Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Pensar faz mal

Um romance sobre como a inteligência
pode estragar a vida de um jovem francês


Jerônimo Teixeira


Divulgação
Bart volta de Paris: os Simpsons e o iluminismo

A França é o único país em que o intelectual ainda é uma instituição nacional. Ele dá entrevistas na televisão e escreve artigos no Le Monde para atacar o imperialismo americano. É pós-moderno e desconstrucionista, e não abdica de uma pomposa atitude de filósofo iluminista. Só na França poderia surgir uma sátira nos moldes de Como Me Tornei Estúpido (tradução de Carlos Nougué; Rocco; 160 páginas; 24 reais), divertido romance de estréia de Martin Page, 29 anos. "Quis criar um personagem cuja inteligência o impedisse de aproveitar a vida", disse Page a VEJA. Antoine, o herói do livro, levou ao pé da letra a pose inconformista do intelectual francês. Não consegue enquadrar-se em nada. Cansado dessa existência miserável, conclui que a inteligência é uma doença que só traz sofrimento. E decide ficar burro.

Antoine só não é francês em um detalhe: não bebe vinho. Tenta se imbecilizar enchendo a cara, mas descobre que tem uma intolerância orgânica ao álcool. Procura então um médico para remover a inteligência de seu cérebro, mais ou menos como os curandeiros medievais extraíam a "pedra da loucura". O bom doutor lhe dá uma solução mais delicada: um antidepressivo. Munido dessa arma química, Antoine vai anular seu espírito crítico para se integrar a uma grande corporação. Page diz que seu herói foi concebido como um típico estudante francês de esquerda. Embora dê a devida e divertida dimensão de ridículo a Antoine, o autor trata seu personagem com simpatia excessiva. Em alguns momentos, o romance adere ao puritanismo esquerdista de seu herói, condenando as tentações maléficas do consumismo – como o McDonald's e a televisão. Page salva-se do moralismo pelo bom humor. Não é por nada que Antoine faz uma (inteligente) concessão ao imperialismo cultural: gosta do desenho animado Os Simpsons.

 
 
 
 
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