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Televisão
Fatuuura, peão!
O merchandising em novelas cresce cada vez
mais. A Globo tem altos planos para América

Ricardo Valladares
Divulgação/TV Globo
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O potencial dos protagonistas da novela América
para o merchandising:
SOL (Deborah Secco) - redes
de fast-food, operadoras de telefonia, jeans e alimentos
TIÃO (Murilo Benício)
- refrigerantes, cartões de crédito, tratores
e fertilizantes |
Meses antes da estréia da nova novela
das oito nesta segunda-feira, o departamento comercial da Rede Globo
e a autora Glória Perez já se debruçavam sobre
uma questão: como transformar os personagens de América
em garotos-propaganda? A emissora produziu um panfleto em que
chama atenção para as potencialidades da trama (que
tem como temas principais os rodeios e a imigração
para os Estados Unidos) e do elenco. Tião, por exemplo, o
peão interpretado por Murilo Benício, seria no início
da trama o garoto-propaganda ideal para refrigerantes, cartões
de crédito e produtos ligados ao agronegócio. Mais
tarde, ao enriquecer, poderia ter sua imagem associada a carros
e bens de luxo. A imigrante Sol, papel de Deborah Secco, é
descrita como um "elo entre os produtos e serviços americanos
e nacionais" perfeita para a publicidade de redes de fast-food
e operadoras de telefonia. A lista não pára por aí.
Há dezenas de produtos cujos fabricantes são visados
pelo panfleto da novela. Não é à toa. As ações
de merchandising pagaram metade dos 50 milhões de reais de
custo da novela Senhora do Destino, antecessora de América.
Além disso, o merchandising, juntamente com os direitos autorais
decorrentes da venda da novela para o exterior, é um modo
de atores, diretores e autores faturarem um bom dinheiro para além
de seus salários.
O merchandising em novelas remonta aos anos
50. Os contra-regras foram os primeiros a ganhar com ele. As empresas
os recompensavam se eles dessem um jeitinho de mostrar seus produtos
em cena. Com o tempo, a prática institucionalizou-se. "No
começo, os artistas de esquerda chiavam. Mas, depois que
viam a cor do dinheiro, eles topavam até cantar a Internacional
Comunista tomando Coca-Cola", diz Jorge Adib, criador de uma
empresa pioneira no ramo. Hoje, as novelas de todas as faixas de
horário da Globo têm esse tipo de publicidade. A cada
ação de merchandising, a emissora fatura até
550.000 reais. Uma fração desse dinheiro vai para
o autor do folhetim. Durante o tempo em que Senhora do Destino
ficou no ar, o noveleiro Aguinaldo Silva embolsou em torno de
200.000 reais ao mês com o merchandising. No caso dos atores
é mais complicado.
Dois fatores determinam quanto um ator pode
ganhar fazendo propaganda em cena. Um deles é o horário
da novela de que participa. O folhetim das oito é o mais
rentável, pois ali se concentram as campanhas publicitárias
e se pagam os melhores cachês. Um exemplo eloqüente é
a atriz Suzana Vieira. Pelo fato de sua personagem em Senhora
do Destino, Maria do Carmo, ser uma heroína, ela já
seria uma garota-propaganda e tanto. Não bastasse isso, a
personagem ainda era dona de uma loja de materiais de construção.
Ao longo da trama, Maria do Carmo fez cerca de noventa propagandas,
o que rendeu mais de 600.000 reais à atriz. "Foi ótimo
para meu ego saber que as empresas confiam em mim", diz Suzana.
Num folhetim das sete, além de o valor do cachê cair
pela metade, o número de ações de merchandising
é três vezes menor. Na novela das seis, o volume e
o valor da publicidade caem ainda mais. A novelinha Malhação,
por fim, é a menos aquinhoada com esses recursos.
O segundo fator que influi nos ganhos dos
atores é o tipo de personagem que eles interpretam. Os vilões
são sempre micados em matéria de merchandising. Isso
vale tanto para um malfeitor apagado como o empresário interpretado
por Henri Castelli na novela das seis quanto para Nazaré,
a megera com que Renata Sorrah roubou a cena em Senhora do Destino.
Outra situação comum é a do papel que parece
bom, mas por algum detalhe que surge ao longo da trama perde seu
atrativo para os anunciantes. Na novela O Rei do Gado (1996),
uma campanha publicitária foi armada para vender chapéus
de boiadeiro iguais aos do protagonista, vivido por Antonio Fagundes.
No meio da história, o personagem foi traído pela
mulher. Os compradores em potencial não gostaram, as vendas
despencaram e os anunciantes bateram em retirada.
As novelas de época são o túmulo
do merchandising, já que é difícil inserir
propaganda em suas tramas. Em compensação, são
altamente exportáveis. O noveleiro Benedito Ruy Barbosa comprou
uma casa de 500.000 reais em São Paulo com a venda do folhetim
Sinhá Moça para 63 países. Para os atores,
os ganhos são proporcionais ao salário na novela.
Ainda não se sabe como será o desempenho internacional
de América, mas o fato de a trama lidar com o tema
da imigração ilegal para os Estados Unidos cria altas
expectativas. O mesmo vale para o merchandising, que já conta
com aqueles planos detalhados. Deve-se registrar, contudo, que o
departamento comercial da Globo não tem autorização
para interferir nos rumos de uma novela. "Nós também
não podemos exigir que um ator faça um comercial a
contragosto", diz o diretor comercial da Globo, Willy Haas. Mas
será que precisa?
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