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Edição 2056

16 de abril de 2008
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J. R. Guzzo
Anos dourados?

"Anos dourados para quem? Gente que passou a vida toda andando de carro fica incomodada, agora, com a necessidade de dividir o espaço das ruas com gente que nunca teve carro. É compreensível. Mas é também muito pouco provável que esse povo todo, quando chega a sua vez, concorde em continuar a pé em favor do bem comum"

Distribuição de renda no Brasil é mesmo uma coisa bem complicada. Já é difícil o bastante, em primeiro lugar, criar alguma riqueza e, mais ainda, fazer com que ela chegue a quem vive com pouco dinheiro, mas isso é só uma parte do problema. Outra parte, menos falada, é a dificuldade de lidar com os efeitos da distribuição de renda, quando eles começam a aparecer na vida real. Todo mundo, na hora de dar opinião, defende com entusiasmo a idéia de que os brasileiros menos favorecidos devem ter mais dinheiro no bolso. Na hora de conviver com as mudanças que acontecem quando os brasileiros menos favorecidos passam a gastar esse dinheiro, porém, a história fica diferente. A melhoria de renda, entre diversas outras conseqüências, faz um número maior de pessoas que têm pouco começar a levar uma vida mais parecida com a das pessoas que têm muito, ou têm o suficiente. Eis aí o problema formado. O povo vai comprando, vai comprando, e quando percebe já está comprando até automóveis – e como é possível, com o trânsito do jeito que está, colocar a cada dia mais 10 000 carros nas ruas do país? Não dá.

Não dá, mas é exatamente o que está acontecendo hoje. São os números: a indústria automobilística brasileira vai produzir neste ano acima de 3,5 milhões de unidades; só em São Paulo são 800 veículos a mais por dia, ou 300 000 a mais até o fim de 2008. O trânsito tem um infarto, é claro, e a partir daí monta-se um debate no qual há muita dificuldade, em geral, para aceitar um fato básico: o trânsito não é um problema de carros, e sim um problema de gente. Só há excesso de carros em circulação porque há um excesso de gente utilizando carros – e isso acontece porque nestes últimos anos o automóvel no Brasil deixou de ser comprado só pelos ricos e pela classe média mais bem provida e passou, cada vez mais, a ficar ao alcance da massa. Hoje, uma em cada três famílias da classe C tem carro; e, para complicar as coisas, a classe C já soma mais de 86 milhões de pessoas. Há outras razões para explicar o aumento na quantidade de automóveis que rodam pelo país, mas não ajuda em nada, para o entendimento da questão, fazer de conta que a piora no trânsito não tem nada a ver com a melhora geral na vida da população.

Como sair dessa charada? Ninguém, até agora, parece ter alguma resposta realmente satisfatória. Querer que a economia pare de crescer, por exemplo, não é uma opção. Seria difícil, igualmente, estabelecer que só podem comprar carros os cidadãos capazes de comprovar uma renda acima de, digamos, 100 000 reais por ano. É bem verdade que o ministro Guido Mantega quis fazer algo parecido, com vagas ameaças de limitar o número de prestações para a compra de veículos, mas logo parou de querer – no exato momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que ele, Lula, não queria. Ninguém pensa em determinar cotas máximas de produção para as montadoras, e nada se vê de útil na recente hostilidade, mal definida e impotente, que começou a aparecer em relação à "ganância" da indústria. Não dá, evidentemente, para jogar a culpa no povão. Dá para jogar nos governos, mas é inútil; ninguém, ali, tem a mais remota idéia do que fazer a respeito do problema, sobretudo em cidades como São Paulo. E que idéia alguém poderia ter, na verdade, com 6 milhões de veículos nas ruas? Existe, sem dúvida, a pregação em favor de melhorias no transporte coletivo, que tem o mérito de propor soluções de longo prazo. Infelizmente, tem a desvantagem de propor soluções de longo prazo – e para o cidadão que está parado no meio do congestionamento, hoje, pouco ajuda a idéia de que a situação talvez melhore daqui a vinte anos.

O problema do trânsito – que é uma questão de São Paulo, talvez do Rio de Janeiro, e não do país – só vai diminuir a partir do momento em que os motoristas forem chegando à conclusão de que reduzir o uso do carro atende, basicamente, ao seu próprio interesse. Até lá, de nada adianta ficar sonhando com uma volta aos "anos dourados", possivelmente localizados na década de 50, quando o trânsito era uma beleza. Primeiro porque não há volta possível, e segundo porque aqueles anos podiam ser dourados, mas eram muito ruins. O Brasil de hoje tem cerca de oito habitantes por automóvel; naquela época a proporção era de 200 por 1. Anos dourados para quem? Gente que passou a vida toda andando de carro fica incomodada, agora, com a necessidade de dividir o espaço das ruas com gente que nunca teve carro. É compreensível. Mas é também muito pouco provável que esse povo todo, quando chega a sua vez, concorde em continuar a pé em favor do bem comum.

O presidente Lula disse recentemente que o "sonho de todo homem" é ter um carro. É algo que não tem a aprovação da gendarmaria intelectual do PT, pois sonhar com carro, como se sabe, é coisa típica da pequena burguesia. Pode ser, mas é também a realidade. Ficar com ela é melhor para todos, a começar pelo próprio presidente – se tivesse ouvido os intelectuais, ele estaria até hoje em São Bernardo, fazendo panfletagem em porta de fábrica.

 



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