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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Sobre a tolice de
erguer estátuas

A derrubada de um Saddam
de pedra em Bagdá foi como
a encenação de um auto didático

Virar estátua pode ter forte apelo. Seja de bronze, de pedra ou de madeira, ela é feita de material muito mais durável do que carne e osso. Sobrevivem até hoje estátuas de muitos milhares de anos. Graças a elas conhecemos os nomes dos faraós do Egito e as feições dos imperadores romanos. A estátua também permite ao ser humano projetar-se muito acima das reais dimensões. Nelas, o corpo pode alçar-se a 10 ou 20 metros de altura e escorar-se numa massa de 1 tonelada ou mais. Ainda assim, erguer estátuas à própria glória, como ficou provado na semana passada, é a mais estúpida das políticas. Pois, ainda que a estátua ofereça uma carona para a magnificência e um atalho para a eternidade, e ainda que semeie temor e reverência, bem ao gosto de certos regimes, algo que não oferece é a segurança de que um dia não será derrubada. E, quando isso acontece, pobre do infeliz ali representado. Nada mais gráfico, nada mais eloqüente de sua desgraça. Saddam Hussein caiu não em carne e osso, mas em pedra. No plano simbólico, pior para ele. Foi assim arrastado pelas ruas, golpeado e insultado como de outra forma não seria.

A derrubada da estátua de Saddam, de 6 metros de altura, mais 6 de pedestal, numa praça central de Bagdá, foi como a encenação de um auto didático. Primeiro os próprios iraquianos tentaram derrubá-la, com picaretadas no pedestal ou com uma corda a puxá-la pelo pescoço. Não conseguiram. Seus métodos eram muito primitivos, os materiais, insuficientes para o tamanho da empreitada. Precisaram dos americanos, que vieram com tecnologia várias vezes superior à necessária: um tanque. Um marine subiu ao topo para amarrar um cabo de aço ao pescoço da estátua. Aproveitou para enrolar-lhe ao rosto uma bandeira americana. Foi vaiado, tirou-a e substituiu-a por uma bandeira do Iraque. O tanque então puxou o cabo de aço e a estátua, por puro efeito da força e da tecnologia americanas, veio abaixo. Não seria melhor caso a ação tivesse obedecido a um roteiro. Não daria tão certo se tivesse sido ensaiada. Até o marine que enrolou a bandeira americana no rosto do ditador representava um papel. Ele tinha traços orientais. Com isso lembrava que, assim como o grosso das legiões romanas era formado pelos povos conquistados, assim também o Exército americano vai se transformando num mosaico onde as minorias são cada vez mais representadas.

O fato de a derrubada do regime se ter dado por obra dos americanos, como bem expôs o auto da praça, tirou-lhe um pedaço da legitimidade. Claro, é sempre bom ver desabar um regime sanguinário. Mas nos regimes que desabaram na Europa do Leste, às vezes também na forma de assalto a um símbolo de pedra, como no caso clássico do Muro de Berlim, o feito foi dos próprios povos. Assim não humilha. No Iraque o invasor, agora feito tropa de ocupação, é não só o autor da derrubada como o sucessor do regime deposto. É também o autor de uma investida que deixou mortos e feridos no caminho. A libertação que proporcionou manchou-se do sangue dos libertados. Uma grande interrogação se abre diante da reinauguração do sistema colonial a que se propõem os americanos, no coração da região mais conturbada do mundo.

Erguer estátuas a si mesmo, para voltar ao tema de três parágrafos atrás, tem, na outra face da moeda, o inconveniente de oferecer ao inimigo um símbolo grandioso a pôr abaixo. Acresce, no caso presente, que esta guerra estava sem uma imagem disponível para ser apresentada como fecho de ouro na televisão. A rendição do inimigo, na forma de um cavalheiro que se apresenta para assinar solenemente um armistício, como nas guerras do passado, parecia fora de cogitação. O paradeiro ignorado de Saddam Hussein, desde o início do conflito, também fazia prever que o ditador não se apresentaria de corpo presente para ser preso ou morto. A estátua veio a calhar. Ainda mais que se situava de cara para o hotel onde se concentravam os jornalistas. Todos os caderninhos, os notebooks, os telefones por satélite, os videofones, as máquinas fotográficas e as câmeras de TV já estavam naturalmente apontados para ela. Não precisaram nem ser convocados.

O espetáculo da praça deu aos americanos uma das duas coisas de que mais necessitavam: uma multidão amiga (a outra são estoques de armas químicas). Mas é bom não esquecer: a multidão não era tão multidão assim. Não dá para, com base nela, extrair o sentimento dominante entre os iraquianos. A multidão da praça certamente é menor do que a que lotou os hospitais e cemitérios iraquianos nas últimas três semanas. O que conduz à conclusão de que, crime por crime, os de Saddam têm um contrapeso nos dos invasores. Nos Estados Unidos os governantes não costumam erigir estátuas a si mesmos. George W. Bush não poderá ser derrubado dessa forma. Mas, para honra dos Estados Unidos, há o voto. Resta esperar que, numa apoteótica volta à lucidez, o eleitorado americano faça a justiça que ficou faltando para um dos lados, numa guerra em que os dois mereciam perder.

 
 
   
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