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Desfile da chama olímpica
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Desde que foi acesa, no mês passado, na Grécia, a chama olímpica vem sendo caçada por grupos de ativistas. Nem o pelotão de guarda-costas enviado pela China para proteger a tocha conseguiu mantê-la totalmente a salvo. Na capital inglesa, um manifestante passou pela barreira policial e quase a tirou da mão da celebridade que a levava. Vários outros tentaram extinguir a chama com o uso de um extintor de incêndio. Em sete horas, 37 pessoas foram presas. Em Paris, dois símbolos da cidade a Torre Eiffel e a Catedral de Notre Dame foram decorados com bandeiras nas quais algemas substituíam as tradicionais argolas olímpicas. Cada novo protesto aumenta a pressão sobre os líderes mundiais pelo boicote aos Jogos de Pequim ou, pelo menos, para que se manifestem sobre a forma bruta com que o Partido Comunista Chinês lida com vozes dissidentes. Na semana passada, o Parlamento europeu pediu oficialmente aos chefes de governo que não compareçam à cerimônia de abertura dos Jogos se até lá a China não iniciar negociações com o Dalai-Lama sobre a situação do Tibete. O presidente da instituição até cogita convocar uma cerimônia paralela, com a presença do chefe do budismo tibetano. A chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que não vai a Pequim. Gordon Brown, da Inglaterra, só aparecerá na cerimônia de encerramento. Fazer desfeita pode trazer complicações similares para a Inglaterra, que abrigará os Jogos de 2012. Hillary Clinton e Barack Obama, os dois pré-candidatos democratas à Presidência dos Estados Unidos, pediram a George W. Bush que falte ao evento.
A simpatia internacional pela causa tibetana deve-se bastante ao carisma e à popularidade do Dalai-Lama, o líder espiritual do budismo tibetano que vive exilado na Índia desde 1959. Com um discurso de não-violência, um Nobel da Paz no currículo e uma religião cujos fundamentos a maioria das pessoas desconhece, mas acredita que sejam baseados na paz e no amor, ele transformou a luta pela libertação do Tibete numa causa vista com bons olhos no Ocidente. Só no ano passado, o Dalai-Lama encontrou-se com os chefes de governo dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Austrália. Cauteloso e ansioso por manter abertas as portas ao diálogo, ele se posicionou contra os protestos aos Jogos de Pequim. A história dos Jogos Olímpicos mostra que as conexões entre a competição esportiva e manifestações políticas e sociais são inevitáveis. Mas desde a Olimpíada de Barcelona, em 1992, não há boicotes das dimensões daqueles promovidos durante a Guerra Fria. Os atletas festejam esse período de tranqüilidade. Chegar a uma edição do principal evento esportivo internacional é uma consagração para qualquer esportista e exige anos de dedicação. Em muitas modalidades nas quais a vida útil do atleta é curta, poucos têm a chance de competir em mais de duas ou três olimpíadas. "Os boicotes foram prejudiciais apenas aos atletas, que perderam a oportunidade de participar dos Jogos devido a razões políticas", diz o holandês Anthony Bijkerk, secretário-geral da Sociedade Internacional de Historiadores Olímpicos.
O boicote também deprecia a competição. Em 1980, quando os Estados Unidos e outros sessenta países não participaram da Olimpíada de Moscou, o número de atletas caiu 15% e a União Soviética venceu facilmente com oitenta medalhas de ouro mais de um terço do total. Nos Jogos seguintes, em Los Angeles, os comunistas não foram e os americanos levaram 83 medalhas de ouro. Não há garantias de que os protestos possam levar o governo da China a respeitar os direitos humanos no país. Ao contrário, o que se viu até agora foi uma reação irada e apelos ao orgulho nacional chinês. Em vários lugares, como em São Francisco, nos Estados Unidos, a comunidade de imigrantes chineses foi convocada a enfrentar os manifestantes pró-Tibete. O revezamento da tocha inclui uma passagem de três dias pelo Tibete e termina no Estádio Olímpico, em Pequim, em agosto. Nesta quinta-feira, a tocha estará em Nova Délhi, na Índia, país vizinho ao Tibete e onde vivem cerca de 130 000 exilados tibetanos. A previsão é de mais confusão. Para o governo chinês, a viagem da tocha olímpica tornou-se uma corrida de 13 700 quilômetros com barreiras.
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