Edição 1896 . 16 de março de 2005

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A estranha vida das citações

Frases famosas condensam o pensamento
de um autor ou de uma época – e às vezes
também ganham sentido inverso ao original


Jerônimo Teixeira

Até Chiquita Bacana, a tal que se vestia com uma casca de banana-nanica, era existencialista – e "com toda razão", dizia a marchinha carnavalesca de 1949. O existencialismo estava em voga e continuaria assim por muitos carnavais, até ser desbancado pelo estruturalismo nos anos 60. Todo intelectual que desejasse ser tão bacana quanto Chiquita era obrigado a recitar as máximas do principal filósofo existencialista, o francês Jean-Paul Sartre. "A existência precede a essência" ou "estamos condenados à liberdade" eram obrigatórias. E ainda mais famosa era "o inferno são os outros". Trata-se de uma fala de Entre Quatro Paredes (tradução de Alcione Araújo e Pedro Hussak; Record; 128 páginas; 20,90 reais), peça de 1944 que está sendo relançada depois de décadas fora das livrarias. O drama se passa na versão sartriana do inferno: uma sala de estar onde três condenados são obrigados a suportar-se pela eternidade. É fácil perceber por que, nesse contexto, o inferno seriam os outros. A frase, porém, tornou-se maior do que Entre Quatro Paredes. É lembrada por muita gente que nem leu a peça e ilustra a estranha vida (própria) das citações literárias.

Para se transformar em figurinha fácil, a citação precisa ter, sobretudo, poder de síntese. A frase "definitiva" concentra o sumo de um autor, de uma época, de uma visão de mundo. Mas o ideal é que ela preserve, ao mesmo tempo, uma certa independência em relação às suas origens – só assim será repetida nas mais variadas ocasiões. Em Coração das Trevas, do britânico Joseph Conrad, a expressão "o horror, o horror" resumia os crimes da colonização européia na África. Pronunciada por Marlon Brando no filme Apocalypse Now, a frase se desgarrou de sua circunstância histórica para se transformar num epitáfio para a Guerra do Vietnã. Frases como essa podem até ser usadas sem o devido crédito ao escritor: já pertencem ao patrimônio da língua. É preciso ressalvar, porém, que a língua também consagra muita besteira. No Brasil, o museu dos versos decorados no ginásio inclui o "Oh! Que saudades que tenho / Da aurora da minha vida", de Casimiro de Abreu, e o "Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá", de Gonçalves Dias. Os dois poetas românticos são bem estabelecidos na história da literatura. O mesmo não se pode dizer de seu contemporâneo Francisco Otaviano, que no entanto também conquistou um lugarzinho na fala popular: embora ninguém lembre, a expressão "passar em branca nuvem" é criação sua.

De tanto serem recitadas, essas banalidades líricas ganharam uma importância exagerada. O singelo sabiá da Canção do Exílio foi até convertido em representante do orgulho nacional (e nessa condição foi parodiado por modernistas como Oswald de Andrade e Murilo Mendes). O mais comum, porém, é o caminho contrário: a frase nasce poderosa e é banalizada pelo uso. Há até casos em que seu sentido é deturpado. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", de Euclides da Cunha, é um exemplo. Fora de seu contexto, ela virou um bordão ufanista, na linha "o sertanejo é brasileiro e não desiste nunca". Em Os Sertões, porém, fica claro que, apesar de sua força, o sertanejo é um miserável anacronismo que será soterrado pela civilização. A frase seguinte do livro expõe o racismo pseudocientífico de Euclides – ele diz que o sertanejo "não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral".

Mesmo quando seu sentido não é desfigurado, a frase famosa corre o risco de ser despida de toda sutileza e complexidade. Qualquer adolescente pode invocar o "Deus está morto" do filósofo alemão Friedrich Nietzsche para brigar com os pais que querem arrastá-lo para a missa. Mas, transformada em slogan, a frase se esvazia. Desce pelo ralo toda a controversa crítica de Nietzsche à moral cristã. Machado de Assis também teve seu ácido diluído pela repetição. A sentença final de Memórias Póstumas de Brás Cubas – "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria" – transformou-se em uma espécie de genérico do estilo machadiano. Não é de estranhar que Erico Verissimo tenha trocado as bolas num curso de literatura brasileira que ministrou na Universidade da Califórnia, em 1943: informou a seus alunos americanos, erroneamente, que aquele era o final de Dom Casmurro.

Carlos Drummond de Andrade irritava-se de ter alguns versos convertidos em lugar-comum. Ressentia-se, sobretudo, do fato de eles eclipsarem o restante de sua poesia. Diante de um grupo de jornalistas que queria entrevistá-lo em seu aniversário de 80 anos, comentou discretamente com o amigo Otto Lara Resende: "Fora 'no meio do caminho tinha uma pedra' e 'e agora José', ninguém aqui sabe um verso meu". Mas a maior vítima da popularização simplificadora é, sem dúvida, William Shakespeare. Sua obra é um tesouro de citações, de "meu reino por um cavalo" a "há algo de podre no reino da Dinamarca" (parafraseada até numa faixa de protesto contra o prefeito corrupto da novela Senhora do Destino). Sua frase mais batida pertence a um monólogo de Hamlet: "Ser ou não ser, eis a questão". É difícil ouvi-la sem enfado. Para recuperar sua sutil metafísica, é preciso voltar à fonte – ler Hamlet de cabo a rabo. Aliás, a recomendação vale para todas as citações literárias: não há nada de errado em repeti-las na mesa do bar, mas o melhor é encontrá-las na obra original.

 

Com luz própria

Uma tipologia das citações célebres

A FRASE MAIOR QUE O LIVRO
Exemplo: "O inferno são os outros", de Jean-Paul Sartre
Continua em circulação mesmo depois que a obra é esquecida. No auge do existencialismo, era chique citar essa fala da peça Entre Quatro Paredes. Hoje, ela é mais lembrada que o texto

A FRASE OFUSCANTE
Exemplo: "No meio do caminho tinha uma pedra", de Carlos Drummond de Andrade
De tão conhecida e recitada, obscurece o restante da obra do autor. Drummond até se irritava com a fama desse verso do poema No Meio do Caminho



A FRASE ARRASA-QUARTEIRÃO
Exemplo: "Deus está morto", de Friedrich Nietzsche
Transforma-se em palavra-de-ordem. O trecho de Assim Falou Zaratustra pode não ser o melhor do autor, mas virou um slogan de todo contestador da religião – mesmo dos que não leram o livro

A FRASE DE AUTOR PERDIDO
Exemplo: "O horror, o horror", de Joseph Conrad
É a que se desgarra não só da obra, mas também do autor.
A frase foi citada no filme Apocalypse Now, baseado no livro Coração das Trevas. Muita gente acha que é criação da fita, e não da obra de Conrad


Reprodução


A FRASE LUGAR-COMUM

Exemplo: "Ser ou não ser: eis a questão", de William Shakespeare
De tanto ser repetida, torna-se desgastada. Hamlet é um monumento da literatura, mas as palavras que abrem seu mais famoso monólogo acabaram se barateando

A FRASE DETURPADA
Exemplo: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", de Euclides da Cunha
Fora do contexto original, muda de sentido. O trecho é confundido com um elogio ao sertanejo. Mas, em Os Sertões, aparece em meio a considerações racistas

 
 
 
 
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