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Edição 2056

16 de abril de 2008
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Cinema
Eterno enquanto dura

O irlandês Apenas Uma Vez é pequeno, singelo
e breve – e por isso mesmo é que ele encanta


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Às vezes, um filme encanta não apesar de suas limitações, mas por causa delas. É o que se passa com Apenas Uma Vez (Once, Irlanda, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país. Rodado em cerca de duas semanas nas ruas e em alguns apartamentos modestos de Dublin, na Irlanda, com um orçamento microscópico de 150 000 dólares, e estrelado por dois desconhecidos que nem sequer atores são, o filme do diretor irlandês John Carney conseguiu, ainda assim, sair da obscuridade a que parecia destinado e se tornar um favorito no circuito alternativo internacional. Chegou ao fim desse percurso, inclusive, com o Oscar deste ano de canção (a singela balada Falling Slowly), interpretada para cerca de 1 bilhão de espectadores da cerimônia em todo o mundo por seu par de protagonistas – o roqueiro irlandês Glen Hansard, da banda The Frames, que dezessete anos atrás teve uma pequena participação no filme The Commitments, e a música checa Markéta Irglová.

Tanta projeção se explica pela combinação singular de originalidade, modéstia e sentimento com que o filme seduz a platéia. Hansard é um músico de rua que, durante o dia, toca um repertório manjado, que lhe garanta as moedas dos passantes; de noite, quando o movimento diminui, ele toca suas próprias composições, em geral inspiradas pela namorada que o largou, e que ele ainda não esqueceu. Essas músicas é que chamam a atenção da personagem de Markéta, uma imigrante que deixou para trás um marido com o qual, sem muita convicção, ela pensa em reatar. Os dois conversam um pouco (até um aspirador de pó entra no papo, e na história), ficam sem saber se simpatizaram um com o outro ou não, mas mesmo assim combinam tocar juntos no dia seguinte. E aí é que algo meio mágico acontece: a afinidade musical desperta no par um outro tipo de sintonia, que eles não sabem pôr em palavras nem na prática, só nas letras de suas canções. Elas é que contam, de maneira oblíqua, o que vai pelo íntimo dos dois.

O diretor John Carney, assim, inventa aqui um novo tipo de musical a partir do uso mais comum e antigo que os apaixonados dão à música – o de falar por eles, como se fosse por acaso, aquilo que eles não podem ou não conseguem dizer. Nem as canções são narrativas, como em, por exemplo, Moulin Rouge, nem interrompem a ação, como na forma mais tradicional do gênero: elas são a ação. A pena é que o título do filme é mais do que apropriado. Glen Hansard e Markéta Irglová (que, na vida civil, andam meio de namoro) pretendem continuar sendo o que são, músicos, e não têm a menor intenção de voltar a trabalhar com cinema. Como nos momentos especiais que às vezes acontecem entre duas pessoas, este aqui é breve e provavelmente não se repetirá. O melhor, então, é aproveitá-lo enquanto dura.



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