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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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Claudio de Moura Castro

As lições de Porter

"Por que obrigar as escolas públicas
a criar uma profissionalização que não
dá certo e está sendo ou foi abandonada
em todos os países?"

Michael Porter ganhou fama mundial por sua análise das organizações bem-sucedidas, mostrando serem aquelas que se concentram no que sabem fazer bem e evitam meter-se no que são medíocres.

Funcionários do MEC propõem adicionar um ano profissionalizante nas escolas públicas médias. Trata-se de um triste exemplo de fazer exatamente o oposto. Escolas acadêmicas cronicamente não sabem fazer profissionalização, portanto não deveriam insistir no território da sua incompetência.

Ilustração Ale Setti


Faz algum tempo, o Banco Mundial recrutou um bando de pesquisadores para rastrear pelo mundo afora o que dava e o que não dava certo na formação profissional. Os relatórios acumulados mostraram que os mais persistentes fracassos estavam justamente no tipo de projeto financiado pelo próprio banco, em que se introduzia a profissionalização nas escolas acadêmicas. A lição foi registrada, e tais projetos foram abandonados. De fato, mesmo nos Estados Unidos, um dos poucos países a ter cursos vocacionais nas escolas acadêmicas, na maioria dos casos não há uma real profissionalização. Por isso, os community colleges assumiram o papel de profissionalizar.

Os países europeus sempre separaram os ciclos acadêmicos dos profissionais ou semiprofissionais. Pelo mundo afora, espontaneamente, abandonam-se as soluções que tentam mesclar as duas coisas e crescem as que definem papéis diferenciados para cada tipo de instituição. Além disso, muitas escolas técnicas dispensam a profissionalização estrita e caminham para formações genéricas, voltadas a grandes famílias ocupacionais. Precisamos do vai-e-vem entre a teoria e a prática, mas isso é diferente de educação vocacional. A formação profissional direcionada para o emprego concreto funciona melhor nas mãos de instituições especializadas, cujo papel começa quando os alunos deixam a escola acadêmica – em qualquer nível que isso possa ocorrer. O Senai é um exemplo clássico de ensino profissional voltado a quem já saiu da escola acadêmica.

No Brasil, abundam os exemplos de fracasso da profissionalização nos ciclos acadêmicos. As razões, bem conhecidas, são as mesmas no resto do mundo. As escolas acadêmicas não têm flexibilidade para acompanhar as sinuosidades e mutações constantes dos mercados. A inércia dessas escolas é grande e seu preconceito contra o mundo do trabalho é difícil de ser vencido. Existem restrições legais intransponíveis, sobretudo nas carreiras docentes que penalizam quem sabe e premiam quem tem diplomas. O ethos da escola é hostil aos namoros com as empresas. Acaba sendo educação profissional feita por amadores.

Por que andar na contramão de sua alma quando o que melhor podem fazer ainda está por ser feito? Para começar, no Brasil o ensino fundamental e o médio somam onze anos, contrastando com os doze do resto do mundo e os treze da Alemanha. Clama aos deuses um ano a mais, para que nos igualemos ao resto do mundo, pelo menos em duração (a solução óbvia é copiar o resto do mundo e começar aos 6, um ano mais cedo).

Já um ano profissional extra para as públicas é proposta duplamente tola. Em primeiro lugar, esse ano adicional já existe, na forma dos cursos técnicos, públicos e privados, que voltaram a crescer. Em segundo lugar, também o ensino privado precisa de mais educação acadêmica. O teste do Pisa mostrou que não são apenas as escolas públicas que estão mal. Os alunos das nossas escolas de elite tiveram um desempenho lamentável nesse teste internacional de compreensão de leitura. Os brasileiros de elite entendem bem menos o que lêem do que os filhos de operários americanos. De fato, há somente um país europeu onde os estudantes da classe social mais pobre estão abaixo dos alunos das elites brasileiras.

Portanto, há razões de sobra para que todas as nossas escolas dediquem mais tempo e atenção ao que podem vir a fazer bem – o ensino acadêmico. Por que obrigar as escolas públicas a criar uma profissionalização que não dá certo e está sendo ou foi abandonada em todos os países? Produzir uma educação acadêmica de melhor qualidade já será uma grande proeza.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net.)


 
 
   
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