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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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O regime
decapitado

Jaime Klintowitz

AFP

SÍMBOLO CAÍDO
Estátua destruída de Saddam Hussein numa avenida de Bagdá

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Nesta edição
Beijos e bombas
Onde há democracia não há guerra
Os moderados são a chave da paz
O pior crime ecológico do século
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Especial Guerra no Iraque


As democracias têm peculiaridades e gradações. Os regimes totalitários são iguais. Incluem culto à personalidade, perseguição aos opositores, supressão da liberdade de expressão, inexistência de imprensa livre e, muitas vezes, falta de liberdade religiosa. As ditaduras também torturam e matam. E, no fim, terminam quase sempre da mesma forma. O tirano foge, e seu povo enrola cordas em torno das estátuas do líder caído e promove a derrubada simbólica de sua imagem – espalhada sempre por todo o país, como se ele fosse o amantíssimo pai da pátria. Foi o que se viu em Bagdá na quarta-feira da semana passada, em transmissão direta pela televisão para todo o planeta. Um gigantesco Saddam Hussein feito de
bronze, com 6 metros de altura, caiu ao chão numa praça central da capital iraquiana. Um iraquiano pegou um cartaz gigante com uma foto do ditador e deu chineladas na cara de Saddam. Cuspiram sobre seus símbolos, dançaram sobre seus restos. Pela primeira vez na história, viu-se uma população árabe festejar a derrubada de um tirano árabe por tropas ocidentais. O governo do presidente George W. Bush fez o que prometeu fazer para depor o ditador, e com a rapidez que disse que faria.

Americanos e ingleses precisaram de apenas 21 dias para pôr fim aos 24 anos de tirania de Saddam. A disparidade do confronto entre a assombrosa tecnologia bélica da superpotência e um país do Terceiro Mundo é atestada pela quantidade mínima de baixas entre as forças invasoras. O número de soldados ingleses e americanos mortos em combate nessas três semanas foi inferior ao de homicídios registrados no mesmo período na cidade de São Paulo. Como a Casa Branca previa, a vitória fulminante valeu mais que qualquer resolução das Nações Unidas para dar legitimidade à guerra. A imagem dos iraquianos pisoteando a estátua derrubada de Saddam teve valor maior do que mil palavras a respeito do governo que ele chefiava.

Isso tudo eclipsa mas não dilui o aspecto agressivo e arrogante com que americanos e ingleses resolveram invadir uma nação, o Iraque, sob o pretexto de anular atos futuros de terrorismo que Saddam Hussein viria a patrocinar mais cedo ou mais tarde, conforme a suspeita dos EUA. Será melhor para a imagem externa dos americanos que seus militares venham a encontrar as armas químicas e biológicas que serviram inicialmente de pretexto para a derrubada do regime de Saddam Hussein. Isso pode parecer dramaticamente relevante para a opinião pública internacional. Não o é, ao que tudo indica, para os neoconservadores que se aninham em torno do presidente americano George W. Bush. Com a invasão do Afeganistão e do Iraque, seguida da deposição de ambos os governos em tempo recorde, os americanos deram um sinal claro do que os impulsiona hoje em dia. Querem fazer saber aos países inimigos que correm riscos enormes se vierem a praticar atos hostis contra os EUA. A derrubada de duas torres em Nova York e de uma ala do Pentágono em Washington, além das suspeitas a respeito do risco representado por Saddam, bastou-lhes como justificativa para promover duas guerras e duas deposições de ditadores.

Há riscos na estratégia. Um deles é a persistência de focos armados leais a Saddam e prontos a atacar de surpresa no formato de guerrilha urbana. Outro risco está no surgimento de centenas de Bin Laden em cada país islâmico. Até sexta-feira passada, no entanto, o que se via eram iraquianos sorridentes junto aos ocupantes americanos. Grupos de habitantes de Bagdá adaptaram o chavão preferido de Saddam às novas circunstâncias. "Com nosso sangue, com nossa alma, nós vamos defender você, Bush! Bush! Bush!"

 
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TERRA DE NINGUÉM
Os saques explodiram com a queda do regime: saqueadores levam tapetes do hotel Sheraton, que teve o saguão destruído, em Basra. À esquerda, o roubo na casa de Tariq Aziz, ministro de Saddam em Bagdá

O regime de Saddam desmoronou quase sem lutar em sua capital. A queda rápida de Bagdá não deixa dúvidas quanto à impopularidade do homem que durante mais de duas décadas impôs com mão de ferro sua vontade sobre o Iraque. Também pôs em evidência a dura tarefa de reconstrução de um país dilacerado por um governo corrupto, sanguinário, megalomaníaco e por mais de uma década de sanções internacionais. E o Iraque piorou muito durante a guerra. Na semana passada, as grandes cidades viviam em absoluta anarquia. Os soldados invasores deixaram a população à solta e ela, em delírio ou desespero, promoveu um saque a tudo o que pudesse ser carregado em caminhões, tratores, carrinhos de mão ou na cabeça.

Os saques ocorreram em todas as cidades tão logo o poder do Estado sumiu das ruas. Na capital, a roubalheira começou pelos prédios estatais e pelas residências abandonadas pelos manda-chuvas em fuga – até os cavalos árabes foram levados do palácio de Udai, o primogênito do ditador. Logo a multidão assaltou lojas, bancos, universidades e até os hospitais. A maioria dos saqueadores era de moradores vindos de Cidade Saddam, a enorme favela em que vivem 2 milhões de muçulmanos da vertente xiita. O governo de Saddam, representante da minoria sunita, tratava essa gente como cidadãos de segunda classe. É natural que o colapso do regime seja seguido por um período de caos. O Iraque era um país engessado por uma das ditaduras mais perversas da atualidade. Nos regimes de força, quando se retira a tampa da repressão, a sociedade muitas vezes é tomada pelo clima de bagunça até o estabelecimento de uma nova ordem.

No caso iraquiano, o fim da ditadura foi imposto por uma invasão militar estrangeira. Não é um fim inusitado para um regime totalitário. Sobretudo para aqueles, como o iraquiano, que incluíram entre seus desatinos duas tentativas de conquistar territórios vizinhos em guerras malsucedidas. Nesse aspecto Saddam foi um ditador típico. Quando vira a esquina da insensatez e se dispõe a fazer a maldade que for necessária para manter o comando da situação, esse tipo de governante só sai morto do poder. O soviético Josef Stalin e o chinês Mao Tsé-tung, responsável cada um deles pela morte de milhões de concidadãos, morreram na cama. Adolf Hitler só se matou quando as tropas soviéticas estavam às portas de seu bunker, depois de ter destruído Berlim e matado milhares de seus habitantes. O romeno Nicolae Ceausescu foi executado pela multidão enfurecida que saiu em sua perseguição, em 1989. Pol Pot, que numa alucinada experiência de reengenharia social trucidou um quarto da população do Camboja, foi deposto por tropas vietnamitas, que invadiram o país sob o aplauso dos cambojanos. Morreu numa choupana na selva, anos depois. Até a madrugada de sábado, ignorava-se o paradeiro de Saddam Hussein. Seu destino, porém, é uma questão resolvida. Ele não vai retornar ao poder.

Há, no horizonte, a possibilidade de um Iraque democrático prometido pelos Estados Unidos. Isso pode ser uma boa notícia num Oriente Médio congestionado por regimes teocráticos e ditaduras brutais. A promessa não é suficiente, no entanto, para mascarar a dor deixada pelos ataques a vítimas inocentes como o menino Ali Ismail Abbas, de 12 anos, que perdeu os dois braços e toda a família sob bombas americanas. Para ele e para muitos outros, gente mutilada pelos bombardeios, que teve parentes ou casas destruídas, o preço pessoal pago pela vitória americana e pela queda de Saddam não faz nenhum sentido. A dolorosa foto do menino mutilado numa cama transmite uma mensagem dramática do horror da guerra. Tem, para a guerra do Iraque, o simbolismo que uma foto anterior, de 1972, teve para a Guerra do Vietnã: mostrava uma menina de 9 anos, chamada Phan Thi Kim Phuc, correndo nua numa estrada, com o corpo queimado por bombas incendiárias lançadas por aviões americanos sobre sua aldeia.

 
Reuters/Faleh Kheiber

VÍTIMA DA GUERRA
Ali Ismail Abbas, de 12 anos, perdeu os pais e o irmão e teve os braços amputados pelo míssil americano que destruiu sua casa, em Bagdá; o drama do garoto pode se tornar o símbolo desta guerra, como aconteceu com a foto da vietnamita Phan Thi Kim Phuc, em 1972 (abaixo). A menina de 9 anos, queimada por bombas incendiárias, simbolizou os horrores da Guerra do Vietnã

AP

Como toda guerra, a invasão do Iraque foi cruel. Ainda assim, devido ao cuidado americano em evitar atingir os não-combatentes iraquianos e à própria brevidade do conflito, o número de baixas civis – estimado em 2.000 – é relativamente baixo para um conflito dessas proporções. Acredita-se que 100.000 iraquianos (200.000 em outras estimativas) tenham sido assassinados pelo regime de Saddam Hussein. E outros 500.000 foram mortos nas guerras iniciadas pelo ditador, contra o Irã e o Kuwait. Talvez nunca se venha a saber com certeza quantos soldados iraquianos tombaram desta vez. Divisões inteiras foram dizimadas pelos bombardeiros americanos, e os corpos de muitos soldados foram de tal forma pulverizados que tornam impossível a contagem. Também não se sabe quantos deles simplesmente abandonaram armas e uniformes e desertaram para não morrer.

Nos Estados Unidos, a repercussão da guerra é surpreendentemente favorável: 71% da população apóia Bush, 13% a mais que no início da guerra, de acordo com o Instituto Gallup. Nos demais países, a imagem dos americanos só piora. Nove em cada dez franceses são contra a invasão do Iraque e desconfiam que os Estados Unidos só se interessam pelo petróleo iraquiano. Na Itália, na Alemanha e no Japão, a oposição à guerra passa dos 80%. É natural que o uso da força para projetar o poder americano no mundo – a estratégia ideológica defendida pelos neoconservadores que cercam e influenciam o presidente George W. Bush – não seja a melhor maneira de conquistar amigos no exterior.

O governo Bush realizou o que chama de "ataque preventivo" contra Saddam Hussein. A intenção era golpear o ditador antes que ele viesse eventualmente a usar seu arsenal de armas químicas e biológicas que os governantes americanos dizem que tinha em seu poder. Washington nunca exibiu uma prova convincente de ligação direta entre o regime iraquiano e o terrorismo em nome de Alá. Os inspetores da ONU, mandados ao Iraque para procurar vestígios de armas químicas e biológicas, nada acharam. Isso não significa que as armas não existam, mesmo porque Saddam já as havia usado antes.

E agora? O que farão os Estados Unidos a partir de agora? Em que direção apontarão os canhões dos tanques Abrams na próxima vez em que cismarem que um governante esconde um plano terrorista contra os cidadãos americanos? Há indícios de que Washington não exclui a possibilidade de recorrer à força de novo, desta vez contra a Síria. Advertências explícitas foram feitas ao governo de Damasco, que já aparecia na lista americana dos países patrocinadores de terrorismo e, agora, está praticamente sendo tratado como um novo membro do "eixo do mal" (os integrantes originais são o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte). Talvez não seja o caso de uma guerra imediata. Em artigo publicado no The New York Times, o jornalista David Sanger diz que a Casa Branca conta com o chamado "efeito demonstração" da vitória acachapante sobre os outros governos árabes. A idéia é que, pelo menos nos próximos tempos, enquanto os Estados Unidos estiverem ocupados na reconstrução do Iraque, as pressões políticas sejam suficientes para obrigar os caciques do Oriente Médio a pesar com cuidado cada um de seus passos. É de imaginar que nenhum deles esteja dormindo muito bem nos últimos dias.

 
AP

PAÍS AOS PEDAÇOS
Jovens choram a perda de três parentes, mortos numa barreira americana

Regimes democráticos espalharam-se com rapidez desde a queda do Muro de Berlim, há catorze anos. Isso aconteceu na América Latina, na Ásia e até na África – mas não no mundo árabe. Por que é assim? Uma parte da explicação, diz o iraquiano Elie Kedourie, autor do livro Democracia e Cultura Política Árabe, decorre do fato de a tradição política muçulmana não ter chegado ao estágio de separar o Estado da mesquita. O Islã coloca a soberania política em Alá. Em outras palavras, o Estado deve ser totalitário por ser uma emanação da vontade divina. A lógica prevalece mesmo quando o governante é laico. Outra explicação está no subdesenvolvimento econômico. A burguesia e a classe média são dependentes do Estado e, portanto, não têm interesse em lutar pela democracia. "Só uma classe média esclarecida pode tirar os ditadores do poder", resume o libanês Ahmad Dallal, professor de história do Oriente Médio da Universidade Stanford, na Califórnia. Todos os processos democráticos testados nesses países – como a extensão do voto às mulheres no Catar – foram decisões pessoais de líderes autocráticos.

Por fim, há o peso do conflito com Israel. A solução dos problemas externos é o pretexto para adiar o processo democrático doméstico. No Cairo, há liberdade total para fazer passeatas contra os israelenses, mas nenhuma para pregar o fim do governo local. O que mais preocupa os caciques em Damasco, Teerã e Riad é a possibilidade de a libertação dos iraquianos, ainda que involuntária, fomentar idéias similares em seus países. O maior risco para essas ditaduras é que dê certo a reconstrução prometida pelos Estados Unidos. Rico e democrático, o Iraque se tornaria um modelo para virar do avesso a tirania no Oriente Médio.

 
 
   
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