
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|

Acesso rápido |
|
|
|
O
horror
das guerras
O escritor que descreveu bombardeios
na visão dos bombardeados diz que só
agora os alemães podem criticar quem
os derrotou
Diogo Schelp
O historiador Jörg Friedrich tinha 1 ano quando a II Guerra terminou,
em 1945. Seus pais haviam fugido um ano antes da cidade de Essen, na Alemanha,
que estava sendo destruída por bombas aliadas. Aos 58 anos, Friedrich
lançou há alguns meses na Alemanha um livro que trata dos
bombardeios sobre as cidades alemãs e que se transformou em um
best-seller, há quase vinte semanas na lista dos mais vendidos.
O Incêndio A Alemanha sob Bombardeio, ainda sem previsão
de publicação no Brasil, descreve como as forças
americanas e inglesas mataram mais de meio milhão de civis em cinco
anos, de maneira proposital e com métodos cruéis. Jornais
britânicos acusaram Friedrich de tentar atribuir crimes de guerra
aos ingleses, radicais da direita alemã usaram o livro como prova
da tese absurda de que o verdadeiro holocausto ocorreu em seu país
e os de esquerda disseram que ele relativiza as atrocidades nazistas.
Reações injustas diante de quem escreveu também um
livro sobre os crimes do Exército alemão na Rússia
e outro sobre os processos contra ex-comandantes nazistas, além
de ter participado da elaboração da Enciclopédia
do Holocausto. Entrevistado em Berlim, Friedrich fala do conflito
no Iraque e das lições deixadas pela II Guerra.
Veja A Alemanha é citada como exemplo de país
em que, depois da derrota em uma guerra, se instalou uma democracia bem-sucedida
com a supervisão dos vencedores. O mesmo seria possível
no Iraque e no Afeganistão?
Friedrich
Ingleses e americanos, os vencedores da II Guerra, não acreditavam
que seria possível instalar uma democracia na Alemanha. Havia a
convicção de que o povo alemão tinha apreço
pelo militarismo e pelo autoritarismo, reflexo de uma história
marcada por monarquias, ditadura e uma curta experiência de democracia
logo após a I Guerra. Achava-se que passariam gerações
até que os alemães estivessem maduros para isso. Mas a democracia
foi instalada nos anos 50, por um processo nada espontâneo, de fora
para dentro, e funcionou. Por isso, mesmo que se diga que os países
islâmicos não têm tradição em democracia
e que vivem sob uma religião contrária a qualquer idéia
de globalização, não se deve subestimá-los.
Havia preconceito semelhante em relação aos alemães.
Veja
Os americanos acusam franceses e alemães de ingratidão
por terem se oposto à guerra no Iraque. Afinal, devem também
aos Estados Unidos o fim do nazismo e a reconstrução de
seus países. Os alemães não aprenderam com a própria
história?
Friedrich
A questão é mais complexa. A II Guerra iniciou uma fase
em que as principais guerras foram feitas sob o argumento da libertação.
Não se falou mais em lutar por maior poder ou território.
Na II Guerra, os aliados se apresentaram não como vencedores, mas
como os que lutaram para livrar o mundo e a Alemanha dos nazistas. Mas,
para os alemães, a situação depois da guerra tinha
um paradoxo estúpido: dividido em dois, o país via ao leste
o ditador Stalin dominando exatamente o território que o ditador
Hitler queria e, a oeste, os antigos nazistas passando para o lado dos
americanos e ingleses, os libertadores. Cada vencedor tomou uma parte
dos libertados em seus braços e declarou guerra ao outro, novamente
com o argumento da libertação. A Guerra Fria foi isso. Como
conseqüência, os alemães criaram um cinismo em relação
a esse modelo de libertação. Quando surgiu a questão
do Iraque, era claro para muitos alemães que mais uma vez o que
estava em jogo não era a libertação, mas poder e
também o petróleo.
Veja
Isso não resolve o problema da ameaça representada
por Saddam Hussein. Desse ponto de vista, os ataques aéreos contra
o Iraque são legítimos?
Friedrich
Claro.
Independentemente da motivação real da guerra, Saddam Hussein
era uma ameaça que se devia afastar. E, quando se trata de evitar
um dano maior, admitem-se baixas na população civil. Efeitos
colaterais da guerra aérea são legítimos, desde que
se tenha um alvo preciso. A grande diferença entre os ataques aéreos
contra a Alemanha e o Japão entre 1940 e 1945 e os bombardeios
de hoje no Iraque é que se queria então atingir alvos civis.
Ingleses e americanos acreditavam que promovendo um massacre da população
civil os alemães se revoltariam e derrubariam o regime nazista.
Veja
Como esse processo se iniciou?
Friedrich
Inicialmente, os aliados queriam destruir a máquina de guerra de
Hitler. Fábricas de armamentos e materiais de transporte, por exemplo.
Só que, para realizar um ataque desses, era preciso acertar os
alvos com precisão. Os métodos de navegação
naquela época não eram confiáveis. Havia necessidade
de fazer ataques de dia. As aeronaves aliadas se expunham aos caças
inimigos. O nível de baixas entre os pilotos era de 50%. Além
disso, a indústria de armamentos se recompunha rapidamente. Para
proteger os pilotos, passou-se a fazer bombardeios noturnos. Só
se podiam bombardear grandes áreas. Como também se queria
promover o terror na população civil, passou-se a usar bombas
incendiárias, que tinham um poder de destruição muito
maior.
Veja
Qual foi o resultado dessa guerra aérea?
Friedrich
As
bombas incendiárias foram um método de destruição
em massa. Em cinco anos de guerra aérea, os aliados mataram mais
de meio milhão de pessoas e destruíram entre 70% e 80% das
cidades. Foram atingidos 30 milhões de pessoas. No ataque aéreo
à cidade de Pforzheim, em fevereiro de 1945, morreu um em cada
três habitantes. Na cidade japonesa de Nagasaki, atingida por uma
bomba atômica, a taxa foi de um em cada sete moradores. O auge dos
bombardeios foi entre janeiro e maio de 1945, quando a guerra já
estava praticamente ganha e as tropas aliadas entravam na Alemanha. Assim
mesmo, morriam diariamente 1 000 pessoas carbonizadas ou sufocadas pelos
incêndios causados pelas bombas aliadas. Nos folhetos que se atiravam
dos aviões estava escrito: "Libertem-se de Hitler!". Ou seja, nós
vamos continuar matando vocês até que matem Hitler. O efeito,
claro, foi inverso. Uma população ferida, sem casa, sem
roupas, sem patrimônio, tende a buscar suporte no Estado.
Veja
A crueldade desse tipo de ataque pode ser comparada às
crueldades cometidas pelos nazistas?
Friedrich
Um massacre realizado verticalmente, pelo ar, não é mais
legítimo do que um massacre horizontal, feito por metralhadoras.
A guerra aérea praticada pelos aliados foi estudada por muitos
historiadores americanos e ingleses. Mas eles terminam o relato no momento
em que a bomba é lançada do avião. Eu conto o que
aconteceu daí em diante. Em meu livro, dedico-me a descrever o
maior campo de batalha da II Guerra a Alemanha. Conto como era
a morte nas cidades bombardeadas, as pessoas escondidas no porão
enquanto a casa queimava. O oxigênio do porão sendo consumido
pelo fogo e matando sufocados todos os que ali permanecessem. Conto como
as pessoas fugiam dos porões para o asfalto escaldante e morriam
carbonizadas pelas labaredas que vinham das casas. Conto como em um só
ataque a uma cidade morriam milhares de civis como resultado de uma matança
intencional.
Veja
Ao falar das crueldades cometidas pelos aliados, o senhor não
está amenizando o massacre que os nazistas cometeram contra os
judeus, por exemplo?
Friedrich
Não. Eu não contesto que o holocausto foi um fato sem paralelo
na história mundial. Escrevi milhares de páginas sobre os
crimes cometidos pelos nazistas. Mas, ao fazer isso, não podia
deixar de olhar também para o que se fez contra os civis alemães.
Nunca houve uma população que durante cinco anos seguidos
foi esmagada com 1,5 milhão de toneladas de bombas, com efeitos
tão dramáticos, não apenas para a vida das pessoas,
mas também para a sua história. Foi a maior queima de livros
e documentos de todos os tempos. Não foi apenas uma guerra contra
pessoas, mas contra a humanidade.
Veja
Mas os ataques aéreos contra surgiram como resposta aos
ataques alemães...
Friedrich
Claro, Hitler começou o bombardeamento de cidades ao matar milhares
de pessoas nos ataques aéreos contra Londres, em 1940. A partir
daí, cresceu o desejo de vingança. O mais terrível
no que se fez contra o povo judeu, além dos métodos de matança,
foi que eles não tinham feito nada para merecer isso. Não
foram perseguidos por promover oposição política,
por exemplo. Eram mortos porque eram o que eram. Já o massacre
de civis alemães era justificado por uma questão de caráter:
se os alemães cometiam crimes de guerra na União Soviética,
por exemplo, estava na sua natureza maldosa e agressiva fazê-lo.
Isso obrigava americanos e ingleses, de natureza cristã e dotados
do caráter de justiça, a responder com crueldade às
maldades alemãs. Quando se vê o horror causado pelos bombardeios
aliados, vêm as perguntas: isso é certo ou errado? Isso é
necessário ou sem sentido? Isso é justo ou injusto? Essas
perguntas são importantes e ainda não foram respondidas.
Veja
Importantes, mesmo depois de quase sessenta anos? Por quê?
Friedrich Porque
a guerra continua sendo feita pelo ar. Ainda assim, não existem
leis nem tratados internacionais dizendo o que é ou não
permitido em uma guerra aérea. Depois da I Guerra, quando se começou
a utilizar os aviões para a batalha, fez-se em 1922 uma convenção
para regular o que se podia e o que não se podia fazer. A convenção
não foi assinada. Em 1977, tentou-se criar um protocolo para ser
adicionado à Convenção de Genebra, de 1949, que assegura
a proteção à população civil. Esse
protocolo, que regularia a guerra aérea, também não
foi assinado pelas principais potências. Pelo ar se pode tudo. Nos
últimos anos procura-se desenvolver técnicas de bombardeio
que poupem os civis. Mas saber até que ponto são toleráveis
baixas civis também é discutível, já que do
ponto de vista legal pelo ar tudo é permitido. A II Guerra serve
de base para tudo o que se discute sobre guerras até hoje, incluindo
o conceito de guerra justa, de guerra necessária, que se adotou
no Iraque.
Veja
O senhor considera que Winston Churchill, primeiro-ministro
inglês na II Guerra, cometeu um crime de guerra ao ordenar o bombardeio
de alvos civis?
Friedrich
Como posso dizer isso se nem sequer havia regras internacionais para a
guerra aérea? Os numerosos estupros cometidos pelo Exército
soviético ao marchar sobre a Alemanha e os fuzilamentos de civis
feitos pelos nazistas são facilmente classificáveis como
crimes porque para todos esses atos havia proibições. Além
disso, um perdedor não pode levar o vencedor para o banco dos réus.
Durante semanas a imprensa inglesa tentou arrancar de mim a resposta:
"Sim, Churchill foi um criminoso de guerra". Mas não se permitiria
que um alemão fizesse um julgamento desses, porque temos nossos
próprios crimes. O mesmo argumento perverso, só que invertido,
é usado por alguns alemães em relação aos
judeus: acham bom que o Estado de Israel faça algo errado contra
os civis palestinos apenas para poder dizer: "Vejam só, vocês
também fazem coisas erradas". Esses alemães não estão
nem um pouco preocupados com o sofrimento das crianças palestinas.
Querem uma desculpa para desviar o olhar da própria história.
Veja
O tema da guerra aérea contra a Alemanha também
é tabu para ingleses e americanos? Seu livro ainda não foi
publicado nesses países, apesar de toda a repercussão.
Friedrich
De fato, o livro já foi traduzido para o francês, o espanhol,
o italiano e o dinamarquês, mas para o inglês não.
O tema é um grande tabu para os vencedores também. Incomoda
trazer à tona, por exemplo, as frases que Churchill utilizava para
se referir aos ataques aéreos que promovia. Dizia, por exemplo,
que atacar civis era permitido porque a guerra é como a moda: ora
se usa saia curta, ora saia longa. Expressões como "Nós
vamos apagar essa cidade do mapa" ou "Matar todos os que olharem torto"
não surpreenderiam ninguém se tivessem sido ditas por nazistas.
Nada disso é inédito. Está nos livros históricos
dos ingleses.
Veja
Um livro recente, Passo de Caranguejo, de Günter
Grass (publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira), é
outro que aborda a guerra do ponto de vista das vítimas alemãs.
Depois de todo esse tempo, os alemães também estão
reivindicando o direito de falar de seu próprio sofrimento na guerra?
Friedrich
Sim, os alemães descobriram o óbvio. Ou seja, se houve uma
guerra na Alemanha, é claro que houve vítimas alemãs.
Mas há um motivo muito sensato para esse silêncio de décadas.
Os jovens alemães, que no fim da guerra estavam na casa dos 20
anos, passaram a vida tentando construir uma Alemanha diferente. E esse
mundo novo só podia depender da amizade com nosso antigo inimigo.
Como se poderia falar dos crimes cometidos pelos novos amigos americanos,
ingleses durante a guerra de bombardeios, se agora eles defendiam
o país da ameaça do comunismo soviético com bombas
atômicas? Mesmo aqueles que levaram seus filhos carbonizados dentro
de um balde para o cemitério se abstiveram de falar sobre isso.
Por outro lado, depois de um período inicial em que ocorreram os
processos contra os nazistas, o assunto dos crimes cometidos pelos alemães
também foi reduzido ao silêncio. Era preciso reabilitar os
alemães, pois nem todos eram nazistas ou criminosos de guerra.
Portanto nos dois lados se trabalhou pelo esquecimento.
Veja
Com o fim da Guerra Fria, o motivo para o silêncio desapareceu?
Friedrich
Exato. Agora, a amizade dos alemães com o antigo inimigo não
depende mais do silêncio sobre suas crueldades. Algum dia isso teria
de vir à tona, porque foi um acontecimento de proporções
imensas. As pessoas que hoje estão na casa dos 60 anos e que eram
crianças quando suas casas foram bombardeadas começam a
se perguntar o que aconteceu. Um amigo que tenho há décadas
e que nunca havia falado sobre isso, de repente, um dia me disse que estava
lá quando bombardearam Kassel, em 1943, matando 10.000 pessoas.
Pela primeira vez na vida, ele então ligou para a mãe, já
idosa, para saber os detalhes daqueles dias de terror.
|
|
 |