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O
guru de Kafka
Ele é Robert Walser, um escritor
adorado pelos escritores do
início do século XX
Moacyr
Scliar
O
escritor suíço Robert Walser (1878-1956) foi lido e admirado
por contemporâneos notáveis como Robert Musil, Thomas Mann,
Hermann Hesse e, sobretudo, Franz Kafka, que se dizia decisivamente influenciado
por sua obra. Diferentemente desses autores que o apreciavam, contudo,
Walser não ganhou fama universal. Ele se tornou uma espécie
de "escritor para escritores", o que não é uma condição
justa. O lançamento de O Ajudante (tradução
de Zé Pedro Antunes; Arx; 335 páginas; 42 reais) representa
uma oportunidade para conhecer uma obra sempre instigante e às
vezes genial, que se desdobrou em vários gêneros, desde esboços,
monólogos e contos fantasiosos até novelas caracterizadas
pela ironia amarga, que as transforma numa paródia do romance de
formação, o Bildungsroman, marca registrada da literatura
de língua alemã desde Goethe.
A trama de O Ajudante é relativamente simples. No início
da novela somos apresentados a Joseph, que acaba de ser contratado pelo
Sr. Töbler, engenheiro e inventor, para trabalhar em projetos excêntricos,
tais como um relógio que veiculará publicidade e uma máquina
que fornece pacotes de cartuchos para fuzil. Töbler vive seus sonhos
de grandeza, oferecendo festas em sua casa e cortejando possíveis
investidores, sem notar os dramas ocultos de sua vida familiar. Os projetos
de Töbler não têm êxito. Sua atividade concentra-se
principalmente em ditar a Joseph cartas, mesclando súplica e arrogância,
aos numerosos credores. Estes perdem a paciência e até a
luz é cortada. Por fim, Joseph demite-se e abandona a casa
um desfecho aliás comum nas histórias de Walser, que não
raro se encerram com a frase "finalmente, ele partiu". Escrito em 1907,
quando Walser tinha 29 anos, O Ajudante tem, como é comum
em autores jovens, elementos autobiográficos. A história,
no entanto, é universal. Walser fala das desilusões da modernidade.
Os mirabolantes projetos de Töbler não representariam a exceção,
e sim a regra, e os que neles se engajam, como Joseph, vêem-se condenados
à frustração. A Walser assustava um mundo que constantemente
pressiona as pessoas a ter sucesso. "Eu não quero ter futuro, eu
quero ter um presente", disse ele certa vez.
Parte da insegurança expressa nas obras de Walser provavelmente
resultava da doença mental que interrompeu sua carreira. Doença
para a qual existiam antecedentes familiares: a mãe, esquizofrênica,
suicidara-se. O irmão, Ernst, também esquizofrênico,
havia morrido num hospital psiquiátrico. Após um surto depressivo
que culminou em uma tentativa de suicídio, Walser internou-se,
voluntariamente, numa clínica. De lá o transferiram, agora
contra sua vontade, para um hospício. A partir daí, e talvez
como um ato de protesto, Walser recusou-se a escrever. "Estou aqui para
ser louco, não para fazer literatura", teria dito. Mas, segundo
testemunhos, ele escrevia, sim, em diminutos pedacinhos de papel. O que
remete para um outro, e insólito, detalhe no trabalho de Walser.
Boa parte de sua obra foi escrita numa caligrafia minúscula, que
só podia ser lida por meio de um aparelho óptico. Isso tem
um evidente aspecto simbólico: é a expressão de um
escritor que "minimizava" o seu próprio trabalho. Walser permaneceu
no hospício até morrer, em 1956. "Um dia eu serei um zero",
afirma o personagem de outra de suas novelas, Jakob von Gunten. "Um
bem redondo e fascinante zero." A doença pode ter aniquilado o
homem, mas não destruiu a obra de Robert Walser.
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O
novo empregado
"Certa
manhã, às oito horas, um jovem estava diante da porta
de uma casa isolada e de bela aparência. Chovia. 'Para mim',
pensou o rapaz ali postado, 'é quase um milagre ter nas mãos
um guarda-chuva'. O certo é que jamais tivera um guarda-chuva
em sua infância. Numa das mãos, estendida verticalmente
ao longo do corpo, segurava uma mala marrom, dessas bem baratas.
Diante dos olhos desse que aparentemente chegava de viagem, havia
uma placa esmaltada em que se lia: K. Tobler, Escritório
Técnico. Esperou ainda um instante, como para refletir
sobre qualquer coisa certamente sem nenhuma importância, depois
apertou o botão da campainha elétrica, a qual atendeu
uma pessoa, que tudo levava crer ser a criada.
Sou o novo empregado disse Joseph, pois esse era o seu nome."
Trecho
de O Ajudante
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