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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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O pior crime ecológico
do século

Adriana Souza Silva

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O regime decapitado
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Especial Guerra no Iraque

Como todos os tiranos que o precederam na longa história de iniqüidades políticas de nosso tempo, Saddam Hussein foi um homem brutal e ignorante. Suas ações criminosas podem ser encontradas em todos os domínios da vida no Iraque. Um de seus crimes menos comentados na guerra atual foi a dizimação dos povos chamados de "árabes dos pântanos", uma cultura de 6.000 anos de idade que se instalava sobre uma região alagada com toda a aparência de um paraíso na Terra. Mas agora que se começa a revelar em detalhes a matança dos povos que habitaram os alagados do sul do Iraque, próximos à cidade de Basra, a história de perversidades de Saddam se enriquece. Os árabes dos pântanos são descendentes diretos dos sumérios, uma das culturas mais antigas da Mesopotâmia. Tradicionalmente arredios, esses povos resistiram a cinco séculos de domínio turco e não se renderam nem ao protetorado inglês nos anos 20.

No começo da década de 90, Saddam decidiu atacá-los por desconfiança de que a região servia de rota de infiltração no Iraque de inimigos vindos do Irã, com o qual o país acabara de encerrar uma guerra de oito anos de duração. As forças de Saddam atacaram os árabes do pântano com bombas incendiárias. Insatisfeito com os resultados, o ditador do Iraque ordenou que seus batalhões de engenharia drenassem os pântanos milenares. Era uma região com a aparência de cartão-postal. Cabanas arredondadas espalhadas num mundo de paisagem deslumbrante, dominada pela água, onde o povo levava uma vida primitiva, parecida com a dos seus ancestrais. Em meses, a região se tornou seca como o deserto. Cerca de 250.000 moradores dos alagados foram desalojados de suas terras e forçados a se espalhar pelo país. Outros 40.000 fugiram para o Irã. As Nações Unidas consideraram a drenagem dos pântanos do sul do Iraque um dos maiores crimes ecológicos do mundo em todos os tempos.

É típico dos regimes totalitários meter-se em reengenharias faraônicas que mudam populações inteiras de lugar. Entre 1975 e 1979, o general Pol Pot, do Camboja, e seu Khmer Vermelho decidiram transferir a população das cidades para o campo à força como forma de reeducação ideológica. Mataram de inanição nada menos que 25% dos habitantes do país. Para seu projeto de "arabização" do Iraque, Saddam expulsou centenas de milhares de curdos de suas casas, obrigando-os a mudar para a região montanhosa do norte, próxima à Turquia, e a entregar suas casas e seus pertences aos árabes do sul. Entre 100.000 e 200.000 curdos morreram apenas nos anos 80, sob a perseguição de Saddam. Mais de 5.000 foram mortos com o uso de armas químicas em 1988.

Outra característica das ditaduras é cercar seu ciclo íntimo de luxo, fartura e privilégios, enquanto a maioria da população mal sobrevive. Foi assim na União Soviética, na China e no Iraque. Em suas incursões aos palácios de Saddam Hussein, os militares americanos encontraram cenários paradisíacos, muitos deles incrustados a dezenas de metros de regiões depauperadas. Os palácios de Saddam são uma demonstração do que o poder absoluto, o dinheiro sem limites e o mau gosto podem fazer juntos. Os soldados que entraram em um dos palácios presidenciais próximo ao aeroporto internacional de Bagdá, na semana passada, depararam com banheiros de torneiras banhadas a ouro, pisos de mármore e lustres de cristal. No melhor estilo "ditador-rico-de-país-miserável", os donos da casa deixaram as etiquetas nas torneiras atestando o grau de pureza do metal nobre utilizado. No Al-Mansur, o iate de 128 metros destruído por mísseis ingleses nos primeiros dias da guerra, os militares encontraram o mesmo padrão exagerado.

Parte desse luxo será usada para pagar a reconstrução do país. Encontrar, bloquear e confiscar os bilhões de dólares roubados pela família Hussein e seus comparsas no Iraque é objetivo imediato do governo americano. Já no primeiro dia da guerra, Bush assinou um decreto ordenando o congelamento dos fundos que estão em nome de instituições ligadas ao governo do Iraque nos Estados Unidos. Desde então, o Tesouro americano conseguiu bloquear cerca de 1 bilhão de dólares, dinheiro que será usado na reconstrução do Iraque. O rastreamento da fortuna do ditador em outros países será uma operação mais complexa, mas compensadora. Estima-se que o total desviado para contas em bancos europeus e do Oriente Médio por Saddam e seus parentes atinja a casa dos 30 bilhões de dólares, quantia suficiente para reconstruir e modernizar o sistema energético iraquiano.

 
 
   
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