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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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Gustavo Franco

Santa incoerência

"O que deu certo no novo governo,
em seus primeiros 100 dias, foi
o que não mudou"

Passados os mágicos 100 dias, é curioso observar que a maior vitória da nova administração, a julgar pelo pronunciamento do presidente, foi fazer derreter o risco Brasil e a taxa de câmbio. Recuperou-se, ao menos em parte, o crédito externo e foi afastada a atmosfera de crise que se havia instalado no Brasil meses atrás.

Ilustração Ale Setti


A fala do presidente deixa claro que os parâmetros com os quais a economia é avaliada, neste governo como no anterior, e também no próximo, têm a ver com as percepções sobre o futuro, as quais são formadas no âmbito desta entidade, antes odiosa, conhecida como "o mercado".

O presidente, menos que outras autoridades, fala em uma "herança pesada", mas nem sempre se esclarece, ainda que óbvio, que a histeria que se estabeleceu nos mercados desde meados do ano passado tinha a ver com o medo de "rupturas", e não propriamente com as políticas do governo anterior. Por isso mesmo, o sucesso da nova administração se deve exclusivamente ao abandono de suas convicções revolucionárias anteriores e, em conseqüência, à continuidade das políticas, fiscal e monetária em particular, da administração anterior.

Para quem foi vítima da crítica raivosa e farsante que vicejou na oposição durante o governo FHC, é curioso observar, por exemplo, no senador Mercadante, a transfiguração do crítico no objeto que criticava, acompanhada de seguidas confissões de erro. Essa magnífica transformação não merece senão aplausos, pois deixa claro, ainda que a posteriori, onde estava a verdade sobre a política econômica.

Portanto, vamos ter clareza sobre o seguinte: o que deu certo no novo governo, em seus primeiros 100 dias, foi o que não mudou. Mudança inesperada, além de rapidíssima, observou-se foi no PT, que, uma vez eleito, e comprometido com a mudança, nada mudou na macroeconomia, muito pelo contrário, e estamos todos felizes com essa maravilhosa incoerência.

Talvez tenham errado aqueles que interpretaram a vitória do Lula moderado e pacificado que logramos eleger como uma espécie de revolução destinada a depor a "nova ordem neoliberal", a globalização e "tudo o que aí está". Hoje se vê que a revolução foi no sentido exatamente oposto: foi o PT que se subjugou e se adaptou aos novos tempos. Exatamente como ocorreu com o PSDB no passado.

Com razão, os radicais sinceros do PT vêm dizendo que o partido se aburguesou, ou que adotou o neoliberalismo. Certo. Errado foi, no passado, classificar o bom senso em matéria de políticas públicas como o resultado de posturas ideológicas e utilizar o epíteto neoliberalismo como xingamento genérico para tudo o que o resto do mundo pratica no terreno de políticas macroeconômicas e que o PT teria certamente de praticar caso fosse governo. Ou será que alguém acreditava, e ainda acredita seriamente, que existem políticas "alternativas" no terreno macroeconômico?

O fato é que o PT no poder teve de se render ao que satanizou de forma injustificada e virulenta, e assim se tornou vítima do próprio veneno. Está fazendo as mesmas coisas que dizia beneficiarem os banqueiros e o capital especulativo em detrimento da produção. Ou será que não era bem isso?

O leitor poderá pensar que houve certa encenação, inclusive um tanto de estelionato, e que o PT foi eleito porque o povo queria "mudar o modelo econômico" e que não é nada disso o que está fazendo. Se fosse verdade, o povo deveria estar zangado, mas não está. Zangada está a professora Maria da Conceição Tavares, o que não é novidade. Como dizer com certeza o que os brasileiros tinham em mente quando elegeram Lula?

Possivelmente, para a maioria dos brasileiros, não se tratava de jogar no lixo tudo o que se fez antes, mas de recuperar a capacidade de avançar na mesma agenda, coisa que o próprio FHC havia perdido no segundo mandato. Ao deslocar-se para o centro e absorver a agenda preexistente de forma mais convincente que o próprio candidato do governo, o novo PT melhor interpretou os desejos do povo, que nada tinham a ver com ruptura, mas com evolução.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)


 
 
   
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