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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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Turismo: Os estrangeiros sumiram

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Os estrangeiros sumiram

É desanimador. O Brasil já atrai
menos turistas do que a Tunísia,
a Polônia e a Indonésia

Camila Antunes

Os resultados preliminares do balanço do turismo no Brasil em 2002 são catastróficos. Segundo a Embratur, 3,8 milhões de estrangeiros visitaram o país no ano passado, número 20% inferior ao registrado em 2001. Isso significa que quase 1 milhão de pessoas deixaram de vir para cá. A queda é impressionante por dois motivos. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, criou-se a expectativa de que os turistas procurariam destinos considerados mais seguros. O Brasil tem sérios problemas de criminalidade, mas atentados terroristas são raríssimos por aqui. Em razão disso, alguns especialistas acreditavam que o turismo nacional ganharia fôlego extra. Não foi o que aconteceu. A segunda razão é econômica. Com a desvalorização do real, o país ficou barato para visitantes do exterior. De nada adiantou. Mais uma vez não houve a esperada invasão estrangeira. O resultado é dramático. O Brasil recebe um quinto dos turistas que vão ao México, país que tem características semelhantes, e muito menos que os que visitam a África do Sul, cujo forte também é a vida selvagem. No ranking mundial, o aparece em 34º lugar, atrás de Tunísia, Polônia e Indonésia. Diante de um quadro tão negativo, é de perguntar por que um país de dimensões continentais está na rabeira do turismo mundial.


Sempre que vêm à tona os números tímidos do turismo no Brasil, as pessoas pensam no enorme potencial do país. De fato, as paisagens brasileiras são exuberantes. O Brasil abriga 22% da flora, 10% dos anfíbios e mamíferos e 17% das aves do mundo. Paraísos ecológicos estão presentes em 43% do território nacional. A costa brasileira tem 8.000 quilômetros e 2.045 praias. De acordo com a Embratur, existem 300 roteiros com potencial para exploração turística. Com tantos recursos naturais, por que diabos o Brasil é um fiasco? Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração algumas limitações. Num certo sentido, o país apresenta atrações que podem ser obtidas a uma distância menor. Segundo dados da Organização Mundial do Turismo, apenas um de cada cinco turistas se dispõe a viajar para lugares que ficam a mais de seis horas de vôo. Não há milagre que dê jeito nessa limitação. Não é à toa que 60% do total de visitantes estrangeiros no Brasil são oriundos da América do Sul. Um exemplo: se um morador de Nova York quiser visitar uma praia bonita, poderá pousar no México ou em algum país da América Central. Não precisará prolongar a viagem, descer em São Paulo e submeter-se a uma baldeação com destino à Bahia.

Outro complicador é o fato de que o Brasil não possui características que o tornem único no cenário mundial. Está certo, o país tem verdes matas, praias encantadoras, animais exóticos. O problema é que a concorrência também possui tudo isso. Por que o americano trocaria Cancún, no México, por Porto de Galinhas, em Pernambuco, se as praias de lá são tão belas quanto as daqui? Por que um europeu deixaria de visitar as selvas africanas para passear na Amazônia? Na Arábia Saudita, que está dez posições à frente do Brasil no ranking do turismo, o grande chamariz é a religião. No Canadá, nono colocado, são as montanhas nevadas. O Brasil não conta com uma imagem consagrada internacionalmente. "O Brasil tem muitas atrações, mas elas não foram transformadas em produtos", afirma Caio Luiz de Carvalho, ex-ministro do Turismo. Por muitos anos, tentou-se também vender no exterior a beleza da mulher brasileira. Anúncios de nossas praias em revistas estrangeiras sempre mostravam garotas em biquínis minúsculos. Campanhas desse tipo alimentaram o turismo sexual e, em vez de atrair mais visitantes, afastavam as pessoas que costumam viajar em família.

Valdemir Cunha
Cancún, no México: os hotéis oferecem mordomias que não existem no Brasil


O Brasil também possui graves problemas estruturais que historicamente prejudicam o crescimento do turismo. A violência é um deles. Todos os anos, os jornais publicam centenas de casos de turistas assaltados e pelo menos um de turista assassinado no país. O efeito negativo dessa publicidade é devastador. No Rio de Janeiro, porta de entrada para a maioria dos estrangeiros que chegam ao Brasil, o viajante submete-se ao risco de visitar uma cidade com taxa de homicídio de 45 por 100.000 habitantes. Em Cingapura, que recebe quase o dobro de turistas estrangeiros em comparação com o Brasil, o índice é de um homicídio para cada 100.000 moradores. A sujeira das grandes cidades, o trânsito caótico, a falta de informação e a precariedade dos serviços são outros entraves para a melhoria da imagem do Brasil no estrangeiro. Para chegar a Jericoacoara, o turista atravessa rios em embarcações de madeira e sacoleja em cima de caminhões, feito um pau-de-arara. Cenas assim são impensáveis em países do Primeiro Mundo. Nas melhores praias brasileiras, são raros os hotéis que servem os clientes na areia, diferentemente do que acontece no Caribe.

É inegável que algumas áreas apresentaram melhorias significativas nos últimos anos. Desde 1994, o setor do turismo no Brasil recebeu 6 bilhões de dólares em investimentos privados. Os recursos foram utilizados na construção de hotéis de alto padrão, resorts e parques temáticos. Nos próximos quatro anos o turismo receberá outros 2 bilhões de dólares. Na última década, 105 grupos hoteleiros internacionais ingressaram no Brasil. Dezesseis aeroportos foram reformados desde 1995, o que exigiu recursos da ordem de 1 bilhão de reais. Até pouco tempo atrás, não eram oferecidos roteiros ecoturísticos. Hoje em dia já é possível sair de casa e subir montanhas ou fazer rafting com algum conforto. O setor parece estar se mexendo. É uma aposta evidente de que, também no campo do turismo, o Brasil pode em breve sair do atoleiro.

 
 

 

Foto Fernando Vivas

Estrangeiros no Pelourinho, na Bahia: o Brasil recebeu quase 1 milhão de turistas a menos

 

   
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