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O desafio da democracia
AFP
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A
cabeça decepada de uma estátua de Saddam: esperança
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A guerra americana no Iraque começou sob os piores presságios
e a condenação quase universal. Sem o aval das Nações
Unidas e a despeito dos alertas de dezenas de chefes de Estado de que
estava se abrindo um precedente perigoso para a paz mundial, a maior potência
tecnológica, econômica e militar do planeta decidiu mover
seus músculos e depor um ditador do outro lado do globo. Três
semanas depois, os militares dos Estados Unidos têm a apresentar
uma vitória completa e relativamente incruenta para um conflito
das dimensões a que se dispuseram a travar. A ditadura de Saddam
Hussein é coisa do passado. Mas o contencioso dos americanos na
região está apenas em seu início. O desafio político
dos Estados Unidos de agora em diante será infinitamente mais complexo
do que neutralizar quartéis e destruir tanques obsoletos com mísseis
de alta precisão.
Em primeiro
lugar os americanos precisam assegurar a uma opinião pública
mundial estupefata que sua doutrina de ação violenta unilateral
se esgotou com o triunfo bélico no Iraque. Ameaçar outros
países com o exemplo iraquiano só vai gerar antagonismos
na Europa e em outras regiões. No Oriente Médio, cuja instabilidade
política anda à beira da ebulição, a exibição
de força militar dos Estados Unidos tem, em um primeiro momento,
o claro efeito atemorizador dos radicais armados. No decorrer do tempo,
a presença americana em Bagdá pode favorecer a causa dos
moderados nos países islâmicos vizinhos do Iraque e ajudá-los
a vencer suas limitações institucionais. Mas isso só
vai ocorrer se o presidente George W. Bush demonstrar rapidamente que
tem um plano realista para fazer do Iraque uma nação democrática.
Isso vai demandar muito mais esforço e comprometimento do que a
intervenção armada no Afeganistão, feita para desmanchar
a rede terrorista do saudita Osama bin Laden.
Os obstáculos
são gigantescos. Mas, se for bem-sucedida, a instalação
no Iraque de um governo representativo poderá ser a força
externa capaz de vencer a inércia do atraso social e do totalitarismo
político no Oriente Médio. É uma esperança.
Como reconheceu o estudioso egípcio Saad Eddin Ibrahim, uma voz
insuspeita entre os muçulmanos, todos os avanços na região
nos últimos três séculos foram produzidos por choques
externos. "A guerra no Iraque pode ser um desses eventos", diz Ibrahim.
"Guerras, por piores que sejam, derrubam impérios e ditadores,
abrindo caminho para que sistemas sociais mais modernos sejam criados."
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