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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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O guru de Kafka

Ele é Robert Walser, um escritor
adorado pelos escritores do
início do século XX

Moacyr Scliar


O escritor suíço Robert Walser (1878-1956) foi lido e admirado por contemporâneos notáveis como Robert Musil, Thomas Mann, Hermann Hesse e, sobretudo, Franz Kafka, que se dizia decisivamente influenciado por sua obra. Diferentemente desses autores que o apreciavam, contudo, Walser não ganhou fama universal. Ele se tornou uma espécie de "escritor para escritores", o que não é uma condição justa. O lançamento de O Ajudante (tradução de Zé Pedro Antunes; Arx; 335 páginas; 42 reais) representa uma oportunidade para conhecer uma obra sempre instigante e às vezes genial, que se desdobrou em vários gêneros, desde esboços, monólogos e contos fantasiosos até novelas caracterizadas pela ironia amarga, que as transforma numa paródia do romance de formação, o Bildungsroman, marca registrada da literatura de língua alemã desde Goethe.

A trama de O Ajudante é relativamente simples. No início da novela somos apresentados a Joseph, que acaba de ser contratado pelo Sr. Töbler, engenheiro e inventor, para trabalhar em projetos excêntricos, tais como um relógio que veiculará publicidade e uma máquina que fornece pacotes de cartuchos para fuzil. Töbler vive seus sonhos de grandeza, oferecendo festas em sua casa e cortejando possíveis investidores, sem notar os dramas ocultos de sua vida familiar. Os projetos de Töbler não têm êxito. Sua atividade concentra-se principalmente em ditar a Joseph cartas, mesclando súplica e arrogância, aos numerosos credores. Estes perdem a paciência e até a luz é cortada. Por fim, Joseph demite-se e abandona a casa – um desfecho aliás comum nas histórias de Walser, que não raro se encerram com a frase "finalmente, ele partiu". Escrito em 1907, quando Walser tinha 29 anos, O Ajudante tem, como é comum em autores jovens, elementos autobiográficos. A história, no entanto, é universal. Walser fala das desilusões da modernidade. Os mirabolantes projetos de Töbler não representariam a exceção, e sim a regra, e os que neles se engajam, como Joseph, vêem-se condenados à frustração. A Walser assustava um mundo que constantemente pressiona as pessoas a ter sucesso. "Eu não quero ter futuro, eu quero ter um presente", disse ele certa vez.

Parte da insegurança expressa nas obras de Walser provavelmente resultava da doença mental que interrompeu sua carreira. Doença para a qual existiam antecedentes familiares: a mãe, esquizofrênica, suicidara-se. O irmão, Ernst, também esquizofrênico, havia morrido num hospital psiquiátrico. Após um surto depressivo que culminou em uma tentativa de suicídio, Walser internou-se, voluntariamente, numa clínica. De lá o transferiram, agora contra sua vontade, para um hospício. A partir daí, e talvez como um ato de protesto, Walser recusou-se a escrever. "Estou aqui para ser louco, não para fazer literatura", teria dito. Mas, segundo testemunhos, ele escrevia, sim, em diminutos pedacinhos de papel. O que remete para um outro, e insólito, detalhe no trabalho de Walser. Boa parte de sua obra foi escrita numa caligrafia minúscula, que só podia ser lida por meio de um aparelho óptico. Isso tem um evidente aspecto simbólico: é a expressão de um escritor que "minimizava" o seu próprio trabalho. Walser permaneceu no hospício até morrer, em 1956. "Um dia eu serei um zero", afirma o personagem de outra de suas novelas, Jakob von Gunten. "Um bem redondo e fascinante zero." A doença pode ter aniquilado o homem, mas não destruiu a obra de Robert Walser.

 

O novo empregado

"Certa manhã, às oito horas, um jovem estava diante da porta de uma casa isolada e de bela aparência. Chovia. 'Para mim', pensou o rapaz ali postado, 'é quase um milagre ter nas mãos um guarda-chuva'. O certo é que jamais tivera um guarda-chuva em sua infância. Numa das mãos, estendida verticalmente ao longo do corpo, segurava uma mala marrom, dessas bem baratas. Diante dos olhos desse que aparentemente chegava de viagem, havia uma placa esmaltada em que se lia: K. Tobler, Escritório Técnico. Esperou ainda um instante, como para refletir sobre qualquer coisa certamente sem nenhuma importância, depois apertou o botão da campainha elétrica, a qual atendeu uma pessoa, que tudo levava crer ser a criada.

– Sou o novo empregado – disse Joseph, pois esse era o seu nome."

Trecho de O Ajudante



   
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