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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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CINEMA

Divulgação
Dia do Perdão: a guerra do Yom Kippur


O Dia do Perdão
(Kippur, Israel/França, 2000. A partir de sexta-feira em São Paulo) – O diretor israelense Amos Gitai (de Kadosh – Laços Sagrados) diz que passou a vida tentando esquecer sua experiência na Guerra do Yom Kippur, em 1973. Como isso foi impossível, decidiu recriá-la em filme. A história é conduzida por dois amigos integrados a uma unidade de resgate de feridos. Por intermédio deles, Gitai disseca cada uma das etapas por que passam os combatentes: o sentimento de antecipação, o horror, a exaustão e, por fim, o trauma indelével. O filme acompanha essa intensidade crescente – como numa cena terrível, que parece durar uma eternidade, em que o grupo tenta tirar uma vítima de um lamaçal. Isento de julgamentos morais ou políticos, O Dia do Perdão é contudo implacável na sua visão da crueza e perturbação da guerra.

 

LIVROS

História do Amor no Ocidente, de Denis Rougemont (tradução de Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz; Ediouro; 543 páginas; 59 reais) – A polêmica tese central desta obra, que o suíço Rougemont lançou em 1939 e revisou em 1956, é que a idéia de amor romântico nasceu no Ocidente no século XII, do encontro entre a poesia trovadoresca e o pensamento de uma seita herética. Dizer isso, no entanto, é ocultar a enorme riqueza de reflexões e percepções sagazes contidas neste ensaio clássico, que vai do mito de Tristão e Isolda aos filmes hollywoodianos, passando por Shakespeare, Mozart e Freud. O livro é considerado um precursor do gênero que, nos anos 80, passou a ser conhecido como "história das mentalidades". Com uma vantagem: a ausência de qualquer ranço acadêmico.

 

O Apanhador no Campo de Centeio, Franny & Zooey e Nove Estórias, de J.D. Salinger (traduções de Álvaro de Alencar, Antônio Rocha, Jório Dauster e Álvaro Cabral; Editora do Autor; 208, 160 e 168 páginas; 81 reais) – Escrito pelo recluso J.D. Salinger na década de 50, O Apanhador no Campo de Centeio é um romance tão popular que sustenta uma editora inteira. No caso, a Editora do Autor, que teve os escritores Fernando Sabino e Rubem Braga entre seus fundadores. Por anos, esse clássico foi o único livro que a empresa manteve no mercado. Agora ela o reedita, ao lado de outros dois trabalhos de Salinger. Franny & Zooey narra a mesma história, a da desintegração de uma família, do ponto de vista de dois irmãos. Nove Estórias introduz o estilo ácido que, mais tarde, seria burilado em O Apanhador...

Gueixa, de Liza Dalby (tradução de S. Duarte; Objetiva; 358 páginas; 44,90 reais) – Os ocidentais nunca esconderam sua curiosidade a respeito do modo de vida das gueixas. Por que as moças se tornam cortesãs, a que tipo de treinamento elas são submetidas, como se relacionam com o mundo exterior? Essas são perguntas comuns. Este livro da americana Lisa Dalby, lançado originalmente em 1983, é o melhor guia sobre o assunto. A autora foi uma das raras ocidentais a adentrar essa sociedade restrita e até hoje atua como consultora em filmes e documentários. O principal mérito do livro é desmistificar a visão ocidental de que a gueixa seria apenas uma espécie de deusa do sexo. A versão que está chegando ao Brasil foi revisada em 1998 e inclui um prefácio em que Dalby, de volta ao Japão, comenta, desencantada, a perda de tradições no mundo das gueixas.

 

DVD

Sonhos (Akira Kurosawa's Dreams, Japão/Estados Unidos, 1990. Warner) – Já octogenário, o diretor Akira Kurosawa ganhou o apoio financeiro, logístico e moral de três de seus admiradores – Steven Spielberg, George Lucas e Martin Scorsese –, para transformar alguns dos roteiros de seu inconsciente em filme. Rodados na forma de histórias separadas, seus sonhos abarcam desde a angústia infantil com as rígidas convenções japonesas até a paixão pela pintura (na qual ele se iniciou), o fantasma das bombas nucleares e a reconciliação com a idéia do fim próximo – Kurosawa morreria em 1998, aos 88 anos. Em comum, eles têm uma beleza que não raro atinge o sublime, além do grande ator Akira Terao como o alter ego do diretor. Quase não há extras no disco, mas a possibilidade de ver o filme numa cópia tão limpa já é justificativa suficiente para o DVD.

 

DISCOS

The Dark Side of the Moon, Pink Floyd (EMI) – O lançamento deste disco, em 1973, ajudou a turbinar as vendas de aparelhos de som. The Dark Side of the Moon foi gravado num sistema chamado quadrifônico e seria apreciado em sua totalidade apenas por quem possuísse um estéreo provido de quatro caixas acústicas. Trinta anos depois, a nova edição pretende causar outra corrida às casas de quinquilharias eletrônicas. Isso porque o relançamento foi feito para tocar no sistema digital 5.1, última palavra em tecnologia sonora. Os donos de aparelhagens mais modestas, no entanto, não precisam se sentir excluídos. Time e Money, canções que ajudaram a transformar The Dark Side of the Moon num clássico do rock, podem ser bem apreciadas num CD-player comum.

Meia-Noite, Meio-Dia, Chico Pinheiro (Seven) – Escolado por participações em festivais de MPB e discos de artistas como Pedro Mariano e Jairzinho Oliveira, o violonista Chico Pinheiro, de 29 anos, chega ao disco de estréia. Apesar das participações especiais de Ed Motta e dos compositores Chico César e Lenine, Meia-Noite, Meio-Dia tem seus pontos altos com o núcleo formado por Pinheiro, Luciana Alves e Maria Rita Mariano. O trio burilou o repertório do álbum durante oito meses de apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. Pinheiro se ocupa das composições e dos arranjos, além de tocar um violão que emula o de Baden Powell. Cabe a Luciana e a Maria Rita (num contraponto entre meiguice e interpretação vulcânica) colocar suas vozes a serviço de valsas, choros, sambas-canção e baladas. As faixas Ao Vento, Popó e Choro Calado são os pontos altos do CD.

 

OS MAIS VENDIDOs – CRÍTICA

Aquilo que O Diário de Bridget Jones fez pelas balzaquianas sem namorado e com alguns quilos a mais – inspirá-las e garantir que elas são normais –, Melancia (tradução de Sônia Coutinho; Bertrand Brasil; 489 páginas; 49 reis), de Marian Keyes, pretende fazer por outra porção do público feminino, a das mulheres substituídas por outra nas afeições do parceiro. Claire, a narradora, acha que é feliz no casamento. Mas, mal dá à luz uma menina, recebe do marido a notícia de que vai ter de tocar a vida sozinha: ele está apaixonado pela vizinha do andar de baixo. Atônita e desconsolada, Claire enfrenta primeiro a humilhação maior, a de ter se tornado uma mulher "largada". Depois, vem a segunda grande derrota: voltar para a casa dos pais pedindo socorro. Como a inglesa Helen Fielding, autora de Bridget Jones, a irlandesa Marian tem uma prosa fluente e um humor escrachado, que atenuam muito os clichês do gênero – a briga com o espelho (o título é uma referência às formas de Claire após o parto), as bebedeiras para afogar as mágoas, o bonitão que faz com que a protagonista consiga ficar três horas inteiras sem pensar no marido, o traidor que ressurge de cabeça baixa. Melancia é, de fato, aquele tipo de ficção que fica a um passo da auto-ajuda. Mas se desincumbe em ambas as áreas, com o mérito de não ser meloso e de divertir.

Veja também
Trechos do livro

Isabela Boscov

 

   
 

 

São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
   
 
   
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