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Beijos e bombas
Vilma
Gryzinski
AP
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AFP
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PAZ
DO PENTÁGONO
O gesto de agradecimento do menino iraquiano e, à direita,
Ahmad Chalabi, o predileto dos neoconservadores: depois da guerra,
falcões comandam a paz |

Veja também |
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Tendo
conquistado Bagdá com a "guerra dos 21 dias", uma campanha ousada,
criticada e por fim excepcionalmente bem-sucedida, os Estados Unidos agora
têm planos igualmente ambiciosos para ganhar a paz. As tarefas fundamentais
são de uma vastidão de tirar o fôlego. No plano mais
imediato, é preciso restabelecer a ordem, restaurar serviços
básicos, alimentar uma população que depende em quase
60% da distribuição de comida feita pela autoridade central
agora inexistente. Isso tudo ainda sob o impacto fenomenal da presença
de quase 200 000 militares americanos, que continuarão a realizar
operações bélicas contra as forças
remanescentes do regime, agindo num clima de tensão, entre bombas
e beijos, sem nunca ter certeza se o júbilo pela queda do tirano
substituiu de vez o ódio dos suicidas.
Às
medidas de curto prazo mais prementes somam-se as mudanças institucionais:
reformar a máquina do Estado, expurgar ou reabilitar os funcionários
ligados ao antigo regime, criar um Poder Judiciário digno do nome,
lançar as bases de um sistema político representativo que
tenha legitimidade aos olhos dos iraquianos e do mundo. Isso é
o que se chama em inglês de nation building, a construção
nacional tal como acontece em países que começam do zero
(um exemplo recente é o Timor Leste), que saem de guerras ou conflitos
civis arrasadores (Bósnia, Kosovo) ou passam por viradas políticas
de dimensões históricas (os integrantes do antigo bloco
soviético). Para estabelecer um paralelo com o Iraque, porém,
é preciso ir mais longe no tempo: só o Japão ocupado
pelos americanos ao fim da II Guerra Mundial apresentaria condições
similares, apesar das imensas diferenças entre os dois países
e das circunstâncias históricas. "Reconstituir o Iraque de
forma a que se torne um país responsável, respeitoso do
estado de direito, será a tarefa financeiramente mais custosa e
politicamente mais formidável que os Estados Unidos já assumiram
no plano internacional em muitas décadas", definiu um estudioso
de processos de democratização, Larry Diamond, do Hoover
Institution.
AP
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ÔNUS
DA OCUPAÇÃO
Iraquianos suspeitos são despidos, algemados e interrogados:
"À medida que o júbilo diminuir, é possível
que soldados americanos comecem a levar tiros pelas costas" |
Para culminar,
e aí se vê a assinatura do secretário de Defesa, Donald
Rumsfeld, que pretende dirigir a paz da mesma maneira que comandou a guerra,
o núcleo duro do governo americano ambiciona fazer do Iraque pós-Saddam
não apenas um país mais decente, com um sistema de governo
que leve em conta a diversidade étnica e religiosa e as tradições
tribais, como uma espécie de Afeganistão melhorado. O projeto
dos chamados neoconservadores, formuladores dos fundamentos ideológicos
da nova direita americana, é transmudar o país pela raiz,
transformando-o em uma democracia-modelo, um inédito paradigma
de liberdade e liberalismo que implante um aliado orgânico dos Estados
Unidos no coração do Oriente Médio e sirva de exemplo
para os vizinhos.
É
enorme a quantidade de especialistas que consideram esse plano uma rematada
insensatez em face das realidades políticas do Iraque, um país
sob risco eterno de implosão ou desordem em razão das clivagens
étnico-religiosas e dos interesses regionais conflitantes. Mas,
como seus defensores já conseguiram duas vitórias sucessivas
(emplacar a teoria da guerra preventiva contra o Iraque e, na prática,
levá-la a termo), é aconselhável examinar o que estão
planejando. A idéia é que o governo provisório, entregue
a Jay Garner, general da reserva encarregado da administração
civil no pós-Saddam, seja curto e grosso. Garner não viraria
um Douglas MacArthur do Iraque não demoraria os seis anos
que o legendário general passou no Japão comandando tudo,
desde o julgamento dos criminosos de guerra até a elaboração
de uma Constituição. O futuro administrador do Iraque e
sua equipe integrariam ao processo, o mais depressa possível, líderes
da oposição no exílio perfeitamente afinados com
o projeto dos neoconservadores americanos. A eles competiria espalhar
a boa nova democrática e pró-americana entre os nativos,
conduzindo-os rumo ao modelo estabelecido.
O homem
em quem os defensores da chamada "paz do Pentágono" mais confiam
para essa tarefa é Ahmad Chalabi, milionário xiita e gênio
matemático exilado desde os 13 anos que está na corrida
para virar o futuro "rei do Iraque". Num lance de ousadia típico
dos falcões vitoriosos, Chalabi e mais 700 exilados foram desembarcados
pelos americanos na cidade de Nassiriah três dias antes da queda
de Bagdá. De lá, ele começou a agir como líder
nacional, cobrando em entrevista irada à rede CNN de televisão
a presença imediata do general Garner, que esperava no Kuwait a
ordem de assumir o governo interino, para começar logo a atender
às necessidades mais urgentes do povo. O envio de Chalabi e seu
pessoal ao Iraque ainda conflagrado foi uma jogada destinada a criar um
fato consumado e contrabalançar o campo dos moderados no
caso, o Departamento de Estado, que tem se engalfinhado nos bastidores
com os falcões a respeito de praticamente tudo, sem grande sucesso
até agora. Para os profissionais da diplomacia, apoiados pelo secretário
Colin Powell, opositores no exílio há muito afastados do
país têm pouca representatividade entre os iraquianos e podem
acabar tumultuando o complicadíssimo processo de reconstrução,
que já não tem a participação da ONU nem a
colaboração de países importantes. "Democratização
leva tempo, é um processo de longo prazo", argumenta um ex-diplomata
americano no Iraque, Joseph Wilson IV. "À medida que o júbilo
diminuir, é possível que soldados americanos comecem a levar
tiros pelas costas." Detalhe: o comentário foi feito antes da guerra
e dos primeiros carros-bombas.
Nesse embate
entre os "realistas" de Powell e os "revolucionários de direita"
reunidos sob a égide de Rumsfeld, aqueles têm um aliado em
Tony Blair, o primeiro-ministro inglês. No encontro que teve com
George W. Bush na Irlanda do Norte na semana passada, agindo mais uma
vez como uma espécie de poder moderador, ou superego, sobre o presidente
americano, Blair extraiu a promessa de que o futuro governo interino do
Iraque não será dominado pelos exilados só
não conseguiu nenhum tipo de abertura para uma participação
efetiva da ONU, que ele também considera essencial para legitimar
o processo, porque aí também seria pedir demais. Outro revés
sofrido pela linha dura, por exemplificar o abismo entre exilados e locais,
foi o pavoroso assassinato de um religioso xiita aliado aos Estados Unidos
na mesquita de Najaf, a mesma onde na semana anterior um mal-entendido
havia lançado uma multidão desarmada e furiosa contra um
pelotão de soldados americanos. O morto, Abdul Majid al-Khoei,
também havia acabado de retornar ao Iraque depois de um longo exílio
na Inglaterra e circulava em Najaf sob a proteção de membros
das forças especiais americanas. Ele foi à mesquita acompanhado
de outro chefe religioso, detestado por uma facção rival.
Houve discussão e Khoei sacou um revólver para se defender.
Ambos terminaram trucidados a facadas dentro da mesquita.
O episódio
naturalmente será usado como símbolo dos perigos de uma
transição estabanada, que despreze a miríade de interesses,
sensibilidades e rivalidades em jogo no Iraque. Na versão pessimista,
esse choque de interesses poderia desembocar em confrontos ou até
numa guerra civil, com as Forças Armadas americanas engolfadas
numa ocupação sem fim à vista, cercadas por uma população
cada vez menos grata pela libertação e mais hostil pela
confusão, milícias descontroladas e o cortejo aterrador
de atentados suicidas. Outra hipótese, na mesma linha do que pode
dar muito errado, seria um processo de democratização que
abrisse caminho a, ironia das ironias, um regime islâmico endossado
pela maioria xiita, ao estilo do vizinho Irã, pioneiro da restauração
teocrática. Para contrariar os prognósticos negativos, o
campo oposto pinta um futuro quase utópico, com um Iraque democrático,
laico, com garantias aos direitos das minorias e a gradual superação
das identidades étnicas até chegar ao ponto de, segundo
um documento que circulou entre os exilados no ano passado, não
mais se definir como um país árabe. Qual dessas projeções
vai se realizar? Possivelmente nem um extremo nem outro. É difícil
imaginar que os Estados Unidos transformem o Iraque num Japão
democrático, ordeiro, produtivo. Mas não podem permitir
que se repita uma cobrança como a feita pelo jornal The Times:
"Quantas vidas valiosas ainda serão sacrificadas no vão
esforço de impor à população árabe
uma administração complexa e custosa que eles nunca pediram
e que não querem ter?". O texto é de 7 de agosto de 1920,
as vidas eram dos soldados britânicos que enfrentavam uma rebelião
tribal e a administração que se tentava implantar foi a
experiência original de construção nacional do Iraque
por uma potência ocidental, a Inglaterra. Na época, isso
se chamava colonialismo.
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