Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 700 - 16 de maio de 2001
Entrevista PEDRO JUAN GUTIÉRREZ

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas

(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Notas internacionais
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Política, nem pensar

O escritor cubano sobrevive na
ilha
de Fidel driblando os rótulos,
mas conta
como traça os retratos
devastadores da vida
na miséria
de Havana

Lucila Soares

 
Marianne Greber

"Dostoievski teria escrito um panfleto, não Crime e Castigo, se focalizasse a situação terrível da Rússia"

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez sempre diz que tem horror à política. É sua maneira de continuar produzindo num regime odiosamente repressivo. E, também, de continuar em Cuba, que ama e não quer trocar pelo exílio forçado. Aos 50 anos, avista o mar do Caribe do sótão em que mora no 8º andar de um prédio caindo aos pedaços. Lá embaixo está a dura, miserável, brutal realidade que serve de cenário a Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana. Os dois livros, que mesmo escapando ao foco político pintam o mais devastador retrato da esqualidez da vida sob Fidel, o eterno, já foram lançados em mais de vinte países (no Brasil, são 10.000 exemplares vendidos), mas não na ilha. Para se preservar, nem em conversas com jornalistas estrangeiros ele fala de política. O assunto, no entanto, está presente em cada linha da entrevista que concedeu por telefone a VEJA, antes de embarcar para o Brasil, onde participará da Bienal do Livro do Rio de Janeiro e de palestras em São Paulo e Belo Horizonte.

Veja – Por que seus livros não são lançados em Cuba?
Gutiérrez – Uma editora grande aqui de Havana – e não vou dizer qual – leu Trilogia Suja e O Rei de Havana e decidiu não publicar, alegando razões comerciais. Mas na verdade fazem uma leitura muito política de meus livros. Isso me incomoda. O pessoal de Miami também faz uma leitura política. É incrível o comentário que li no Miami Herald. Eles não falam de literatura, falam como se eu fosse um político. As leituras dos dois lados me dão raiva, porque diminuem o valor de meu trabalho literário e tentam me manipular. Por isso trato de me afastar o máximo possível da política.

Veja – Cuba pode ser vista como a pequena ilha que resiste ao imperialismo ianque, como uma ditadura que sintetiza a falência do modelo socialista, como a pátria do rum, dos charutos e da salsa. O país que o senhor mostra em seus livros é paupérrimo, sórdido, sem perspectiva. Qual a visão mais verdadeira?
Gutiérrez – Para mim é difícil fazer esse tipo de análise. Cuba é um país em que a política preside a vida individual de todas as pessoas desde a revolução socialista, há 42 anos. E não me interessa, ou não quero, ou não devo, fazer análise política. Minha obra não é jornalística, nem sociológica, nem antropológica. Meus livros são resultado de catorze anos de vida num bairro muito marginal, numa das áreas mais pobres de Havana. Tenho uma capacidade de observação muito apurada, aperfeiçoada em 26 anos de jornalismo, e utilizo essa farta matéria-prima que o dia-a-dia me oferece para fazer literatura. Nada além disso.

Veja – Filmes como Morango e Chocolate e Buena Vista Social Club, que fixaram uma imagem marcante de Cuba, retratam com fidelidade a vida em seu país?
Gutiérrez – Como meus livros, esses filmes mostram fielmente um pedaço da vida em Havana. É claro que a realidade do país é muito mais complexa. O mesmo acontece quando um cubano que conhece o Brasil pelas novelas de televisão ou por filmes brasileiros conhece o país ao vivo. No ano passado me convidaram para ir a Fortaleza. Imediatamente me lembrei de Glauber Rocha, de quem vi todos os filmes na época em que foram feitos, e pensei: "Vou para Deus e o Diabo na Terra do Sol". Fui no avião pensando nisso e, quando cheguei, não era nada do que imaginara. Tinha chegado a uma metrópole. E eu me dei conta de algo interessante: o artista é antes de tudo um mentiroso. O que acontece é que a gente sabe organizar as coisas de maneira que não se vejam as costuras entre ficção e realidade.

Veja – Alguns dos maiores escritores cubanos, como Guillermo Cabrera Infante, vivem no exílio e fazem de sua obra uma plataforma de crítica ao regime de Fidel Castro. O senhor traça um retrato muito cruel de Havana, mas afirma que seu trabalho não é político. Qual é o sentido de sua obra literária?
Gutiérrez – Dostoievski e seu Crime e Castigo são o melhor exemplo do que penso a esse respeito. Se ele tivesse decidido centrar sua narrativa na situação terrível que a Rússia vivia naquele momento, teria escrito um panfleto político, nada mais. No entanto, construiu um personagem maravilhoso, o Rashkolnikov, e a partir dele fez um romance fantástico, um clássico da literatura universal. Ressalvando-se a diferença entre mim e o gênio que é Dostoievski, trato de usar o momento e o espaço em que vivo para fazer literatura. Se quisesse fazer política, teria uma coluna num jornal, um programa de rádio ou algo assim. A literatura tem de ser mais universal, mais atemporal. A política é muito circunstancial.

Veja – Foi por alguma circunstância política que o senhor decidiu trocar o jornalismo pela literatura?
Gutiérrez – Não decidi nada. Decidiram por mim. Quando saiu a Trilogia Suja de Havana na Espanha, em 1998, passei três meses na Europa promovendo o livro. Trabalhava havia doze anos numa revista, fazendo jornalismo honesto. Quando voltei, eles me disseram: "Não queremos mais que você trabalhe aqui". Perguntei o motivo e inventaram um pretexto administrativo, de que tinha ficado três meses fora. Fui demitido de lá e também de outra revista, em que tinha uma página que se chamava "A Cuba de Pedro Juan Gutiérrez", muito bonita. Nunca abandonei o jornalismo, ele é que me abandonou.

Veja – Abandonou como profissão, mas há uma marca muito visível em sua obra literária. Qual a influência do jornalista sobre o escritor Gutiérrez?
Gutiérrez – O jornalismo me ensinou, em primeiro lugar, a investigar com muito rigor. Escrever é o último passo. Depois de dois meses investigando é possível escrever tudo em três horas. Esse é um aprendizado fundamental do jornalismo. Escrevo muito rápido. Preparo tudo muito bem, decido o começo e o final e me sento para escrever. Outra coisa que o jornalismo me ensinou foi ser econômico na linguagem. Não escrever à toa, porque, se lhe dão uma página, é uma página, não são duas. Então não é possível gastar tempo com adjetivos, retórica, bobagens. É preciso enxugar para poder dizer o máximo no espaço disponível. Mas é claro que tudo isso vai para o espaço em determinados momentos. Há personagens que me arrastam. Em O Rei de Havana apareceu Sandra, um travesti que inventei apenas para masturbar Reynaldo, o personagem principal, e ir embora. Pois o rei se enroscou com o travesti e Sandra acabou participando de três ou quatro capítulos. O tipo começou a ganhar em humanidade, em força. E isso é que é maravilhoso na literatura, e diferente do jornalismo: ela é feita com o coração, enquanto o outro serve no máximo para ganhar o feijão-com-arroz.

Veja – O senhor começou a trabalhar com 11 anos, como vendedor de sorvetes, e hoje é um escritor reconhecido internacionalmente, numa trajetória que pode ser comparada à de um self-made man. Confere?
Gutiérrez – Não me identifico com essa imagem de vencedor. O verdadeiro self-made man foi meu avô, que nasceu nas Ilhas Canárias e veio para Cuba muito jovem, com 17 ou 18 anos. Casou-se com uma cubana, teve oito filhos e sempre nos meteu na cabeça a honra, a disciplina, a necessidade de trabalhar. Morreu analfabeto, aos 85 anos, sem nunca ter deixado de trabalhar no campo. O pessoal das Canárias tem essa fama aqui em Cuba. É uma gente um pouco bruta, analfabeta, mas muito honrada, que dá valor à verdade e não mente jamais. Meu pai era assim também. Um sujeito estupendo. Comecei a trabalhar com ele em Matanzas, perto do balneário de Varadero, onde fui criado. Eu vendia principalmente no porto e na rinha de galos de briga, porque lá se conseguia vender o sorvete mais caro e ganhar um pouco mais de dinheiro. Foi uma época muito interessante, fim dos anos 50 e anos 60. Pensei várias vezes em escrever sobre esse período, e o livro se chamaria "O Filho do Sorveteiro". Se não me decidi ainda por esse livro, é porque teria obrigatoriamente de fazer análises e julgamentos que não me interessa fazer agora.

Veja – Nesse livro de memórias, qual seria o registro do movimento de Sierra Maestra?
Gutiérrez – Eu tinha 8 para 9 anos quando Fulgencio Batista foi finalmente derrubado. Lembro-me perfeitamente do medo que tinha dele, sabia que o ditador tinha virado um assassino, e isso me provocava pesadelos. Meus pais ouviam a Rádio Rebelde, a emissora dos guerrilheiros, à noite, muito baixinho. Lembro-me do terror que havia em Matanzas. E me lembro, com muita força, da enorme alegria nos primeiros dias de janeiro de 1959, quando os barbudos desceram da Sierra Maestra e foram avançando para Havana.

Veja – Seus pais apoiavam a guerrilha?
Gutiérrez – Eles não participaram do movimento clandestino, mas contribuíam com dinheiro, comprando bônus do movimento. Em minha casa sempre houve uma atitude política. Aliás, lá e em todo o país houve um engajamento muito grande, que continuou depois, nos primeiros anos da revolução. Com 16 anos fui para o serviço militar e fiquei quatro anos e meio no Exército, com muita alegria. Naquele momento eu me entreguei de todo o coração ao projeto revolucionário.

Veja – Hoje a realidade é bem diferente. Os jovens cubanos convivem com um forte apelo de consumo, principalmente depois de liberada a circulação de dólares no país. O que aconteceu?
Gutiérrez – Boa parte dos jovens está dolarizada. Eles gostam de dinheiro e de viver bem. E me parece que em todo o mundo acontece isso. Os últimos dez ou quinze anos, talvez vinte, foram desastrosos para o espírito humano. Houve um avanço terrível do consumismo. Houve um retrocesso na espiritualidade do ser humano e na cultura. Hoje as pessoas lêem menos, e existem cada vez mais filmes imbecilizantes, desses que os Estados Unidos fazem. E isso permeia Cuba, claro. Não estamos em Marte nem em Júpiter. Aqui não entra canal estrangeiro de TV, não circulam revistas estrangeiras, não se importam livros do México, da Espanha ou da Argentina, como se fazia antes, mas estamos no mundo. Há muitos turistas, que trazem revistas, livros, discos, idéias. Então é ilusão achar que o que acontece aqui é um fenômeno exclusivamente cubano.

Veja – Seus personagens também aspiram à universalidade?
Gutiérrez – Eles poderiam viver na zona pobre de qualquer cidade do mundo. Aqui em Havana moro num bairro muito assim, decadente, marginal, e por isso tenho uma matéria-prima de observação incrível. Mas creio que no Rio de Janeiro, por exemplo, ou em Madri, ou em Nova York, um escritor que viva em qualquer área pobre da cidade e tenha o tempo que eu tive para observar terá matéria-prima semelhante para fazer literatura. A miséria está globalizada, e ninguém achou a receita para acabar com ela.

Veja – Além de miseráveis, seus personagens só pensam e fazem sexo o tempo todo. Os cubanos são assim mesmo?
Gutiérrez – Claro que não. Somos um povo latino e sensual, como os brasileiros, mas não somos tarados. Meus personagens são um pouco mais sensuais que a média, talvez porque esse seja o tipo de gente que mais me atrai. Há histórias de escritores de romances policiais que se identificam com crimes e assassinatos. Eu não tenho nada a ver com violência, prefiro me identificar com sexo.

Veja – Foi por isso que no ano passado o senhor posou nu para uma revista alemã?
Gutiérrez – O fotógrafo da revista insistiu muito, queria fazer referência à sensualidade de meus personagens. Eu acabei cedendo, mas não apareci totalmente nu. Não tenho mais idade para isso. Talvez aos 20 anos topasse um nu frontal. No final, a revista publicou uma foto até pequena.

Veja – Em Trilogia Suja de Havana, o personagem Pedro Juan fala de muita gente que deixou Cuba e de pessoas que são "incapazes de viver longe, apesar de tudo". É por isso que o senhor continua vivendo na ilha?
Gutiérrez – Gosto de muitos países. O México é um país maravilhoso, a Espanha é magnífica e eu poderia viver em qualquer dos dois países, até porque não perco o idioma. Mas Cuba é encantadora. Gosto das mulatas, amo as negras. Aqui tenho meus quatro filhos, minha mulher. Aqui tenho minha mãe, que está velhinha, e acho que as pessoas idosas precisam de quem cuide delas. Mas, principalmente, sou muito feliz, apesar de todas as dificuldades.

Veja – Em algum momento essas dificuldades já o fizeram pensar em viver fora de Cuba?
Gutiérrez – Não. Para sair daqui seria preciso que me obrigassem. E eu espero que não o façam, porque não me meto em política, não tenho nem terei nada a ver com grupos políticos que possam existir dentro ou fora da ilha. Não quero ter de sair de Cuba nunca. Preste atenção: se algum dia você souber que estou vivendo em outro lugar, pode ter certeza de que fui obrigado a deixar o país.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS