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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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Beijos e bombas

Vilma Gryzinski


AP
AFP
PAZ DO PENTÁGONO
O gesto de agradecimento do menino iraquiano e, à direita, Ahmad Chalabi, o predileto dos neoconservadores: depois da guerra, falcões comandam a paz

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O regime decapitado
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Especial Guerra no Iraque

Tendo conquistado Bagdá com a "guerra dos 21 dias", uma campanha ousada, criticada e por fim excepcionalmente bem-sucedida, os Estados Unidos agora têm planos igualmente ambiciosos para ganhar a paz. As tarefas fundamentais são de uma vastidão de tirar o fôlego. No plano mais imediato, é preciso restabelecer a ordem, restaurar serviços básicos, alimentar uma população que depende em quase 60% da distribuição de comida feita pela autoridade central agora inexistente. Isso tudo ainda sob o impacto fenomenal da presença de quase 200 000 militares americanos, que continuarão a realizar operações bélicas contra as forças remanescentes do regime, agindo num clima de tensão, entre bombas e beijos, sem nunca ter certeza se o júbilo pela queda do tirano substituiu de vez o ódio dos suicidas.

Às medidas de curto prazo mais prementes somam-se as mudanças institucionais: reformar a máquina do Estado, expurgar ou reabilitar os funcionários ligados ao antigo regime, criar um Poder Judiciário digno do nome, lançar as bases de um sistema político representativo que tenha legitimidade aos olhos dos iraquianos e do mundo. Isso é o que se chama em inglês de nation building, a construção nacional tal como acontece em países que começam do zero (um exemplo recente é o Timor Leste), que saem de guerras ou conflitos civis arrasadores (Bósnia, Kosovo) ou passam por viradas políticas de dimensões históricas (os integrantes do antigo bloco soviético). Para estabelecer um paralelo com o Iraque, porém, é preciso ir mais longe no tempo: só o Japão ocupado pelos americanos ao fim da II Guerra Mundial apresentaria condições similares, apesar das imensas diferenças entre os dois países e das circunstâncias históricas. "Reconstituir o Iraque de forma a que se torne um país responsável, respeitoso do estado de direito, será a tarefa financeiramente mais custosa e politicamente mais formidável que os Estados Unidos já assumiram no plano internacional em muitas décadas", definiu um estudioso de processos de democratização, Larry Diamond, do Hoover Institution.


AP
ÔNUS DA OCUPAÇÃO
Iraquianos suspeitos são despidos, algemados e interrogados: "À medida que o júbilo diminuir, é possível que soldados americanos comecem a levar tiros pelas costas"

Para culminar, e aí se vê a assinatura do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, que pretende dirigir a paz da mesma maneira que comandou a guerra, o núcleo duro do governo americano ambiciona fazer do Iraque pós-Saddam não apenas um país mais decente, com um sistema de governo que leve em conta a diversidade étnica e religiosa e as tradições tribais, como uma espécie de Afeganistão melhorado. O projeto dos chamados neoconservadores, formuladores dos fundamentos ideológicos da nova direita americana, é transmudar o país pela raiz, transformando-o em uma democracia-modelo, um inédito paradigma de liberdade e liberalismo que implante um aliado orgânico dos Estados Unidos no coração do Oriente Médio e sirva de exemplo para os vizinhos.

É enorme a quantidade de especialistas que consideram esse plano uma rematada insensatez em face das realidades políticas do Iraque, um país sob risco eterno de implosão ou desordem em razão das clivagens étnico-religiosas e dos interesses regionais conflitantes. Mas, como seus defensores já conseguiram duas vitórias sucessivas (emplacar a teoria da guerra preventiva contra o Iraque e, na prática, levá-la a termo), é aconselhável examinar o que estão planejando. A idéia é que o governo provisório, entregue a Jay Garner, general da reserva encarregado da administração civil no pós-Saddam, seja curto e grosso. Garner não viraria um Douglas MacArthur do Iraque – não demoraria os seis anos que o legendário general passou no Japão comandando tudo, desde o julgamento dos criminosos de guerra até a elaboração de uma Constituição. O futuro administrador do Iraque e sua equipe integrariam ao processo, o mais depressa possível, líderes da oposição no exílio perfeitamente afinados com o projeto dos neoconservadores americanos. A eles competiria espalhar a boa nova democrática e pró-americana entre os nativos, conduzindo-os rumo ao modelo estabelecido.

O homem em quem os defensores da chamada "paz do Pentágono" mais confiam para essa tarefa é Ahmad Chalabi, milionário xiita e gênio matemático exilado desde os 13 anos que está na corrida para virar o futuro "rei do Iraque". Num lance de ousadia típico dos falcões vitoriosos, Chalabi e mais 700 exilados foram desembarcados pelos americanos na cidade de Nassiriah três dias antes da queda de Bagdá. De lá, ele começou a agir como líder nacional, cobrando em entrevista irada à rede CNN de televisão a presença imediata do general Garner, que esperava no Kuwait a ordem de assumir o governo interino, para começar logo a atender às necessidades mais urgentes do povo. O envio de Chalabi e seu pessoal ao Iraque ainda conflagrado foi uma jogada destinada a criar um fato consumado e contrabalançar o campo dos moderados – no caso, o Departamento de Estado, que tem se engalfinhado nos bastidores com os falcões a respeito de praticamente tudo, sem grande sucesso até agora. Para os profissionais da diplomacia, apoiados pelo secretário Colin Powell, opositores no exílio há muito afastados do país têm pouca representatividade entre os iraquianos e podem acabar tumultuando o complicadíssimo processo de reconstrução, que já não tem a participação da ONU nem a colaboração de países importantes. "Democratização leva tempo, é um processo de longo prazo", argumenta um ex-diplomata americano no Iraque, Joseph Wilson IV. "À medida que o júbilo diminuir, é possível que soldados americanos comecem a levar tiros pelas costas." Detalhe: o comentário foi feito antes da guerra – e dos primeiros carros-bombas.

Nesse embate entre os "realistas" de Powell e os "revolucionários de direita" reunidos sob a égide de Rumsfeld, aqueles têm um aliado em Tony Blair, o primeiro-ministro inglês. No encontro que teve com George W. Bush na Irlanda do Norte na semana passada, agindo mais uma vez como uma espécie de poder moderador, ou superego, sobre o presidente americano, Blair extraiu a promessa de que o futuro governo interino do Iraque não será dominado pelos exilados – só não conseguiu nenhum tipo de abertura para uma participação efetiva da ONU, que ele também considera essencial para legitimar o processo, porque aí também seria pedir demais. Outro revés sofrido pela linha dura, por exemplificar o abismo entre exilados e locais, foi o pavoroso assassinato de um religioso xiita aliado aos Estados Unidos na mesquita de Najaf, a mesma onde na semana anterior um mal-entendido havia lançado uma multidão desarmada e furiosa contra um pelotão de soldados americanos. O morto, Abdul Majid al-Khoei, também havia acabado de retornar ao Iraque depois de um longo exílio na Inglaterra e circulava em Najaf sob a proteção de membros das forças especiais americanas. Ele foi à mesquita acompanhado de outro chefe religioso, detestado por uma facção rival. Houve discussão e Khoei sacou um revólver para se defender. Ambos terminaram trucidados a facadas dentro da mesquita.

O episódio naturalmente será usado como símbolo dos perigos de uma transição estabanada, que despreze a miríade de interesses, sensibilidades e rivalidades em jogo no Iraque. Na versão pessimista, esse choque de interesses poderia desembocar em confrontos ou até numa guerra civil, com as Forças Armadas americanas engolfadas numa ocupação sem fim à vista, cercadas por uma população cada vez menos grata pela libertação e mais hostil pela confusão, milícias descontroladas e o cortejo aterrador de atentados suicidas. Outra hipótese, na mesma linha do que pode dar muito errado, seria um processo de democratização que abrisse caminho a, ironia das ironias, um regime islâmico endossado pela maioria xiita, ao estilo do vizinho Irã, pioneiro da restauração teocrática. Para contrariar os prognósticos negativos, o campo oposto pinta um futuro quase utópico, com um Iraque democrático, laico, com garantias aos direitos das minorias e a gradual superação das identidades étnicas até chegar ao ponto de, segundo um documento que circulou entre os exilados no ano passado, não mais se definir como um país árabe. Qual dessas projeções vai se realizar? Possivelmente nem um extremo nem outro. É difícil imaginar que os Estados Unidos transformem o Iraque num Japão – democrático, ordeiro, produtivo. Mas não podem permitir que se repita uma cobrança como a feita pelo jornal The Times: "Quantas vidas valiosas ainda serão sacrificadas no vão esforço de impor à população árabe uma administração complexa e custosa que eles nunca pediram e que não querem ter?". O texto é de 7 de agosto de 1920, as vidas eram dos soldados britânicos que enfrentavam uma rebelião tribal e a administração que se tentava implantar foi a experiência original de construção nacional do Iraque por uma potência ocidental, a Inglaterra. Na época, isso se chamava colonialismo.

 
 
   
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