Foi com o ensaio, gênero não muito comum nas listas
de best-sellers, que a escritora gaúcha Lya Luft se tornou
sucesso de vendas. Com sua visada ao mesmo tempo informal e
profunda dos relacionamentos humanos, Perdas & Ganhos,
lançado em 2003,vendeu 600 000 exemplares. Foi
seguido por Pensar É Transgredir, com 215 000.
A ensaísta também é conhecida e admirada
pelos leitores de VEJA. Os artigos de Lya estão freqüentemente
entre os mais comentados da revista "Baleias não
me emocionam", texto de 2004, recebeu mais de 200 cartas.
Antes desses números espetaculares, Lya estreou como
romancista nos anos 80, com dramas familiares densos como Reunião
de Família livros de vendagem bem mais discreta,
mas com o mesmo repertório de temas que a autora persegue
de forma obsessiva. Sua última obra ficcional foi O
Ponto Cego, romance de 1999. A alguns meses de completar
70 anos, Lya Luft está retornando à ficção
com O Silêncio dos Amantes (Record; 160
páginas; 28 reais), uma coletânea de contos que,
como o título anuncia, tratam do que as pessoas deixam
de dizer umas às outras, às vezes com conseqüências
terríveis.
Na apresentação
da nova obra, Lya conta que inicialmente pensou em compor um
ensaio na linha de Perdas & Ganhos. Depois, à
medida que surgiam personagens, imaginou que tinha um romance
em mãos até a história se fragmentar
nessa coletânea de vinte contos. A incomunicabilidade
é a linha mestra do livro. Em várias histórias,
os personagens, premidos pelas exigências do dia-a-dia,
evitam travar diálogos que teriam o potencial até
mesmo de salvar a vida de uma pessoa amada. É o caso
do pai de A Pedra da Bruxa, conto que abre o livro: atrasado
para compromissos, ele adia uma conversa com o filho mais novo
com quem nunca mais terá a oportunidade de falar,
pois o menino desaparece misteriosamente no mesmo dia. O mistério,
aliás, é um componente importante desses contos.
Alguns trazem elementos fantásticos em O Anão,
por exemplo, o protagonista passa por uma grotesca metamorfose.
Os contos de Lya
são muitas vezes de uma tristeza trágica. Ousada,
a autora incursiona pelos temas mais dolorosos, como o suicídio
infantil. Mas esse não é um livro desesperançado.
O conto-título, que fecha O Silêncio dos Amantes,
retrata um casal que consegue reconstruir a vida e reencontrar
uma precária felicidade depois de ser afligido pelas
piores circunstâncias ela, abandonada pelo marido
cafajeste; ele, viúvo cuja primeira mulher, grávida,
foi brutalmente assassinada por um assaltante. Há certo
toque gótico na história, na forma de um fantasma
que ronda os personagens. Mas o fantasma é, como tantos
personagens da coletânea, silencioso.
Um fantasma que
sofre
"Estou
aprendendo a ser feliz outra vez, ele diz. Talvez consiga
esquecer. Mas a moça morta com seu ventre grande
não esquece. Ronda esta casa no lusco-fusco da
madrugada ou do anoitecer, e às vezes eu vislumbro
o vermelho pálido de um vestido nos arbustos. Percebo
seus olhos melancólicos e desesperados, atrás
da vidraça, vejo que se esgueira no fundo do corredor,
uma rápida aparição que não
amedronta. (...) Não tem importância que
espie tristemente pela janela ou se esconda atrás
das árvores. Talvez espreite a felicidade do homem
amado com outra mulher, e sofra. Ou sente-se apaziguada
vendo que ele, ao menos, voltou à vida."