
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
"Dez anos em
poucos meses"
Lula
faz seu discurso mais enfático em
favor das reformas e, na Previdência,
quer até taxar inativos
Maurício
Lima
Alan Marques/Folha Imagem
 |
Ana Araujo
 |
Servidores
reagem contra reforma, e o ministro Berzoini:
terremoto político |
Na quinta-feira
passada, ao completar exatos 100 dias no governo, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva soltou o verbo. Em solenidade no Palácio do Planalto,
ao receber as sugestões sobre a reforma da Previdência Social,
Lula fez seu mais duro e enfático discurso sobre política
econômica e social. Defendeu as reformas com ênfase inédita,
avisou que as mudanças, especialmente a previdenciária,
farão o Brasil avançar "dez anos em poucos meses" e cutucou
seus parceiros ideológicos ao dizer que a esquerda "tem medo do
novo". No mesmo dia, o Ministério da Fazenda divulgou documento,
de 95 páginas, descrevendo a política econômica com
absoluta clareza: combate ao desequilíbrio fiscal e empenho na
inclusão social. Em sua formulação, o documento traz
um enfoque original. Não atribui a exclusão social ao baixo
crescimento econômico, mas o contrário. Diz que a pobreza
é que estanca o crescimento. E dá uma pista de que vai manter
o superávit primário em 4,25% do PIB. Se isso for realmente
feito, a relação entre dívida pública e PIB
cairá de 56% para 35% até 2011 o que transformaria
as contas públicas brasileiras numa contabilidade de país
civilizado.
O discurso
de Lula, aliado ao documento da Fazenda, poderia estar apenas no plano
da retórica, mas as ações do governo indicam que
a coisa é séria. Na semana passada, o ministro da Previdência,
Ricardo Berzoini, encontrou-se com Lula para fazer uma exposição
detalhada do projeto de reforma da Previdência, a cujo conteúdo
VEJA teve acesso. Tal como está, a proposta é um terremoto
político e prova da intrepidez do governo do PT quando se trata
de contrariar o interesse de suas bases eleitorais no caso, o funcionalismo
público. A mudança mais ousada é a taxação
dos aposentados do serviço público, medida que a bancada
do PT no Congresso rejeitou duas vezes no governo anterior. O projeto
petista, agora, prevê que os aposentados terão desconto previdenciário
de 11% sobre seus proventos. Já se sabia que o governo combateria
de frente os privilégios dos servidores, que não pagam à
Previdência e se aposentam com salários muito mais altos
que os trabalhadores da iniciativa privada. No discurso no Planalto, Lula
fez questão de mostrar sua revolta contra aposentadorias privilegiadas
num país tão pobre como o Brasil. A surpresa é que
a proposta do governo nem sequer prevê regra de transição,
nem exclui os atuais aposentados. Ou seja: uma vez aprovada, a taxação
vai imediatamente aparecer no contracheque de todos os inativos.
"É
uma questão de justiça orçamentária", diz
o ministro Berzoini. "Fala-se em ferir direitos adquiridos, quando, por
falta de dinheiro, outros direitos garantidos pela Constituição,
como a saúde das crianças, são desrespeitados." Além
da taxação de inativos, o projeto prevê outras medidas
para ajudar a estancar o rombo da Previdência pública, de
54,4 bilhões de reais no ano passado:
Elimina
uma regra segundo a qual os servidores podem hoje se aposentar aos 53
anos, no caso dos homens, e 48 anos, no caso das mulheres. Pela proposta,
homens só poderão se aposentar aos 60 anos e mulheres aos
55.
Reduz
em 30% o valor das pensões de viúvos e viúvas. A
medida vale também para viúvas de militares e suas filhas
pensionistas, que só receberão o benefício até
os 24 anos e não por toda a vida, como é hoje.
Cria
um teto de 2.400 reais para aposentadoria,
válido para trabalhadores públicos e privados. O teto, porém,
só valerá para futuros aposentados do sistema público.
Os que já se aposentaram mantêm o salário atual, desde
que comprovem vinte anos de carreira pública.
No estudo
preparado pelos técnicos do Ministério da Previdência,
todas essas medidas, juntas, representarão uma economia de 3,1
bilhões de reais em 2004 ou 61 bilhões de reais na
próxima década. O projeto do governo ainda poderá
sofrer ajustes até ser entregue ao Congresso Nacional, na semana
que vem. Lula quer discuti-lo com a equipe econômica, entidades
sindicais e governadores, mas seu discurso da semana passada é
um sinal claro de que a disposição do presidente é
firme. A maior batalha do governo será travada, mesmo, dentro do
Congresso. Para sair do papel, o projeto precisa de três quintos
dos votos de deputados e senadores. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro
de Estudos Políticos (Ibep) mostra que a tarefa não será
tão simples. Quando se fala em reforma da Previdência, 90%
dos parlamentares se dizem favoráveis às mudanças.
Mas, quando confrontados com questões específicas, os parlamentares
mudam de idéia. Por exemplo: apenas 34% dos deputados e senadores
se declararam a favor da taxação dos inativos, o ponto mais
polêmico do projeto. Entre os deputados do PT, o índice é
ainda mais baixo: só uma minoria de 26% apóia a medida.
Será uma peleja e tanto entre, como diria o presidente, o novo
e o velho.
|
|
 |