não
me decidi ainda por esse livro, é porque teria obrigatoriamente
de fazer análises e julgamentos que não me interessa fazer
agora.
Veja Nesse livro de memórias, qual seria o registro
do movimento de Sierra Maestra?
Gutiérrez
Eu
tinha 8 para 9 anos quando Fulgencio Batista foi finalmente derrubado.
Lembro-me perfeitamente do medo que tinha dele, sabia que o ditador tinha
virado um assassino, e isso me provocava pesadelos. Meus pais ouviam a
Rádio Rebelde, a emissora dos guerrilheiros, à noite, muito
baixinho. Lembro-me do terror que havia em Matanzas. E me lembro, com
muita força, da enorme alegria nos primeiros dias de janeiro de
1959, quando os barbudos desceram da Sierra Maestra e foram avançando
para Havana.
Veja Seus pais apoiavam a guerrilha?
Gutiérrez
Eles não participaram do movimento clandestino, mas contribuíam
com dinheiro, comprando bônus do movimento. Em minha casa sempre
houve uma atitude política. Aliás, lá e em todo o
país houve um engajamento muito grande, que continuou depois, nos
primeiros anos da revolução. Com 16 anos fui para o serviço
militar e fiquei quatro anos e meio no Exército, com muita alegria.
Naquele momento eu me entreguei de todo o coração ao projeto
revolucionário.
Veja Hoje a realidade é bem diferente. Os jovens cubanos
convivem com um forte apelo de consumo, principalmente depois de liberada
a circulação de dólares no país. O que aconteceu?
Gutiérrez
Boa parte dos jovens está dolarizada. Eles gostam de dinheiro e
de viver bem. E me parece que em todo o mundo acontece isso. Os últimos
dez ou quinze anos, talvez vinte, foram desastrosos para o espírito
humano. Houve um avanço terrível do consumismo. Houve um
retrocesso na espiritualidade do ser humano e na cultura. Hoje as pessoas
lêem menos, e existem cada vez mais filmes imbecilizantes, desses
que os Estados Unidos fazem. E isso permeia Cuba, claro. Não estamos
em Marte nem em Júpiter. Aqui não entra canal estrangeiro
de TV, não circulam revistas estrangeiras, não se importam
livros do México, da Espanha ou da Argentina, como se fazia antes,
mas estamos no mundo. Há muitos turistas, que trazem revistas,
livros, discos, idéias. Então é ilusão achar
que o que acontece aqui é um fenômeno exclusivamente cubano.
Veja Seus personagens também aspiram à universalidade?
Gutiérrez
Eles poderiam viver na zona pobre de qualquer cidade do mundo. Aqui em
Havana moro num bairro muito assim, decadente, marginal, e por isso tenho
uma matéria-prima de observação incrível.
Mas creio que no Rio de Janeiro, por exemplo, ou em Madri, ou em Nova
York, um escritor que viva em qualquer área pobre da cidade e tenha
o tempo que eu tive para observar terá matéria-prima semelhante
para fazer literatura. A miséria está globalizada, e ninguém
achou a receita para acabar com ela.
Veja Além de miseráveis, seus personagens só
pensam e fazem sexo o tempo todo. Os cubanos são assim mesmo?
Gutiérrez
Claro que não. Somos um povo latino e sensual, como os brasileiros,
mas não somos tarados. Meus personagens são um pouco mais
sensuais que a média, talvez porque esse seja o tipo de gente que
mais me atrai. Há histórias de escritores de romances policiais
que se identificam com crimes e assassinatos. Eu não tenho nada
a ver com violência, prefiro me identificar com sexo.
Veja Foi por isso que no ano passado o senhor posou nu para
uma revista alemã?
Gutiérrez
O
fotógrafo da revista insistiu muito, queria fazer referência
à sensualidade de meus personagens. Eu acabei cedendo, mas não
apareci totalmente nu. Não tenho mais idade para isso. Talvez aos
20 anos topasse um nu frontal. No final, a revista publicou uma foto até
pequena.
Veja Em Trilogia Suja de Havana, o personagem Pedro
Juan fala de muita gente que deixou Cuba e de pessoas que são "incapazes
de viver longe, apesar de tudo". É por isso que o senhor continua
vivendo na ilha?
Gutiérrez
Gosto
de muitos países. O México é um país maravilhoso,
a Espanha é magnífica e eu poderia viver em qualquer dos
dois países, até porque não perco o idioma. Mas Cuba
é encantadora. Gosto das mulatas, amo as negras. Aqui tenho meus
quatro filhos, minha mulher. Aqui tenho minha mãe, que está
velhinha, e acho que as pessoas idosas precisam de quem cuide delas. Mas,
principalmente, sou muito feliz, apesar de todas as dificuldades.
Veja Em algum momento essas dificuldades já o fizeram
pensar em viver fora de Cuba?
Gutiérrez
Não. Para sair daqui seria preciso que me obrigassem. E eu espero
que não o façam, porque não me meto em política,
não tenho nem terei nada a ver com grupos políticos que
possam existir dentro ou fora da ilha. Não quero ter de sair de
Cuba nunca. Preste atenção: se algum dia você souber
que estou vivendo em outro lugar, pode ter certeza de que fui obrigado
a deixar o país.
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