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O pior crime ecológico
do século
Adriana Souza
Silva

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Como todos
os tiranos que o precederam na longa história de iniqüidades
políticas de nosso tempo, Saddam Hussein foi um homem brutal e
ignorante. Suas ações criminosas podem ser encontradas em
todos os domínios da vida no Iraque. Um de seus crimes menos comentados
na guerra atual foi a dizimação dos povos chamados de "árabes
dos pântanos", uma cultura de 6.000 anos
de idade que se instalava sobre uma região alagada com toda a aparência
de um paraíso na Terra. Mas agora que se começa a revelar
em detalhes a matança dos povos que habitaram os alagados do sul
do Iraque, próximos à cidade de Basra, a história
de perversidades de Saddam se enriquece. Os árabes dos pântanos
são descendentes diretos dos sumérios, uma das culturas
mais antigas da Mesopotâmia. Tradicionalmente arredios, esses povos
resistiram a cinco séculos de domínio turco e não
se renderam nem ao protetorado inglês nos anos 20.
No começo
da década de 90, Saddam decidiu atacá-los por desconfiança
de que a região servia de rota de infiltração no
Iraque de inimigos vindos do Irã, com o qual o país acabara
de encerrar uma guerra de oito anos de duração. As forças
de Saddam atacaram os árabes do pântano com bombas incendiárias.
Insatisfeito com os resultados, o ditador do Iraque ordenou que seus batalhões
de engenharia drenassem os pântanos milenares. Era uma região
com a aparência de cartão-postal. Cabanas arredondadas espalhadas
num mundo de paisagem deslumbrante, dominada pela água, onde o
povo levava uma vida primitiva, parecida com a dos seus ancestrais. Em
meses, a região se tornou seca como o deserto. Cerca de 250.000
moradores dos alagados foram desalojados de suas terras e forçados
a se espalhar pelo país. Outros 40.000
fugiram para o Irã. As Nações Unidas consideraram
a drenagem dos pântanos do sul do Iraque um dos maiores crimes ecológicos
do mundo em todos os tempos.
É
típico dos regimes totalitários meter-se em reengenharias
faraônicas que mudam populações inteiras de lugar.
Entre 1975 e 1979, o general Pol Pot, do Camboja, e seu Khmer Vermelho
decidiram transferir a população das cidades para o campo
à força como forma de reeducação ideológica.
Mataram de inanição nada menos que 25% dos habitantes do
país. Para seu projeto de "arabização" do Iraque,
Saddam expulsou centenas de milhares de curdos de suas casas, obrigando-os
a mudar para a região montanhosa do norte, próxima à
Turquia, e a entregar suas casas e seus pertences aos árabes do
sul. Entre 100.000 e 200.000
curdos morreram apenas nos anos 80, sob a perseguição de
Saddam. Mais de 5.000 foram mortos com o uso
de armas químicas em 1988.
Outra característica
das ditaduras é cercar seu ciclo íntimo de luxo, fartura
e privilégios, enquanto a maioria da população mal
sobrevive. Foi assim na União Soviética, na China e no Iraque.
Em suas incursões aos palácios de Saddam Hussein, os militares
americanos encontraram cenários paradisíacos, muitos deles
incrustados a dezenas de metros de regiões depauperadas. Os palácios
de Saddam são uma demonstração do que o poder absoluto,
o dinheiro sem limites e o mau gosto podem fazer juntos. Os soldados que
entraram em um dos palácios presidenciais próximo ao aeroporto
internacional de Bagdá, na semana passada, depararam com banheiros
de torneiras banhadas a ouro, pisos de mármore e lustres de cristal.
No melhor estilo "ditador-rico-de-país-miserável", os donos
da casa deixaram as etiquetas nas torneiras atestando o grau de pureza
do metal nobre utilizado. No Al-Mansur, o iate de 128 metros destruído
por mísseis ingleses nos primeiros dias da guerra, os militares
encontraram o mesmo padrão exagerado.
Parte desse
luxo será usada para pagar a reconstrução do país.
Encontrar, bloquear e confiscar os bilhões de dólares roubados
pela família Hussein e seus comparsas no Iraque é objetivo
imediato do governo americano. Já no primeiro dia da guerra, Bush
assinou um decreto ordenando o congelamento dos fundos que estão
em nome de instituições ligadas ao governo do Iraque nos
Estados Unidos. Desde então, o Tesouro americano conseguiu bloquear
cerca de 1 bilhão de dólares, dinheiro que será usado
na reconstrução do Iraque. O rastreamento da fortuna do
ditador em outros países será uma operação
mais complexa, mas compensadora. Estima-se que o total desviado para contas
em bancos europeus e do Oriente Médio por Saddam e seus parentes
atinja a casa dos 30 bilhões de dólares, quantia suficiente
para reconstruir e modernizar o sistema energético iraquiano.
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