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Livros Pensar
faz mal Um romance sobre como a inteligência
pode estragar a vida de um jovem francês 
Jerônimo Teixeira
Divulgação  |
| Bart volta de Paris: os Simpsons e o iluminismo |
A
França é o único país em que o intelectual ainda é
uma instituição nacional. Ele dá entrevistas na televisão
e escreve artigos no Le Monde para atacar o imperialismo americano. É
pós-moderno e desconstrucionista, e não abdica de uma pomposa atitude
de filósofo iluminista. Só na França poderia surgir uma sátira
nos moldes de Como Me Tornei Estúpido (tradução
de Carlos Nougué; Rocco; 160 páginas; 24 reais), divertido romance
de estréia de Martin Page, 29 anos. "Quis criar um personagem cuja inteligência
o impedisse de aproveitar a vida", disse Page a VEJA. Antoine, o herói
do livro, levou ao pé da letra a pose inconformista do intelectual francês.
Não consegue enquadrar-se em nada. Cansado dessa existência miserável,
conclui que a inteligência é uma doença que só traz
sofrimento. E decide ficar burro. Antoine só
não é francês em um detalhe: não bebe vinho. Tenta
se imbecilizar enchendo a cara, mas descobre que tem uma intolerância orgânica
ao álcool. Procura então um médico para remover a inteligência
de seu cérebro, mais ou menos como os curandeiros medievais extraíam
a "pedra da loucura". O bom doutor lhe dá uma solução mais
delicada: um antidepressivo. Munido dessa arma química, Antoine vai anular
seu espírito crítico para se integrar a uma grande corporação.
Page diz que seu herói foi concebido como um típico estudante francês
de esquerda. Embora dê a devida e divertida dimensão de ridículo
a Antoine, o autor trata seu personagem com simpatia excessiva. Em alguns momentos,
o romance adere ao puritanismo esquerdista de seu herói, condenando as
tentações maléficas do consumismo como o McDonald's
e a televisão. Page salva-se do moralismo pelo bom humor. Não é
por nada que Antoine faz uma (inteligente) concessão ao imperialismo cultural:
gosta do desenho animado Os Simpsons. |