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Gustavo
Franco
Santa
incoerência
"O
que deu certo no novo governo,
em seus primeiros 100 dias, foi
o que não mudou"
Passados
os mágicos 100 dias, é curioso observar que a maior vitória
da nova administração, a julgar pelo pronunciamento do presidente,
foi fazer derreter o risco Brasil e a taxa de câmbio. Recuperou-se,
ao menos em parte, o crédito externo e foi afastada a atmosfera
de crise que se havia instalado no Brasil meses atrás.
Ilustração Ale Setti
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A fala do presidente deixa claro que os parâmetros com os quais
a economia é avaliada, neste governo como no anterior, e também
no próximo, têm a ver com as percepções sobre
o futuro, as quais são formadas no âmbito desta entidade,
antes odiosa, conhecida como "o mercado".
O presidente, menos que outras autoridades, fala em uma "herança
pesada", mas nem sempre se esclarece, ainda que óbvio, que a histeria
que se estabeleceu nos mercados desde meados do ano passado tinha a ver
com o medo de "rupturas", e não propriamente com as políticas
do governo anterior. Por isso mesmo, o sucesso da nova administração
se deve exclusivamente ao abandono de suas convicções revolucionárias
anteriores e, em conseqüência, à continuidade das políticas,
fiscal e monetária em particular, da administração
anterior.
Para quem foi vítima da crítica raivosa e farsante que vicejou
na oposição durante o governo FHC, é curioso observar,
por exemplo, no senador Mercadante, a transfiguração do
crítico no objeto que criticava, acompanhada de seguidas confissões
de erro. Essa magnífica transformação não
merece senão aplausos, pois deixa claro, ainda que a posteriori,
onde estava a verdade sobre a política econômica.
Portanto, vamos ter clareza sobre o seguinte: o que deu certo no novo
governo, em seus primeiros 100 dias, foi o que não mudou. Mudança
inesperada, além de rapidíssima, observou-se foi no PT,
que, uma vez eleito, e comprometido com a mudança, nada mudou na
macroeconomia, muito pelo contrário, e estamos todos felizes com
essa maravilhosa incoerência.
Talvez tenham errado aqueles que interpretaram a vitória do Lula
moderado e pacificado que logramos eleger como uma espécie de revolução
destinada a depor a "nova ordem neoliberal", a globalização
e "tudo o que aí está". Hoje se vê que a revolução
foi no sentido exatamente oposto: foi o PT que se subjugou e se adaptou
aos novos tempos. Exatamente como ocorreu com o PSDB no passado.
Com razão, os radicais sinceros do PT vêm dizendo que o partido
se aburguesou, ou que adotou o neoliberalismo. Certo. Errado foi, no passado,
classificar o bom senso em matéria de políticas públicas
como o resultado de posturas ideológicas e utilizar o epíteto
neoliberalismo como xingamento genérico para tudo o que o resto
do mundo pratica no terreno de políticas macroeconômicas
e que o PT teria certamente de praticar caso fosse governo. Ou será
que alguém acreditava, e ainda acredita seriamente, que existem
políticas "alternativas" no terreno macroeconômico?
O fato é que o PT no poder teve de se render ao que satanizou de
forma injustificada e virulenta, e assim se tornou vítima do próprio
veneno. Está fazendo as mesmas coisas que dizia beneficiarem os
banqueiros e o capital especulativo em detrimento da produção.
Ou será que não era bem isso?
O leitor poderá pensar que houve certa encenação,
inclusive um tanto de estelionato, e que o PT foi eleito porque o povo
queria "mudar o modelo econômico" e que não é nada
disso o que está fazendo. Se fosse verdade, o povo deveria estar
zangado, mas não está. Zangada está a professora
Maria da Conceição Tavares, o que não é novidade.
Como dizer com certeza o que os brasileiros tinham em mente quando elegeram
Lula?
Possivelmente, para a maioria dos brasileiros, não se tratava de
jogar no lixo tudo o que se fez antes, mas de recuperar a capacidade de
avançar na mesma agenda, coisa que o próprio FHC havia perdido
no segundo mandato. Ao deslocar-se para o centro e absorver a agenda preexistente
de forma mais convincente que o próprio candidato do governo, o
novo PT melhor interpretou os desejos do povo, que nada tinham a ver com
ruptura, mas com evolução.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central
(gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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