Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 700 - 16 de maio de 2001
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas

(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Notas internacionais
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Sérgio Abranches

Desgovernança

"Quando o presidente deixa de exercer
atração sobre a maioria, forças centrífugas
passam a dominar e levam à fragmentação
de sua base de apoio.
O resultado é a perda
da capacidade de
governança"


Ilustração Ale Setti


A fonte da maioria dos problemas que o governo vem enfrentando está na desarticulação e perda de direção política da maioria, determinada pela ruptura da coalizão governista. O governo perdeu a capacidade de conduzir a maioria. Em qualquer sistema de governança democrática, o chefe do governo lidera, conduz e articula a maioria. Coisa que Fernando Henrique fez, com mais sucesso que insucesso, ao longo de todo o seu primeiro mandato.

Foi quando se tornou parte dos conflitos e rivalidades, típicos das coalizões multipartidárias, que o presidente perdeu o controle do processo político. Essas contrariedades entre parceiros são usuais, quando se vai aproximando o período de definição das candidaturas presidenciais. O chefe de governo deve arbitrar e resolver esses conflitos, sem se envolver. Fernando Henrique, ao contrário, deixou que o PSDB rompesse o acordo que dava equilíbrio à coalizão. Preferiu não arbitrar o conflito no Senado, que envolvia PFL e PMDB, embora estivesse centrado na pendenga pessoal entre Barbalho e ACM. Acabou tomando partido e contribuindo para alimentar as rivalidades.

Quando o presidente não agrega, deixa de exercer atração sobre a maioria, forças centrífugas passam a dominar e levam à fragmentação de sua base de apoio. Os partidos e suas facções passam a responder a estímulos diversos, muitas vezes localizados, e muitos antagônicos entre si. O resultado é a perda da capacidade de governança.

Nesses casos, parece que a política não tem racionalidade. O senador Antonio Carlos Magalhães, político histórico e experiente, jactar-se a procuradores da República de conhecer o voto de colegas em uma votação secreta e controvertida, dando início a um caso que pode afastá-lo da vida política, não parece fazer sentido. A escalada do conflito entre ele e o senador Jader Barbalho, que terminou por enfraquecer politicamente os dois, também parece não atender a objetivo razoável. Aliados do presidente da República, em concorrência com parceiros no Congresso, tomarem decisões que levam ao colapso da coalizão governista e a uma crise de governança não parece sensato.

Mas em nenhuma dessas ações faltou racionalidade. São decisões baseadas em considerações parciais, objetivos específicos, que não levam em conta a estratégia ou o interesse geral do governo. Essas razões se tornam predominantes na ausência de condução política.

Com o campo governista sem liderança central, o processo político assume lógica centrífuga, fica errático, ao sabor de eventos menores, cujos efeitos são maiores que eles e não podem ser antecipados. Resultam da iniciativa isolada de agentes políticos no espaço governista, cujo centro – que é a Presidência – está fraco ou ausente, ou do aproveitamento dessas oportunidades pela oposição.

O presidente Fernando Henrique decidiu afastar-se do processo político já durante a crise sucessória no Congresso. Os desencontros entre o PSDB, o PMDB e o PFL produziram fissuras que ainda não foram suturadas. O PMDB está com sua liderança formal no córner, tendo de responder diariamente a novas acusações de corrupção. O caso do painel feriu fundamente a legitimidade da liderança de ACM e enfraquece politicamente o PFL. A sucessão de acusações e suspeitas com relação ao senador Barbalho fortaleceu as facções hostis ao governo no PMDB.

Uma crise de governança pode transformar-se em crise de governabilidade, sobretudo quando não há lideranças alternativas. Afeta decisões cruciais: a inação governamental tanto no setor energético quanto no reaparecimento da aftosa no Sul tem a ver com problemas de governança.

O presidente Fernando Henrique não é um lame duck, pois não há nenhum candidato favorito indiscutível à sua sucessão, exercendo atração sobre a maioria. Só o presidente pode superar essa crise, reassumindo a direção política do país. Se não o fizer, a política continuará à deriva.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS