Sérgio
Abranches
Desgovernança
"Quando
o presidente deixa de exercer
atração sobre a maioria, forças centrífugas
passam a dominar e levam à fragmentação
de sua base de apoio. O
resultado é a perda
da capacidade de governança"
Ilustração Ale Setti
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A fonte da maioria dos problemas que o governo vem enfrentando está
na desarticulação e perda de direção política
da maioria, determinada pela ruptura da coalizão governista. O
governo perdeu a capacidade de conduzir a maioria. Em qualquer sistema
de governança democrática, o chefe do governo lidera, conduz
e articula a maioria. Coisa que Fernando Henrique fez, com mais sucesso
que insucesso, ao longo de todo o seu primeiro mandato.
Foi quando se tornou parte dos conflitos e rivalidades, típicos
das coalizões multipartidárias, que o presidente perdeu
o controle do processo político. Essas contrariedades entre parceiros
são usuais, quando se vai aproximando o período de definição
das candidaturas presidenciais. O chefe de governo deve arbitrar e resolver
esses conflitos, sem se envolver. Fernando Henrique, ao contrário,
deixou que o PSDB rompesse o acordo que dava equilíbrio à
coalizão. Preferiu não arbitrar o conflito no Senado, que
envolvia PFL e PMDB, embora estivesse centrado na pendenga pessoal entre
Barbalho e ACM. Acabou tomando partido e contribuindo para alimentar as
rivalidades.
Quando o presidente não agrega, deixa de exercer atração
sobre a maioria, forças centrífugas passam a dominar e levam
à fragmentação de sua base de apoio. Os partidos
e suas facções passam a responder a estímulos diversos,
muitas vezes localizados, e muitos antagônicos entre si. O resultado
é a perda da capacidade de governança.
Nesses casos, parece que a política não tem racionalidade.
O senador Antonio Carlos Magalhães, político histórico
e experiente, jactar-se a procuradores da República de conhecer
o voto de colegas em uma votação secreta e controvertida,
dando início a um caso que pode afastá-lo da vida política,
não parece fazer sentido. A escalada do conflito entre ele e o
senador Jader Barbalho, que terminou por enfraquecer politicamente os
dois, também parece não atender a objetivo razoável.
Aliados do presidente da República, em concorrência com parceiros
no Congresso, tomarem decisões que levam ao colapso da coalizão
governista e a uma crise de governança não parece sensato.
Mas em nenhuma dessas ações faltou racionalidade. São
decisões baseadas em considerações parciais, objetivos
específicos, que não levam em conta a estratégia
ou o interesse geral do governo. Essas razões se tornam predominantes
na ausência de condução política.
Com o campo governista sem liderança central, o processo político
assume lógica centrífuga, fica errático, ao sabor
de eventos menores, cujos efeitos são maiores que eles e não
podem ser antecipados. Resultam da iniciativa isolada de agentes políticos
no espaço governista, cujo centro que é a Presidência
está fraco ou ausente, ou do aproveitamento dessas oportunidades
pela oposição.
O presidente Fernando Henrique decidiu afastar-se do processo político
já durante a crise sucessória no Congresso. Os desencontros
entre o PSDB, o PMDB e o PFL produziram fissuras que ainda não
foram suturadas. O PMDB está com sua liderança formal no
córner, tendo de responder diariamente a novas acusações
de corrupção. O caso do painel feriu fundamente a legitimidade
da liderança de ACM e enfraquece politicamente o PFL. A sucessão
de acusações e suspeitas com relação ao senador
Barbalho fortaleceu as facções hostis ao governo no PMDB.
Uma crise de governança pode transformar-se em crise de governabilidade,
sobretudo quando não há lideranças alternativas.
Afeta decisões cruciais: a inação governamental tanto
no setor energético quanto no reaparecimento da aftosa no Sul tem
a ver com problemas de governança.
O presidente Fernando Henrique não é um lame duck,
pois não há nenhum candidato favorito indiscutível
à sua sucessão, exercendo atração sobre a
maioria. Só o presidente pode superar essa crise, reassumindo a
direção política do país. Se não o
fizer, a política continuará à deriva.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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