
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
Enfim,
como
diria Gil...
"Lula
atribuiu-se o mérito de ter
salvado a economia. Como os índices
só haviam piorado porque acreditaram
em suas bravatas, não há do que se
gabar. Ele só consertou um pouco
do estrago que havia feito"
Gilberto Gil almoçou na Associação Comercial do Rio
de Janeiro. Depois do almoço, discurso. Depois do discurso, entrevista
coletiva. Depois da entrevista coletiva, deslocamento para a Biblioteca
Nacional. Outro discurso. Não sei para onde Gil foi depois disso.
Desisti de segui-lo. Cansei. Durante o almoço, Gil revelou gostar
da vida de ministro. Há algo de errado em quem gosta da vida de
ministro.
Entre uma coisa e outra, acompanhei Gil por cerca de cinco horas. Não
consegui colher uma única declaração aproveitável.
No discurso da Biblioteca Nacional, por exemplo, a propósito de
um dicionário de música popular brasileira, ele citou Octavio
Paz, que teria escrito sobre a "suspensão no ar, na atmosfera,
no éter, de signos, símbolos, microrganismos, partículas,
células, em extraordinária rotação sobre nossas
cabeças, que são os verbetes, em seu próprio suporte,
as palavras, com todos os seus interstícios, em suas materializações
nos livros...". Preciso reler Octavio Paz urgentemente. Nesse ponto do
discurso, perdi a concentração. Deixei de transcrevê-lo.
Para passar o tempo, comecei a contar quantas vezes Gil empregava a interjeição
"enfim". Foram dezessete.
Bem melhor do que ouvir um discurso de Gil é ouvir um de Lula.
Nunca houve, em nossa história, um presidente que falasse tão
claro quanto ele. Poucos dias atrás, em Barcarena, no Pará,
Lula disse que o Brasil foi castigado por políticos que pensam
apenas em seu mandato. No mesmo discurso, ele demonstrou que, como o resto
dos políticos, pensa apenas em seu mandato, reivindicando mais
quatro anos no poder. Ou seja, 100 dias depois da posse, já estamos
novamente em campanha eleitoral. E podemos contar com um presidente que,
segundo sua própria definição, se considera um castigo
para o país.
Na semana anterior, Lula havia declarado algo ainda mais espantoso. Ele
reconheceu que, quando estava na oposição, disparava bravatas
o tempo todo. Indiretamente, ele chamou seus eleitores de otários.
Porque quem acredita em bravatas só pode ser otário. Lula
está certo, claro. Porém é surpreendente que ele
tenha a coragem de debochar de seus eleitores em público, de forma
tão ostensiva. Nem o mais brucutu dos coronéis nordestinos
trataria seu curral eleitoral com tanto desdém. Estou começando
a desconfiar dessa história de que Lula saiu de Pernambuco num
pau-de-arara. Ele deve ter algum parente latifundiário em Garanhuns.
Na segunda-feira, em cadeia nacional, Lula traçou um balanço
de seus primeiros meses de governo. Atribuiu-se o mérito de ter
salvado a economia, melhorando câmbio, balança comercial
e risco país. Como esses índices só tinham piorado
porque os investidores acreditaram em suas bravatas, não há
do que se gabar, visto que ele se limitou a consertar um pouco do estrago
feito anteriormente. Com muito laquê e piscando o olho esquerdo
sem parar, Lula levou cinco horas para extrair nove minutos de programa.
Pois eu passei cinco horas com Gil e extraí ainda menos. Ponto
para Lula.
|
|
 |