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Onde há democracia
não há guerra
Amauri
Segalla

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Fascismo,
comunismo, nazismo e todos os outros ismos totalitários produziram
ao longo dos tempos algumas das mais pavorosas cenas de intolerância
perpetradas pelo homem contra alguém que ele julga diferente. "Fogueiras,
patíbulos, decapitações, guilhotinas, fuzilamentos,
extermínios, campos de concentração, fornos crematórios,
suplícios dos garrotes, as valas dos cadáveres, as deportações,
os gulags, as residências forçadas, a Inquisição
e o índex dos livros proibidos", descreveu o jurista italiano Italo
Mereu, são algumas das mais bárbaras manifestações
de ódio adotadas por quem julga "possuir
a verdade absoluta e se acha no dever de impô-la a todos, pela força".
A praga da intolerância só atinge esse patamar de perversidade
quando um outro valor já não vigora mais há muito
tempo: a democracia. É mais ou menos assim que as coisas funcionam.
Aniquila-se a democracia em nome de um ideal revolucionário que
promete semear a liberdade e o fim da opressão dos mais fracos.
Essa é a promessa, mas o que se colhe jamais é a libertação,
apenas abuso e intolerância. Numa primeira fase, o abuso é
interno e concentrado contra os inimigos políticos do regime. Depois,
todos se tornam inimigos em potencial e até a delação
de vizinhos vira uma arma de controle social. Na fase seguinte, surgem
as guerras contra os inimigos externos. No Iraque de Saddam Hussein, a
intolerância matou pelo menos 100 000 pessoas nos porões
do regime. A seguir, vieram as invasões do Irã e do Kuwait.
Nada disso teria acontecido num país democrático.
Sempre
que se argumenta que a democracia é o único detergente eficaz
contra os abusos, surge uma voz discordante alegando que não é
bem assim. Que o princípio democrático do direito à
expressão e à liberdade política se subordina ao
direito à alimentação e à saúde. O
que se quer dizer com isso? Que democracia é um valor secundário.
Saddam adoraria ouvir isso. Para colocar a discussão num terreno
que contorna as posições ideológicas, o ex-ministro
da Suécia Per Ahlmark foi buscar números para enfrentar
o debate de forma fria, sem paixão. E descobriu estatísticas
fabulosas. O resultado pode ser conferido num artigo que integra o livro
A Intolerância, publicado no Brasil pela Editora Bertrand
Brasil. De acordo com o levantamento apresentado por Ahlmark, durante
os primeiros oitenta anos do século passado, 170 milhões
de pessoas foram mortas em situações de não-beligerância.
Isso significa que os próprios dirigentes dos países resolveram
eliminar seus opositores. Desse total, 99% das mortes ocorreram em regimes
totalitários e autoritários. Mais de 100 milhões
de pessoas foram massacradas por ditaduras comunistas. Na China, morreram
35 milhões. A União Soviética matou 62 milhões
de pessoas. Esses números impressionantes levam a uma conclusão:
nas democracias, os governos representam seu povo. Nos regimes autoritários,
massacram-no.
Além
de diferenças evidentes no tratamento que reservam aos seus cidadãos,
países democráticos e não democráticos se
comportam de forma distinta também em tempos de guerra. Eles estão
sempre em lados opostos. De 1815 até hoje, Per Ahlmark catalogou
a ocorrência de 353 guerras no mundo. Dessas, 198 levaram ao campo
de batalha apenas países não democráticos. Nas 155
ocasiões em que democracias pegaram em armas, entraram em campo
para enfrentar um país não democrático. Não
há caso em que duas democracias tenham guerreado. As duas guerras
mais abrangentes da história servem de exemplo. Participaram da
I Guerra Mundial 33 países. Entre eles, dez eram democracias
e não lutaram umas contra as outras. A II Guerra Mundial envolveu
52 países, entre os quais quinze democracias que também
não brigaram entre si.
A superioridade
da democracia fica inquestionável quando se analisam os dados apresentados
por Per Ahlmark. A dúvida que atormenta os estudiosos é
sobre o papel do mundo democrático para conter o avanço
da intolerância, característica maior do autoritarismo. Cabe
aos países democráticos, que normalmente não matam
ninguém fora do âmbito de guerra, impedir a barbárie
nos regimes que convivem com outra realidade? Segundo um estudo realizado
em 2001 pela organização não-governamental Freedom
House, três quartos das 145 nações não-muçulmanas
são democracias. Enquanto isso, no mundo islâmico, os pesquisadores
classificaram apenas onze regimes como democracias ou precisamente
23% do total dos 47 países que adotam essa religião como
a predominante. Vale repetir a conta: 75% das nações não-muçulmanas
são democracias, contra apenas 23% dos países do mundo islâmico.
Os países democráticos têm o direito de tentar mudar
esse quadro?
Há
um quase consenso de que a resposta é não. A realidade desses
países diz respeito apenas aos seus habitantes, e a ninguém
mais. Tudo muda, no entanto, quando o exercício da intolerância
ultrapassa as fronteiras nacionais. Em 1935, quatro anos antes de a II
Guerra começar, Adolf Hitler reiniciou a produção
de armamentos e restabeleceu o serviço militar obrigatório
na Alemanha, ações que desrespeitavam o Tratado de Versalhes.
Um ano depois, Hitler ocupou a Romênia, um sinal inequívoco
de sua política de expansão. Apesar dos recados enviados
pelo líder alemão, o mundo ocidental não se deu conta
do perigo. Deixou a tirania de Hitler ganhar corpo. Em 1939, a Alemanha
invadiu a Polônia e deu início à II Guerra Mundial.
Diante disso, é razoável perguntar: a ação
de Hitler poderia ter sido evitada se os países democráticos
não tivessem sido tolerantes? Até que ponto se deve tolerar
o intolerável?
De acordo
com Per Ahlmark, a passividade das democracias diante de tiranias é
um comportamento que a humanidade deve evitar. As nações
livres e democráticas têm uma enorme responsabilidade na
manutenção da paz mundial. Só elas podem ou não
aceitar a existência de tiranias. Quando percebem que as democracias
são frágeis, os ditadores sentem-se encorajados a agir.
Ahlmark diz que a tolerância só prevalecerá se os
países democráticos forem intolerantes diante de governos
que praticam a violência e a opressão. O problema que os
estudiosos do assunto observam nessa questão é definir o
que é de fato intolerável. A existência da ONU facilita
o debate, pois a entidade é o fórum certo para analisar,
caso a caso, os níveis de transgressão. A ONU é também
o fórum adequado para comandar uma eventual ação
contra um país transgressor. Acatar as decisões da ONU é
uma obrigação das nações democráticas.
Foi o que os Estados Unidos se recusaram a fazer nesta guerra ao Iraque.
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