Claudio
de Moura Castro
As lições
de Porter
"Por
que obrigar as escolas públicas
a criar uma profissionalização que não
dá certo e está sendo ou foi abandonada
em todos os países?"
Michael
Porter ganhou fama mundial por sua análise das organizações
bem-sucedidas, mostrando serem aquelas que se concentram no que sabem
fazer bem e evitam meter-se no que são medíocres.
Funcionários do MEC propõem adicionar um ano profissionalizante
nas escolas públicas médias. Trata-se de um triste exemplo
de fazer exatamente o oposto. Escolas acadêmicas cronicamente não
sabem fazer profissionalização, portanto não deveriam
insistir no território da sua incompetência.
Ilustração Ale Setti
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Faz algum tempo, o Banco Mundial recrutou um bando de pesquisadores para
rastrear pelo mundo afora o que dava e o que não dava certo na
formação profissional. Os relatórios acumulados mostraram
que os mais persistentes fracassos estavam justamente no tipo de projeto
financiado pelo próprio banco, em que se introduzia a profissionalização
nas escolas acadêmicas. A lição foi registrada, e
tais projetos foram abandonados. De fato, mesmo nos Estados Unidos, um
dos poucos países a ter cursos vocacionais nas escolas acadêmicas,
na maioria dos casos não há uma real profissionalização.
Por isso, os community colleges assumiram o papel de profissionalizar.
Os países europeus sempre separaram os ciclos acadêmicos
dos profissionais ou semiprofissionais. Pelo mundo afora, espontaneamente,
abandonam-se as soluções que tentam mesclar as duas coisas
e crescem as que definem papéis diferenciados para cada tipo de
instituição. Além disso, muitas escolas técnicas
dispensam a profissionalização estrita e caminham para formações
genéricas, voltadas a grandes famílias ocupacionais. Precisamos
do vai-e-vem entre a teoria e a prática, mas isso é diferente
de educação vocacional. A formação profissional
direcionada para o emprego concreto funciona melhor nas mãos de
instituições especializadas, cujo papel começa quando
os alunos deixam a escola acadêmica em qualquer nível
que isso possa ocorrer. O Senai é um exemplo clássico de
ensino profissional voltado a quem já saiu da escola acadêmica.
No Brasil, abundam os exemplos de fracasso da profissionalização
nos ciclos acadêmicos. As razões, bem conhecidas, são
as mesmas no resto do mundo. As escolas acadêmicas não têm
flexibilidade para acompanhar as sinuosidades e mutações
constantes dos mercados. A inércia dessas escolas é grande
e seu preconceito contra o mundo do trabalho é difícil de
ser vencido. Existem restrições legais intransponíveis,
sobretudo nas carreiras docentes que penalizam quem sabe e premiam quem
tem diplomas. O ethos da escola é hostil aos namoros com as empresas.
Acaba sendo educação profissional feita por amadores.
Por que andar na contramão de sua alma quando o que melhor podem
fazer ainda está por ser feito? Para começar, no Brasil
o ensino fundamental e o médio somam onze anos, contrastando com
os doze do resto do mundo e os treze da Alemanha. Clama aos deuses um
ano a mais, para que nos igualemos ao resto do mundo, pelo menos em duração
(a solução óbvia é copiar o resto do mundo
e começar aos 6, um ano mais cedo).
Já um ano profissional extra para as públicas é proposta
duplamente tola. Em primeiro lugar, esse ano adicional já existe,
na forma dos cursos técnicos, públicos e privados, que voltaram
a crescer. Em segundo lugar, também o ensino privado precisa de
mais educação acadêmica. O teste do Pisa mostrou que
não são apenas as escolas públicas que estão
mal. Os alunos das nossas escolas de elite tiveram um desempenho lamentável
nesse teste internacional de compreensão de leitura. Os brasileiros
de elite entendem bem menos o que lêem do que os filhos de operários
americanos. De fato, há somente um país europeu onde os
estudantes da classe social mais pobre estão abaixo dos alunos
das elites brasileiras.
Portanto, há razões de sobra para que todas as nossas escolas
dediquem mais tempo e atenção ao que podem vir a fazer bem
o ensino acadêmico. Por que obrigar as escolas públicas
a criar uma profissionalização que não dá
certo e está sendo ou foi abandonada em todos os países?
Produzir uma educação acadêmica de melhor qualidade
já será uma grande proeza.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net.)
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