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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
Entrevista: Jörg Friedrich

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O horror
das guerras

O escritor que descreveu bombardeios
na visão dos bombardeados diz que só
agora os alemães podem criticar quem
os derrotou

Diogo Schelp

O historiador Jörg Friedrich tinha 1 ano quando a II Guerra terminou, em 1945. Seus pais haviam fugido um ano antes da cidade de Essen, na Alemanha, que estava sendo destruída por bombas aliadas. Aos 58 anos, Friedrich lançou há alguns meses na Alemanha um livro que trata dos bombardeios sobre as cidades alemãs e que se transformou em um best-seller, há quase vinte semanas na lista dos mais vendidos. O Incêndio – A Alemanha sob Bombardeio, ainda sem previsão de publicação no Brasil, descreve como as forças americanas e inglesas mataram mais de meio milhão de civis em cinco anos, de maneira proposital e com métodos cruéis. Jornais britânicos acusaram Friedrich de tentar atribuir crimes de guerra aos ingleses, radicais da direita alemã usaram o livro como prova da tese absurda de que o verdadeiro holocausto ocorreu em seu país e os de esquerda disseram que ele relativiza as atrocidades nazistas. Reações injustas diante de quem escreveu também um livro sobre os crimes do Exército alemão na Rússia e outro sobre os processos contra ex-comandantes nazistas, além de ter participado da elaboração da Enciclopédia do Holocausto. Entrevistado em Berlim, Friedrich fala do conflito no Iraque e das lições deixadas pela II Guerra.

Veja – A Alemanha é citada como exemplo de país em que, depois da derrota em uma guerra, se instalou uma democracia bem-sucedida com a supervisão dos vencedores. O mesmo seria possível no Iraque e no Afeganistão?
Friedrich – Ingleses e americanos, os vencedores da II Guerra, não acreditavam que seria possível instalar uma democracia na Alemanha. Havia a convicção de que o povo alemão tinha apreço pelo militarismo e pelo autoritarismo, reflexo de uma história marcada por monarquias, ditadura e uma curta experiência de democracia logo após a I Guerra. Achava-se que passariam gerações até que os alemães estivessem maduros para isso. Mas a democracia foi instalada nos anos 50, por um processo nada espontâneo, de fora para dentro, e funcionou. Por isso, mesmo que se diga que os países islâmicos não têm tradição em democracia e que vivem sob uma religião contrária a qualquer idéia de globalização, não se deve subestimá-los. Havia preconceito semelhante em relação aos alemães.

Veja – Os americanos acusam franceses e alemães de ingratidão por terem se oposto à guerra no Iraque. Afinal, devem também aos Estados Unidos o fim do nazismo e a reconstrução de seus países. Os alemães não aprenderam com a própria história?
Friedrich – A questão é mais complexa. A II Guerra iniciou uma fase em que as principais guerras foram feitas sob o argumento da libertação. Não se falou mais em lutar por maior poder ou território. Na II Guerra, os aliados se apresentaram não como vencedores, mas como os que lutaram para livrar o mundo e a Alemanha dos nazistas. Mas, para os alemães, a situação depois da guerra tinha um paradoxo estúpido: dividido em dois, o país via ao leste o ditador Stalin dominando exatamente o território que o ditador Hitler queria e, a oeste, os antigos nazistas passando para o lado dos americanos e ingleses, os libertadores. Cada vencedor tomou uma parte dos libertados em seus braços e declarou guerra ao outro, novamente com o argumento da libertação. A Guerra Fria foi isso. Como conseqüência, os alemães criaram um cinismo em relação a esse modelo de libertação. Quando surgiu a questão do Iraque, era claro para muitos alemães que mais uma vez o que estava em jogo não era a libertação, mas poder e também o petróleo.

Veja – Isso não resolve o problema da ameaça representada por Saddam Hussein. Desse ponto de vista, os ataques aéreos contra o Iraque são legítimos?
Friedrich – Claro. Independentemente da motivação real da guerra, Saddam Hussein era uma ameaça que se devia afastar. E, quando se trata de evitar um dano maior, admitem-se baixas na população civil. Efeitos colaterais da guerra aérea são legítimos, desde que se tenha um alvo preciso. A grande diferença entre os ataques aéreos contra a Alemanha e o Japão entre 1940 e 1945 e os bombardeios de hoje no Iraque é que se queria então atingir alvos civis. Ingleses e americanos acreditavam que promovendo um massacre da população civil os alemães se revoltariam e derrubariam o regime nazista.

Veja – Como esse processo se iniciou?
Friedrich – Inicialmente, os aliados queriam destruir a máquina de guerra de Hitler. Fábricas de armamentos e materiais de transporte, por exemplo. Só que, para realizar um ataque desses, era preciso acertar os alvos com precisão. Os métodos de navegação naquela época não eram confiáveis. Havia necessidade de fazer ataques de dia. As aeronaves aliadas se expunham aos caças inimigos. O nível de baixas entre os pilotos era de 50%. Além disso, a indústria de armamentos se recompunha rapidamente. Para proteger os pilotos, passou-se a fazer bombardeios noturnos. Só se podiam bombardear grandes áreas. Como também se queria promover o terror na população civil, passou-se a usar bombas incendiárias, que tinham um poder de destruição muito maior.

Veja – Qual foi o resultado dessa guerra aérea?
Friedrich – As bombas incendiárias foram um método de destruição em massa. Em cinco anos de guerra aérea, os aliados mataram mais de meio milhão de pessoas e destruíram entre 70% e 80% das cidades. Foram atingidos 30 milhões de pessoas. No ataque aéreo à cidade de Pforzheim, em fevereiro de 1945, morreu um em cada três habitantes. Na cidade japonesa de Nagasaki, atingida por uma bomba atômica, a taxa foi de um em cada sete moradores. O auge dos bombardeios foi entre janeiro e maio de 1945, quando a guerra já estava praticamente ganha e as tropas aliadas entravam na Alemanha. Assim mesmo, morriam diariamente 1 000 pessoas carbonizadas ou sufocadas pelos incêndios causados pelas bombas aliadas. Nos folhetos que se atiravam dos aviões estava escrito: "Libertem-se de Hitler!". Ou seja, nós vamos continuar matando vocês até que matem Hitler. O efeito, claro, foi inverso. Uma população ferida, sem casa, sem roupas, sem patrimônio, tende a buscar suporte no Estado.

Veja – A crueldade desse tipo de ataque pode ser comparada às crueldades cometidas pelos nazistas?
Friedrich – Um massacre realizado verticalmente, pelo ar, não é mais legítimo do que um massacre horizontal, feito por metralhadoras. A guerra aérea praticada pelos aliados foi estudada por muitos historiadores americanos e ingleses. Mas eles terminam o relato no momento em que a bomba é lançada do avião. Eu conto o que aconteceu daí em diante. Em meu livro, dedico-me a descrever o maior campo de batalha da II Guerra – a Alemanha. Conto como era a morte nas cidades bombardeadas, as pessoas escondidas no porão enquanto a casa queimava. O oxigênio do porão sendo consumido pelo fogo e matando sufocados todos os que ali permanecessem. Conto como as pessoas fugiam dos porões para o asfalto escaldante e morriam carbonizadas pelas labaredas que vinham das casas. Conto como em um só ataque a uma cidade morriam milhares de civis como resultado de uma matança intencional.

Veja – Ao falar das crueldades cometidas pelos aliados, o senhor não está amenizando o massacre que os nazistas cometeram contra os judeus, por exemplo?
Friedrich – Não. Eu não contesto que o holocausto foi um fato sem paralelo na história mundial. Escrevi milhares de páginas sobre os crimes cometidos pelos nazistas. Mas, ao fazer isso, não podia deixar de olhar também para o que se fez contra os civis alemães. Nunca houve uma população que durante cinco anos seguidos foi esmagada com 1,5 milhão de toneladas de bombas, com efeitos tão dramáticos, não apenas para a vida das pessoas, mas também para a sua história. Foi a maior queima de livros e documentos de todos os tempos. Não foi apenas uma guerra contra pessoas, mas contra a humanidade.

Veja – Mas os ataques aéreos contra surgiram como resposta aos ataques alemães...
Friedrich – Claro, Hitler começou o bombardeamento de cidades ao matar milhares de pessoas nos ataques aéreos contra Londres, em 1940. A partir daí, cresceu o desejo de vingança. O mais terrível no que se fez contra o povo judeu, além dos métodos de matança, foi que eles não tinham feito nada para merecer isso. Não foram perseguidos por promover oposição política, por exemplo. Eram mortos porque eram o que eram. Já o massacre de civis alemães era justificado por uma questão de caráter: se os alemães cometiam crimes de guerra na União Soviética, por exemplo, estava na sua natureza maldosa e agressiva fazê-lo. Isso obrigava americanos e ingleses, de natureza cristã e dotados do caráter de justiça, a responder com crueldade às maldades alemãs. Quando se vê o horror causado pelos bombardeios aliados, vêm as perguntas: isso é certo ou errado? Isso é necessário ou sem sentido? Isso é justo ou injusto? Essas perguntas são importantes e ainda não foram respondidas.

Veja – Importantes, mesmo depois de quase sessenta anos? Por quê?
Friedrich – Porque a guerra continua sendo feita pelo ar. Ainda assim, não existem leis nem tratados internacionais dizendo o que é ou não permitido em uma guerra aérea. Depois da I Guerra, quando se começou a utilizar os aviões para a batalha, fez-se em 1922 uma convenção para regular o que se podia e o que não se podia fazer. A convenção não foi assinada. Em 1977, tentou-se criar um protocolo para ser adicionado à Convenção de Genebra, de 1949, que assegura a proteção à população civil. Esse protocolo, que regularia a guerra aérea, também não foi assinado pelas principais potências. Pelo ar se pode tudo. Nos últimos anos procura-se desenvolver técnicas de bombardeio que poupem os civis. Mas saber até que ponto são toleráveis baixas civis também é discutível, já que do ponto de vista legal pelo ar tudo é permitido. A II Guerra serve de base para tudo o que se discute sobre guerras até hoje, incluindo o conceito de guerra justa, de guerra necessária, que se adotou no Iraque.

Veja – O senhor considera que Winston Churchill, primeiro-ministro inglês na II Guerra, cometeu um crime de guerra ao ordenar o bombardeio de alvos civis?
Friedrich – Como posso dizer isso se nem sequer havia regras internacionais para a guerra aérea? Os numerosos estupros cometidos pelo Exército soviético ao marchar sobre a Alemanha e os fuzilamentos de civis feitos pelos nazistas são facilmente classificáveis como crimes porque para todos esses atos havia proibições. Além disso, um perdedor não pode levar o vencedor para o banco dos réus. Durante semanas a imprensa inglesa tentou arrancar de mim a resposta: "Sim, Churchill foi um criminoso de guerra". Mas não se permitiria que um alemão fizesse um julgamento desses, porque temos nossos próprios crimes. O mesmo argumento perverso, só que invertido, é usado por alguns alemães em relação aos judeus: acham bom que o Estado de Israel faça algo errado contra os civis palestinos apenas para poder dizer: "Vejam só, vocês também fazem coisas erradas". Esses alemães não estão nem um pouco preocupados com o sofrimento das crianças palestinas. Querem uma desculpa para desviar o olhar da própria história.

Veja – O tema da guerra aérea contra a Alemanha também é tabu para ingleses e americanos? Seu livro ainda não foi publicado nesses países, apesar de toda a repercussão.
Friedrich – De fato, o livro já foi traduzido para o francês, o espanhol, o italiano e o dinamarquês, mas para o inglês não. O tema é um grande tabu para os vencedores também. Incomoda trazer à tona, por exemplo, as frases que Churchill utilizava para se referir aos ataques aéreos que promovia. Dizia, por exemplo, que atacar civis era permitido porque a guerra é como a moda: ora se usa saia curta, ora saia longa. Expressões como "Nós vamos apagar essa cidade do mapa" ou "Matar todos os que olharem torto" não surpreenderiam ninguém se tivessem sido ditas por nazistas. Nada disso é inédito. Está nos livros históricos dos ingleses.

Veja – Um livro recente, Passo de Caranguejo, de Günter Grass (publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira), é outro que aborda a guerra do ponto de vista das vítimas alemãs. Depois de todo esse tempo, os alemães também estão reivindicando o direito de falar de seu próprio sofrimento na guerra?
Friedrich – Sim, os alemães descobriram o óbvio. Ou seja, se houve uma guerra na Alemanha, é claro que houve vítimas alemãs. Mas há um motivo muito sensato para esse silêncio de décadas. Os jovens alemães, que no fim da guerra estavam na casa dos 20 anos, passaram a vida tentando construir uma Alemanha diferente. E esse mundo novo só podia depender da amizade com nosso antigo inimigo. Como se poderia falar dos crimes cometidos pelos novos amigos – americanos, ingleses – durante a guerra de bombardeios, se agora eles defendiam o país da ameaça do comunismo soviético com bombas atômicas? Mesmo aqueles que levaram seus filhos carbonizados dentro de um balde para o cemitério se abstiveram de falar sobre isso. Por outro lado, depois de um período inicial em que ocorreram os processos contra os nazistas, o assunto dos crimes cometidos pelos alemães também foi reduzido ao silêncio. Era preciso reabilitar os alemães, pois nem todos eram nazistas ou criminosos de guerra. Portanto nos dois lados se trabalhou pelo esquecimento.

Veja – Com o fim da Guerra Fria, o motivo para o silêncio desapareceu?
Friedrich – Exato. Agora, a amizade dos alemães com o antigo inimigo não depende mais do silêncio sobre suas crueldades. Algum dia isso teria de vir à tona, porque foi um acontecimento de proporções imensas. As pessoas que hoje estão na casa dos 60 anos e que eram crianças quando suas casas foram bombardeadas começam a se perguntar o que aconteceu. Um amigo que tenho há décadas e que nunca havia falado sobre isso, de repente, um dia me disse que estava lá quando bombardearam Kassel, em 1943, matando 10.000 pessoas. Pela primeira vez na vida, ele então ligou para a mãe, já idosa, para saber os detalhes daqueles dias de terror.

 
 
   
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