Edição 1896 . 16 de março de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
Fatuuura, peão!

O merchandising em novelas cresce cada vez
mais. A Globo tem altos planos para América


Ricardo Valladares


Divulgação/TV Globo
O potencial dos protagonistas da novela América para o merchandising:
SOL (Deborah Secco) - redes de fast-food, operadoras de telefonia, jeans e alimentos
TIÃO (Murilo Benício) - refrigerantes, cartões de crédito, tratores e fertilizantes


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Ganhos por fora

Meses antes da estréia da nova novela das oito nesta segunda-feira, o departamento comercial da Rede Globo e a autora Glória Perez já se debruçavam sobre uma questão: como transformar os personagens de América em garotos-propaganda? A emissora produziu um panfleto em que chama atenção para as potencialidades da trama (que tem como temas principais os rodeios e a imigração para os Estados Unidos) e do elenco. Tião, por exemplo, o peão interpretado por Murilo Benício, seria no início da trama o garoto-propaganda ideal para refrigerantes, cartões de crédito e produtos ligados ao agronegócio. Mais tarde, ao enriquecer, poderia ter sua imagem associada a carros e bens de luxo. A imigrante Sol, papel de Deborah Secco, é descrita como um "elo entre os produtos e serviços americanos e nacionais" – perfeita para a publicidade de redes de fast-food e operadoras de telefonia. A lista não pára por aí. Há dezenas de produtos cujos fabricantes são visados pelo panfleto da novela. Não é à toa. As ações de merchandising pagaram metade dos 50 milhões de reais de custo da novela Senhora do Destino, antecessora de América. Além disso, o merchandising, juntamente com os direitos autorais decorrentes da venda da novela para o exterior, é um modo de atores, diretores e autores faturarem um bom dinheiro para além de seus salários.

O merchandising em novelas remonta aos anos 50. Os contra-regras foram os primeiros a ganhar com ele. As empresas os recompensavam se eles dessem um jeitinho de mostrar seus produtos em cena. Com o tempo, a prática institucionalizou-se. "No começo, os artistas de esquerda chiavam. Mas, depois que viam a cor do dinheiro, eles topavam até cantar a Internacional Comunista tomando Coca-Cola", diz Jorge Adib, criador de uma empresa pioneira no ramo. Hoje, as novelas de todas as faixas de horário da Globo têm esse tipo de publicidade. A cada ação de merchandising, a emissora fatura até 550.000 reais. Uma fração desse dinheiro vai para o autor do folhetim. Durante o tempo em que Senhora do Destino ficou no ar, o noveleiro Aguinaldo Silva embolsou em torno de 200.000 reais ao mês com o merchandising. No caso dos atores é mais complicado.

Dois fatores determinam quanto um ator pode ganhar fazendo propaganda em cena. Um deles é o horário da novela de que participa. O folhetim das oito é o mais rentável, pois ali se concentram as campanhas publicitárias e se pagam os melhores cachês. Um exemplo eloqüente é a atriz Suzana Vieira. Pelo fato de sua personagem em Senhora do Destino, Maria do Carmo, ser uma heroína, ela já seria uma garota-propaganda e tanto. Não bastasse isso, a personagem ainda era dona de uma loja de materiais de construção. Ao longo da trama, Maria do Carmo fez cerca de noventa propagandas, o que rendeu mais de 600.000 reais à atriz. "Foi ótimo para meu ego saber que as empresas confiam em mim", diz Suzana. Num folhetim das sete, além de o valor do cachê cair pela metade, o número de ações de merchandising é três vezes menor. Na novela das seis, o volume e o valor da publicidade caem ainda mais. A novelinha Malhação, por fim, é a menos aquinhoada com esses recursos.

O segundo fator que influi nos ganhos dos atores é o tipo de personagem que eles interpretam. Os vilões são sempre micados em matéria de merchandising. Isso vale tanto para um malfeitor apagado como o empresário interpretado por Henri Castelli na novela das seis quanto para Nazaré, a megera com que Renata Sorrah roubou a cena em Senhora do Destino. Outra situação comum é a do papel que parece bom, mas por algum detalhe que surge ao longo da trama perde seu atrativo para os anunciantes. Na novela O Rei do Gado (1996), uma campanha publicitária foi armada para vender chapéus de boiadeiro iguais aos do protagonista, vivido por Antonio Fagundes. No meio da história, o personagem foi traído pela mulher. Os compradores em potencial não gostaram, as vendas despencaram e os anunciantes bateram em retirada.

As novelas de época são o túmulo do merchandising, já que é difícil inserir propaganda em suas tramas. Em compensação, são altamente exportáveis. O noveleiro Benedito Ruy Barbosa comprou uma casa de 500.000 reais em São Paulo com a venda do folhetim Sinhá Moça para 63 países. Para os atores, os ganhos são proporcionais ao salário na novela. Ainda não se sabe como será o desempenho internacional de América, mas o fato de a trama lidar com o tema da imigração ilegal para os Estados Unidos cria altas expectativas. O mesmo vale para o merchandising, que já conta com aqueles planos detalhados. Deve-se registrar, contudo, que o departamento comercial da Globo não tem autorização para interferir nos rumos de uma novela. "Nós também não podemos exigir que um ator faça um comercial a contragosto", diz o diretor comercial da Globo, Willy Haas. Mas será que precisa?

 
 
 
 
topovoltar