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Roberto
Pompeu de Toledo
Sobre
a tolice de
erguer estátuas
A
derrubada de um Saddam
de
pedra em Bagdá foi como
a
encenação de
um auto didático
Virar estátua pode ter forte apelo. Seja de bronze, de pedra ou
de madeira, ela é feita de material muito mais durável do
que carne e osso. Sobrevivem até hoje estátuas de muitos
milhares de anos. Graças a elas conhecemos os nomes dos faraós
do Egito e as feições dos imperadores romanos. A estátua
também permite ao ser humano projetar-se muito acima das reais
dimensões. Nelas, o corpo pode alçar-se a 10 ou 20 metros
de altura e escorar-se numa massa de 1 tonelada ou mais. Ainda assim,
erguer estátuas à própria glória, como ficou
provado na semana passada, é a mais estúpida das políticas.
Pois, ainda que a estátua ofereça uma carona para a magnificência
e um atalho para a eternidade, e ainda que semeie temor e reverência,
bem ao gosto de certos regimes, algo que não oferece é a
segurança de que um dia não será derrubada. E, quando
isso acontece, pobre do infeliz ali representado. Nada mais gráfico,
nada mais eloqüente de sua desgraça. Saddam Hussein caiu não
em carne e osso, mas em pedra. No plano simbólico, pior para ele.
Foi assim arrastado pelas ruas, golpeado e insultado como de outra forma
não seria.
A derrubada da estátua de Saddam, de 6 metros de altura, mais 6
de pedestal, numa praça central de Bagdá, foi como a encenação
de um auto didático. Primeiro os próprios iraquianos tentaram
derrubá-la, com picaretadas no pedestal ou com uma corda a puxá-la
pelo pescoço. Não conseguiram. Seus métodos eram
muito primitivos, os materiais, insuficientes para o tamanho da empreitada.
Precisaram dos americanos, que vieram com tecnologia várias vezes
superior à necessária: um tanque. Um marine subiu ao topo
para amarrar um cabo de aço ao pescoço da estátua.
Aproveitou para enrolar-lhe ao rosto uma bandeira americana. Foi vaiado,
tirou-a e substituiu-a por uma bandeira do Iraque. O tanque então
puxou o cabo de aço e a estátua, por puro efeito da força
e da tecnologia americanas, veio abaixo. Não seria melhor caso
a ação tivesse obedecido a um roteiro. Não daria
tão certo se tivesse sido ensaiada. Até o marine que enrolou
a bandeira americana no rosto do ditador representava um papel. Ele tinha
traços orientais. Com isso lembrava que, assim como o grosso das
legiões romanas era formado pelos povos conquistados, assim também
o Exército americano vai se transformando num mosaico onde as minorias
são cada vez mais representadas.
O fato de a derrubada do regime se ter dado por obra dos americanos, como
bem expôs o auto da praça, tirou-lhe um pedaço da
legitimidade. Claro, é sempre bom ver desabar um regime sanguinário.
Mas nos regimes que desabaram na Europa do Leste, às vezes também
na forma de assalto a um símbolo de pedra, como no caso clássico
do Muro de Berlim, o feito foi dos próprios povos. Assim não
humilha. No Iraque o invasor, agora feito tropa de ocupação,
é não só o autor da derrubada como o sucessor do
regime deposto. É também o autor de uma investida que deixou
mortos e feridos no caminho. A libertação que proporcionou
manchou-se do sangue dos libertados. Uma grande interrogação
se abre diante da reinauguração do sistema colonial a que
se propõem os americanos, no coração da região
mais conturbada do mundo.
Erguer estátuas a si mesmo, para voltar ao tema de três parágrafos
atrás, tem, na outra face da moeda, o inconveniente de oferecer
ao inimigo um símbolo grandioso a pôr abaixo. Acresce, no
caso presente, que esta guerra estava sem uma imagem disponível
para ser apresentada como fecho de ouro na televisão. A rendição
do inimigo, na forma de um cavalheiro que se apresenta para assinar solenemente
um armistício, como nas guerras do passado, parecia fora de cogitação.
O paradeiro ignorado de Saddam Hussein, desde o início do conflito,
também fazia prever que o ditador não se apresentaria de
corpo presente para ser preso ou morto. A estátua veio a calhar.
Ainda mais que se situava de cara para o hotel onde se concentravam os
jornalistas. Todos os caderninhos, os notebooks, os telefones por satélite,
os videofones, as máquinas fotográficas e as câmeras
de TV já estavam naturalmente apontados para ela. Não precisaram
nem ser convocados.
O espetáculo da praça deu aos americanos uma das duas coisas
de que mais necessitavam: uma multidão amiga (a outra são
estoques de armas químicas). Mas é bom não esquecer:
a multidão não era tão multidão assim. Não
dá para, com base nela, extrair o sentimento dominante entre os
iraquianos. A multidão da praça certamente é menor
do que a que lotou os hospitais e cemitérios iraquianos nas últimas
três semanas. O que conduz à conclusão de que, crime
por crime, os de Saddam têm um contrapeso nos dos invasores. Nos
Estados Unidos os governantes não costumam erigir estátuas
a si mesmos. George W. Bush não poderá ser derrubado dessa
forma. Mas, para honra dos Estados Unidos, há o voto. Resta esperar
que, numa apoteótica volta à lucidez, o eleitorado americano
faça a justiça que ficou faltando para um dos lados, numa
guerra em que os dois mereciam perder.
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