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Edição 1 798 - 16 de abril de 2003
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O desafio da democracia


AFP

A cabeça decepada de uma estátua de Saddam: esperança


A guerra americana no Iraque começou sob os piores presságios e a condenação quase universal. Sem o aval das Nações Unidas e a despeito dos alertas de dezenas de chefes de Estado de que estava se abrindo um precedente perigoso para a paz mundial, a maior potência tecnológica, econômica e militar do planeta decidiu mover seus músculos e depor um ditador do outro lado do globo. Três semanas depois, os militares dos Estados Unidos têm a apresentar uma vitória completa e relativamente incruenta para um conflito das dimensões a que se dispuseram a travar. A ditadura de Saddam Hussein é coisa do passado. Mas o contencioso dos americanos na região está apenas em seu início. O desafio político dos Estados Unidos de agora em diante será infinitamente mais complexo do que neutralizar quartéis e destruir tanques obsoletos com mísseis de alta precisão.

Em primeiro lugar os americanos precisam assegurar a uma opinião pública mundial estupefata que sua doutrina de ação violenta unilateral se esgotou com o triunfo bélico no Iraque. Ameaçar outros países com o exemplo iraquiano só vai gerar antagonismos na Europa e em outras regiões. No Oriente Médio, cuja instabilidade política anda à beira da ebulição, a exibição de força militar dos Estados Unidos tem, em um primeiro momento, o claro efeito atemorizador dos radicais armados. No decorrer do tempo, a presença americana em Bagdá pode favorecer a causa dos moderados nos países islâmicos vizinhos do Iraque e ajudá-los a vencer suas limitações institucionais. Mas isso só vai ocorrer se o presidente George W. Bush demonstrar rapidamente que tem um plano realista para fazer do Iraque uma nação democrática. Isso vai demandar muito mais esforço e comprometimento do que a intervenção armada no Afeganistão, feita para desmanchar a rede terrorista do saudita Osama bin Laden.

Os obstáculos são gigantescos. Mas, se for bem-sucedida, a instalação no Iraque de um governo representativo poderá ser a força externa capaz de vencer a inércia do atraso social e do totalitarismo político no Oriente Médio. É uma esperança. Como reconheceu o estudioso egípcio Saad Eddin Ibrahim, uma voz insuspeita entre os muçulmanos, todos os avanços na região nos últimos três séculos foram produzidos por choques externos. "A guerra no Iraque pode ser um desses eventos", diz Ibrahim. "Guerras, por piores que sejam, derrubam impérios e ditadores, abrindo caminho para que sistemas sociais mais modernos sejam criados."



 
 
   
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