Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
Especial

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Especial
 

O que os EUA farão com tanto poder
O desafio do pós-guerra
Democracias não guerreiam entre si
A repercussão nos países islâmicos
O pior crime ecológico do século

Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


 

Os moderados são
a chave da paz

Eurípedes Alcântara

Veja também
Nesta edição
O regime decapitado
Beijos e bombas
Onde há democracia não há guerra
O pior crime ecológico do século
Na internet
Especial Guerra no Iraque

As vésperas da invasão do Iraque, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, fez um alerta aos Estados Unidos: "A guerra vai produzir uma centena de Bin Ladens", disse o mandatário do Egito, referindo-se ao terrorista saudita Osama bin Laden, chefe da rede Al Qaeda, responsável pelo ataque às torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono no fatídico 11 de setembro de 2001. Três semanas depois, com a invasão do Iraque chegando ao fim de sua etapa militar, os Estados Unidos têm como gigantesco desafio político impedir que a previsão de Mubarak

se confirme e, ao mesmo tempo, incentivar a proliferação no Oriente Médio de outro tipo de militante, o muçulmano moderado. São estudiosos da religião, alguns são clérigos, mas a maioria dos moderados islâmicos é formada por profissionais liberais e intelectuais das universidades. Esses novos personagens não oferecem perigo ao Ocidente. Eles são, no entanto, uma ameaça para os regimes totalitários da região, em especial para aqueles como o do egípcio Mubarak, cuja existência e cujos exageros repressivos sempre foram tolerados no Ocidente por ser vistos como uma barreira ao avanço dos radicais. "Mubarak só se manteve no poder sem ser seriamente incomodado por tantos anos porque, a pretexto de combater o radicalismo islâmico, colocou na cadeia todos os que discordam dele", disse a VEJA o egípcio Saad Eddin Ibrahim, 64 anos, um dos mais respeitados intelectuais árabes, que, não por acaso, acaba de sair de uma prisão no Cairo.

A esperança de democracia no Oriente Médio se assenta principalmente na multiplicação dos Ibrahims. Serão necessárias centenas de milhares deles em dezenas de países para que a química explosiva da região encontre um mínimo de equilíbrio. Para muitos analistas ocidentais, essa possibilidade não passa de uma utopia. Mas todos concordam que a única barreira real de longo prazo para deter o terrorismo religioso são os moderados islâmicos. A eficiência dos serviços de contenção dos radicais prestados por regimes totalitários pró-ocidentais na região está se exaurindo. Essa tendência deve acentuar-se com a presença dos Estados Unidos no Iraque, na exata medida em que os americanos sejam bem-sucedidos na instalação de um governo minimamente representativo no país que já foi de Saddam Hussein e seus asseclas. "Os americanos serão sábios se conseguirem afastar qualquer conotação colonial no empreendimento de reerguer o Iraque. Eles precisam deixar as próprias vítimas de Saddam contarem aos árabes tudo o que sofreram sob o antigo regime", aconselha o professor Ibrahim. "Os árabes têm desconfiança e mágoa dos americanos. Isso não vai se dissipar tão cedo, mas esse sentimento não precisa ser traduzido para sempre na forma de agressão, hostilidade e até terrorismo contra o Ocidente."

Outro pregador da moderação no Oriente Médio é Abdulwahab Alkebsi, diretor executivo do Centro para Estudos do Islã e a Democracia, entidade baseada em Washington. Alkebsi montou uma vasta rede de analistas que abastecem diariamente, via internet, seus arquivos sobre o Oriente Médio. Na semana passada, algumas horas depois que as estátuas de Saddam Hussein começaram a ser derrubadas em Bagdá, Alkebsi montou um fórum on-line em que perguntava a seus informantes no mundo árabe como eles enxergavam a promessa americana de incentivar os avanços institucionais no Oriente Médio. "A elite intelectual nos países árabes não vê diferença entre os valores da democracia ocidental e os prescritos nos livros sagrados do Islã", disse Alkebsi. "Dignidade humana, império da lei e a limitação do poder do Estado estão claramente expostos no Corão." Alkebsi reconhece que passar da teoria à prática exigirá um esforço gigantesco, sem garantias de sucesso. Mas ele acha tolice não tentar e "loucura não aproveitar a queda de Saddam e a possibilidade de surgimento de um Iraque democrático para dar uma chance aos moderados islâmicos". O instituto que Alkebsi dirige em Washington listou na semana passada avanços institucionais recentes, alguns anunciados depois da queda de Bagdá em mãos dos soldados americanos. Os exemplos abaixo são gotas de esperança no deserto de insatisfação do mundo islâmico, mas ajudam a demonstrar a existência de saídas democráticas realistas no Oriente Médio e que elas não conflitam com a cultura árabe.

• Horas depois da queda da capital iraquiana, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou sua desistência de fazer o filho, Gamal, seu sucessor no poder. O Egito está submetido a variações de estado de sítio desde 1931 e seus principais órgãos de imprensa são estatais. Portanto, o gesto de Mubarak tem um peso.

• O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, anunciou recentemente o desencadeamento de um plano de "aprimoramento econômico e político" que, segundo Alkebsi, prevê a eleição de um Parlamento. Monarquia religiosa, a Arábia Saudita é o país formalmente mais alinhado com o Ocidente na região. Mas existem evidências desconcertantes de que, nos bastidores, a dinastia saudita dá sustentação a grupos terroristas. O aceno com a possibilidade de eleger um Parlamento é a melhor notícia ventilada daquele lado do deserto há dezenas de anos.

• Em setembro do ano passado, o Marrocos promoveu as primeiras eleições livres de sua história. A ida às urnas foi fiscalizada por monitores internacionais. Um partido ligado ao clero islâmico ganhou um bom número de cadeiras no Parlamento, e o governo reconheceu oficialmente o resultado.

• Também no fim do ano passado, o Barein, um pequeno país do Golfo com menos de 1 milhão de habitantes, convocou eleições gerais em que, pela primeira vez, as mulheres também puderam votar e se candidatar a cargos eletivos.

"Os Estados Unidos não podem perder a chance aberta com o sucesso da campanha militar no Iraque. É preciso deixar claro que a invasão foi um caso único. Se os países vizinhos se sentirem ameaçados, a pequena chama dos moderados pode se apagar e o incêndio radical dominar a cena", disse a VEJA Abdulwahab Alkebsi. Os defensores da idéia de que vale a pena semear democracia no deserto alertam para os perigos. O mais evidente deles é o fato de que naturalmente os políticos com ligações com o clero islâmico serão, pelo menos no primeiro momento, os mais populares. Há possibilidade também de que os radicais sejam os mais votados e até que cheguem ao poder pelo voto. Na Argélia, em 1992, os militares deram um golpe preventivo assim que as pesquisas não deixavam mais dúvidas de que os fundamentalistas chegariam ao poder nas eleições gerais daquele ano. O que fazer nesses casos? Esse é um ponto crucial, pois, se os eleitores dos países árabes suspeitarem que a democracia só vale quando forem eleitos políticos com simpatia pelo Ocidente, todo o processo ficará desmoralizado. Especialistas como Alkebsi e Eddin Ibrahim acreditam que esses riscos precisam ser enfrentados. "A democracia é um fenômeno novo até mesmo no Ocidente e nunca atingiu a perfeição. No Oriente Médio é preciso ir pelo método da tentativa e erro, e, nesse caso, quem tem de exercitar mais a paciência são os Estados Unidos. É provável que eles vejam seus adversários serem os primeiros a se eleger nos países que se liberalizarem", alerta Ibrahim.

AFP

ENTRE DOIS MUNDOS
A rainha Noor, da Jordânia, americana de nascimento, diz em seu novo livro, Espírito da Paz, que o Islã e a democracia podem conviver muito bem


No campo prático imediato será preciso encaminhar uma solução para o conflito entre Israel e os palestinos. "A Palestina é um microcosmo de todas as injustiças das quais os árabes se sentem vítimas", diz o professor Eddin Ibrahim. Na semana passada, no encontro que teve com Tony Blair, primeiro-ministro britânico, na Irlanda do Norte, o presidente George W. Bush se adiantou à questão. "A existência de um Estado Palestino convivendo em paz lado a lado com Israel é uma etapa fundamental", disse Bush. A questão palestina, no entanto, é tão complexa que os moderados islâmicos sustentam que será necessário perseguir as reformas nos demais países mesmo sem muitos avanços na luta entre Israel e seu vizinho. Sobre as possibilidades de mudança no Oriente Médio pesa também o manto do empuxo histórico negativo. Os estudiosos como Alkebsi e o professor Ibrahim lembram que a civilização árabe teve seu momento clássico que, a exemplo dos gregos, primava pela democracia e pelo igualitarismo. É verdade. Mas outros historiadores acreditam que a herança cultural predominante nos dias de hoje no Oriente Médio vem de outra vertente, o Império Otomano, cuja influência atual entre os árabes ainda é quase tão grande quanto o confucionismo na China e o catolicismo ortodoxo na Rússia.

"A tarefa de modernizar o Oriente Médio vai encontrar resistência muito forte", disse a VEJA Richard Pipes, historiador americano da Universidade Harvard. Ele lembra que a primazia da religião sobre todos os outros aspectos da vida, e em especial sobre a política, no Oriente Médio é uma herança do Império Otomano, e não do islamismo. Esse império se estendeu da Turquia, seu centro, até o sul da Ásia, e do norte da África ao sul da Europa. Durou do fim do século XIII até pouco depois da I Guerra Mundial. A história desse vasto reino é a chave para entender os enigmas que o Oriente Médio oferece. São charadas complicadas. Os historiadores apostam que serão fatores complicadores da bem-sucedida invasão do Iraque pelos americanos. A idéia de usar a religião para regular a vida em sociedade no Oriente foi o mecanismo de dominação imaginado pelo sultão Osman I, fundador do Império Otomano (referência à denominação da tribo a que pertencia Osman I). Os sultões do império, descendentes do fundador, se declararam califas, ou seja, sacerdotes do islamismo. Por séculos eles esmagaram facilmente quase todas as revoltas em nome de Alá. "Poder e religião andam juntos há séculos no Oriente Médio", diz David Fromkin, professor da Universidade de Boston e autor do livro A Paz para Acabar com a Paz, em que relata os momentos finais do Império Otomano e a invenção do Oriente Médio como o conhecemos hoje. O título do livro do professor Fromkin é talvez o melhor resumo dos desafios que os americanos terão pela frente depois de sua vitória militar no Iraque.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS