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Os
moderados são
a chave da paz

Eurípedes Alcântara

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As
vésperas da invasão do Iraque, o presidente egípcio,
Hosni Mubarak, fez um alerta aos Estados Unidos: "A guerra vai produzir
uma centena de Bin Ladens", disse o mandatário do Egito, referindo-se
ao terrorista saudita Osama bin Laden, chefe da rede Al Qaeda, responsável
pelo ataque às torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono
no fatídico 11 de setembro de 2001. Três semanas depois,
com a invasão do Iraque chegando ao fim de sua etapa militar, os
Estados Unidos têm como gigantesco desafio político impedir
que a previsão de Mubarak
se confirme e, ao mesmo tempo, incentivar a proliferação
no Oriente Médio de outro tipo de militante, o muçulmano
moderado. São estudiosos da religião, alguns são
clérigos, mas a maioria dos moderados islâmicos é
formada por profissionais liberais e intelectuais das universidades. Esses
novos personagens não oferecem perigo ao Ocidente. Eles são,
no entanto, uma ameaça para os regimes totalitários da região,
em especial para aqueles como o do egípcio Mubarak, cuja existência
e cujos exageros repressivos sempre foram tolerados no Ocidente por ser
vistos como uma barreira ao avanço dos radicais. "Mubarak só
se manteve no poder sem ser seriamente incomodado por tantos anos porque,
a pretexto de combater o radicalismo islâmico, colocou na cadeia
todos os que discordam dele", disse a VEJA o egípcio Saad Eddin
Ibrahim, 64 anos, um dos mais respeitados intelectuais árabes,
que, não por acaso, acaba de sair de uma prisão no Cairo.
A esperança de democracia no Oriente Médio se assenta principalmente
na multiplicação dos Ibrahims. Serão necessárias
centenas de milhares deles em dezenas de países para que a química
explosiva da região encontre um mínimo de equilíbrio.
Para muitos analistas ocidentais, essa possibilidade não passa
de uma utopia. Mas todos concordam que a única barreira real de
longo prazo para deter o terrorismo religioso são os moderados
islâmicos. A eficiência dos serviços de contenção
dos radicais prestados por regimes totalitários pró-ocidentais
na região está se exaurindo. Essa tendência deve acentuar-se
com a presença dos Estados Unidos no Iraque, na exata medida em
que os americanos sejam bem-sucedidos na instalação de um
governo minimamente representativo no país que já foi de
Saddam Hussein e seus asseclas. "Os americanos serão sábios
se conseguirem afastar qualquer conotação colonial no empreendimento
de reerguer o Iraque. Eles precisam deixar as próprias vítimas
de Saddam contarem aos árabes tudo o que sofreram sob o antigo
regime", aconselha o professor Ibrahim. "Os árabes têm desconfiança
e mágoa dos americanos. Isso não vai se dissipar tão
cedo, mas esse sentimento não precisa ser traduzido para sempre
na forma de agressão, hostilidade e até terrorismo contra
o Ocidente."
Outro pregador da moderação no Oriente Médio é
Abdulwahab Alkebsi, diretor executivo do Centro para Estudos do Islã
e a Democracia, entidade baseada em Washington. Alkebsi montou uma vasta
rede de analistas que abastecem diariamente, via internet, seus arquivos
sobre o Oriente Médio. Na semana passada, algumas horas depois
que as estátuas de Saddam Hussein começaram a ser derrubadas
em Bagdá, Alkebsi montou um fórum on-line em que perguntava
a seus informantes no mundo árabe como eles enxergavam a promessa
americana de incentivar os avanços institucionais no Oriente Médio.
"A elite intelectual nos países árabes não vê
diferença entre os valores da democracia ocidental e os prescritos
nos livros sagrados do Islã", disse Alkebsi. "Dignidade humana,
império da lei e a limitação do poder do Estado estão
claramente expostos no Corão." Alkebsi reconhece que passar
da teoria à prática exigirá um esforço gigantesco,
sem garantias de sucesso. Mas ele acha tolice não tentar e "loucura
não aproveitar a queda de Saddam e a possibilidade de surgimento
de um Iraque democrático para dar uma chance aos moderados islâmicos".
O instituto que Alkebsi dirige em Washington listou na semana passada
avanços institucionais recentes, alguns anunciados depois da queda
de Bagdá em mãos dos soldados americanos. Os exemplos abaixo
são gotas de esperança no deserto de insatisfação
do mundo islâmico, mas ajudam a demonstrar a existência de
saídas democráticas realistas no Oriente Médio e
que elas não conflitam com a cultura árabe.
Horas depois da queda da capital iraquiana, o presidente do Egito,
Hosni Mubarak, anunciou sua desistência de fazer o filho, Gamal,
seu sucessor no poder. O Egito está submetido a variações
de estado de sítio desde 1931 e seus principais órgãos
de imprensa são estatais. Portanto, o gesto de Mubarak tem um peso.
O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin
Abdul Aziz, anunciou recentemente o desencadeamento de um plano de "aprimoramento
econômico e político" que, segundo Alkebsi, prevê a
eleição de um Parlamento. Monarquia religiosa, a Arábia
Saudita é o país formalmente mais alinhado com o Ocidente
na região. Mas existem evidências desconcertantes de que,
nos bastidores, a dinastia saudita dá sustentação
a grupos terroristas. O aceno com a possibilidade de eleger um Parlamento
é a melhor notícia ventilada daquele lado do deserto há
dezenas de anos.
Em setembro do ano passado, o Marrocos promoveu as primeiras eleições
livres de sua história. A ida às urnas foi fiscalizada por
monitores internacionais. Um partido ligado ao clero islâmico ganhou
um bom número de cadeiras no Parlamento, e o governo reconheceu
oficialmente o resultado.
Também no fim do ano passado, o Barein, um pequeno país
do Golfo com menos de 1 milhão de habitantes, convocou eleições
gerais em que, pela primeira vez, as mulheres também puderam votar
e se candidatar a cargos eletivos.
"Os
Estados Unidos não podem perder a chance aberta com o sucesso da
campanha militar no Iraque. É preciso deixar claro que a invasão
foi um caso único. Se os países vizinhos se sentirem ameaçados,
a pequena chama dos moderados pode se apagar e o incêndio radical
dominar a cena", disse a VEJA Abdulwahab Alkebsi. Os defensores da idéia
de que vale a pena semear democracia no deserto alertam para os perigos.
O mais evidente deles é o fato de que naturalmente os políticos
com ligações com o clero islâmico serão, pelo
menos no primeiro momento, os mais populares. Há possibilidade
também de que os radicais sejam os mais votados e até que
cheguem ao poder pelo voto. Na Argélia, em 1992, os militares deram
um golpe preventivo assim que as pesquisas não deixavam mais dúvidas
de que os fundamentalistas chegariam ao poder nas eleições
gerais daquele ano. O que fazer nesses casos? Esse é um ponto crucial,
pois, se os eleitores dos países árabes suspeitarem que
a democracia só vale quando forem eleitos políticos com
simpatia pelo Ocidente, todo o processo ficará desmoralizado. Especialistas
como Alkebsi e Eddin Ibrahim acreditam que esses riscos precisam ser enfrentados.
"A democracia é um fenômeno novo até mesmo no Ocidente
e nunca atingiu a perfeição. No Oriente Médio é
preciso ir pelo método da tentativa e erro, e, nesse caso, quem
tem de exercitar mais a paciência são os Estados Unidos.
É provável que eles vejam seus adversários serem
os primeiros a se eleger nos países que se liberalizarem", alerta
Ibrahim.
AFP
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ENTRE
DOIS MUNDOS
A rainha Noor, da Jordânia, americana de nascimento, diz em
seu novo livro, Espírito da Paz, que o Islã
e a democracia podem conviver muito bem
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No campo prático imediato será preciso encaminhar uma solução
para o conflito entre Israel e os palestinos. "A Palestina é um
microcosmo de todas as injustiças das quais os árabes se
sentem vítimas", diz o professor Eddin Ibrahim. Na semana passada,
no encontro que teve com Tony Blair, primeiro-ministro britânico,
na Irlanda do Norte, o presidente George W. Bush se adiantou à
questão. "A existência de um Estado Palestino convivendo
em paz lado a lado com Israel é uma etapa fundamental", disse Bush.
A questão palestina, no entanto, é tão complexa que
os moderados islâmicos sustentam que será necessário
perseguir as reformas nos demais países mesmo sem muitos avanços
na luta entre Israel e seu vizinho. Sobre as possibilidades de mudança
no Oriente Médio pesa também o manto do empuxo histórico
negativo. Os estudiosos como Alkebsi e o professor Ibrahim lembram que
a civilização árabe teve seu momento clássico
que, a exemplo dos gregos, primava pela democracia e pelo igualitarismo.
É verdade. Mas outros historiadores acreditam que a herança
cultural predominante nos dias de hoje no Oriente Médio vem de
outra vertente, o Império Otomano, cuja influência atual
entre os árabes ainda é quase tão grande quanto o
confucionismo na China e o catolicismo ortodoxo na Rússia.
"A
tarefa de modernizar o Oriente Médio vai encontrar resistência
muito forte", disse a VEJA Richard Pipes, historiador americano da Universidade
Harvard. Ele lembra que a primazia da religião sobre todos os outros
aspectos da vida, e em especial sobre a política, no Oriente Médio
é uma herança do Império Otomano, e não do
islamismo. Esse império se estendeu da Turquia, seu centro, até
o sul da Ásia, e do norte da África ao sul da Europa. Durou
do fim do século XIII até pouco depois da I Guerra Mundial.
A história desse vasto reino é a chave para entender os
enigmas que o Oriente Médio oferece. São charadas complicadas.
Os historiadores apostam que serão fatores complicadores da bem-sucedida
invasão do Iraque pelos americanos. A idéia de usar a religião
para regular a vida em sociedade no Oriente foi o mecanismo de dominação
imaginado pelo sultão Osman I, fundador do Império Otomano
(referência à denominação da tribo a que pertencia
Osman I). Os sultões do império, descendentes do fundador,
se declararam califas, ou seja, sacerdotes do islamismo. Por séculos
eles esmagaram facilmente quase todas as revoltas em nome de Alá.
"Poder e religião andam juntos há séculos no Oriente
Médio", diz David Fromkin, professor da Universidade de Boston
e autor do livro A Paz para Acabar com a Paz, em que relata os
momentos finais do Império Otomano e a invenção do
Oriente Médio como o conhecemos hoje. O título do livro
do professor Fromkin é talvez o melhor resumo dos desafios que
os americanos terão pela frente depois de sua vitória militar
no Iraque.
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