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Os estrangeiros sumiram
É
desanimador. O Brasil já atrai
menos turistas do que a Tunísia,
a Polônia e a Indonésia
Camila Antunes
Os resultados
preliminares do balanço do turismo no Brasil em 2002 são
catastróficos. Segundo a Embratur, 3,8 milhões de estrangeiros
visitaram o país no ano passado, número 20% inferior ao
registrado em 2001. Isso significa que quase 1 milhão de pessoas
deixaram de vir para cá. A queda é impressionante por dois
motivos. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, criou-se a
expectativa de que os turistas procurariam destinos considerados mais
seguros. O Brasil tem sérios problemas de criminalidade, mas atentados
terroristas são raríssimos por aqui. Em razão disso,
alguns especialistas acreditavam que o turismo nacional ganharia fôlego
extra. Não foi o que aconteceu. A segunda razão é
econômica. Com a desvalorização do real, o país
ficou barato para visitantes do exterior. De nada adiantou. Mais uma vez
não houve a esperada invasão estrangeira. O resultado é
dramático. O Brasil recebe um quinto dos turistas que vão
ao México, país que tem características semelhantes,
e muito menos que os que visitam a África do Sul, cujo forte também
é a vida selvagem. No ranking mundial, o aparece em 34º lugar,
atrás de Tunísia, Polônia e Indonésia. Diante
de um quadro tão negativo, é de perguntar por que um país
de dimensões continentais está na rabeira do turismo mundial.
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Sempre que
vêm à tona os números tímidos do turismo no
Brasil, as pessoas pensam no enorme potencial do país. De fato,
as paisagens brasileiras são exuberantes. O Brasil abriga 22% da
flora, 10% dos anfíbios e mamíferos e 17% das aves do mundo.
Paraísos ecológicos estão presentes em 43% do território
nacional. A costa brasileira tem 8.000 quilômetros
e 2.045 praias. De acordo com a Embratur, existem
300 roteiros com potencial para exploração turística.
Com tantos recursos naturais, por que diabos o Brasil é um fiasco?
Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração
algumas limitações. Num certo sentido, o país apresenta
atrações que podem ser obtidas a uma distância menor.
Segundo dados da Organização Mundial do Turismo, apenas
um de cada cinco turistas se dispõe a viajar para lugares que ficam
a mais de seis horas de vôo. Não há milagre que dê
jeito nessa limitação. Não é à toa
que 60% do total de visitantes estrangeiros no Brasil são oriundos
da América do Sul. Um exemplo: se um morador de Nova York quiser
visitar uma praia bonita, poderá pousar no México ou em
algum país da América Central. Não precisará
prolongar a viagem, descer em São Paulo e submeter-se a uma baldeação
com destino à Bahia.
Outro complicador
é o fato de que o Brasil não possui características
que o tornem único no cenário mundial. Está certo,
o país tem verdes matas, praias encantadoras, animais exóticos.
O problema é que a concorrência também possui tudo
isso. Por que o americano trocaria Cancún, no México, por
Porto de Galinhas, em Pernambuco, se as praias de lá são
tão belas quanto as daqui? Por que um europeu deixaria de visitar
as selvas africanas para passear na Amazônia? Na Arábia Saudita,
que está dez posições à frente do Brasil no
ranking do turismo, o grande chamariz é a religião. No Canadá,
nono colocado, são as montanhas nevadas. O Brasil não conta
com uma imagem consagrada internacionalmente. "O Brasil tem muitas atrações,
mas elas não foram transformadas em produtos", afirma Caio Luiz
de Carvalho, ex-ministro do Turismo. Por muitos anos, tentou-se também
vender no exterior a beleza da mulher brasileira. Anúncios de nossas
praias em revistas estrangeiras sempre mostravam garotas em biquínis
minúsculos. Campanhas desse tipo alimentaram o turismo sexual e,
em vez de atrair mais visitantes, afastavam as pessoas que costumam viajar
em família.
Valdemir Cunha
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| Cancún,
no México: os hotéis oferecem mordomias que não
existem no Brasil |
O Brasil também possui graves problemas estruturais que historicamente
prejudicam o crescimento do turismo. A violência é um deles.
Todos os anos, os jornais publicam centenas de casos de turistas assaltados
e pelo menos um de turista assassinado no país. O efeito negativo
dessa publicidade é devastador. No Rio de Janeiro, porta de entrada
para a maioria dos estrangeiros que chegam ao Brasil, o viajante submete-se
ao risco de visitar uma cidade com taxa de homicídio de 45 por
100.000 habitantes. Em Cingapura, que recebe
quase o dobro de turistas estrangeiros em comparação com
o Brasil, o índice é de um homicídio para cada 100.000
moradores. A sujeira das grandes cidades, o trânsito caótico,
a falta de informação e a precariedade dos serviços
são outros entraves para a melhoria da imagem do Brasil no estrangeiro.
Para chegar a Jericoacoara, o turista atravessa rios em embarcações
de madeira e sacoleja em cima de caminhões, feito um pau-de-arara.
Cenas assim são impensáveis em países do Primeiro
Mundo. Nas melhores praias brasileiras, são raros os hotéis
que servem os clientes na areia, diferentemente do que acontece no Caribe.
É
inegável que algumas áreas apresentaram melhorias significativas
nos últimos anos. Desde 1994, o setor do turismo no Brasil recebeu
6 bilhões de dólares em investimentos privados. Os recursos
foram utilizados na construção de hotéis de alto
padrão, resorts e parques temáticos. Nos próximos
quatro anos o turismo receberá outros 2 bilhões de dólares.
Na última década, 105 grupos hoteleiros internacionais ingressaram
no Brasil. Dezesseis aeroportos foram reformados desde 1995, o que exigiu
recursos da ordem de 1 bilhão de reais. Até pouco tempo
atrás, não eram oferecidos roteiros ecoturísticos.
Hoje em dia já é possível sair de casa e subir montanhas
ou fazer rafting com algum conforto. O setor parece estar se mexendo.
É uma aposta evidente de que, também no campo do turismo,
o Brasil pode em breve sair do atoleiro.
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