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Livros A
estranha vida das citações Frases famosas
condensam o pensamento de um autor ou de uma época e às
vezes também ganham sentido inverso ao original  Jerônimo
Teixeira
Até Chiquita Bacana, a tal que se vestia
com uma casca de banana-nanica, era existencialista e "com toda razão",
dizia a marchinha carnavalesca de 1949. O existencialismo estava em voga e continuaria
assim por muitos carnavais, até ser desbancado pelo estruturalismo nos
anos 60. Todo intelectual que desejasse ser tão bacana quanto Chiquita
era obrigado a recitar as máximas do principal filósofo existencialista,
o francês Jean-Paul Sartre. "A existência precede a essência"
ou "estamos condenados à liberdade" eram obrigatórias. E ainda mais
famosa era "o inferno são os outros". Trata-se de uma fala de Entre
Quatro Paredes (tradução de Alcione Araújo e Pedro
Hussak; Record; 128 páginas; 20,90 reais), peça de 1944 que está
sendo relançada depois de décadas fora das livrarias. O drama se
passa na versão sartriana do inferno: uma sala de estar onde três
condenados são obrigados a suportar-se pela eternidade. É fácil
perceber por que, nesse contexto, o inferno seriam os outros. A frase, porém,
tornou-se maior do que Entre Quatro Paredes. É lembrada por muita
gente que nem leu a peça e ilustra a estranha vida (própria) das
citações literárias. Para
se transformar em figurinha fácil, a citação precisa ter,
sobretudo, poder de síntese. A frase "definitiva" concentra o sumo de um
autor, de uma época, de uma visão de mundo. Mas o ideal é
que ela preserve, ao mesmo tempo, uma certa independência em relação
às suas origens só assim será repetida nas mais variadas
ocasiões. Em Coração das Trevas, do britânico
Joseph Conrad, a expressão "o horror, o horror" resumia os crimes da colonização
européia na África. Pronunciada por Marlon Brando no filme Apocalypse
Now, a frase se desgarrou de sua circunstância histórica para
se transformar num epitáfio para a Guerra do Vietnã. Frases como
essa podem até ser usadas sem o devido crédito ao escritor: já
pertencem ao patrimônio da língua. É preciso ressalvar, porém,
que a língua também consagra muita besteira. No Brasil, o museu
dos versos decorados no ginásio inclui o "Oh! Que saudades que tenho /
Da aurora da minha vida", de Casimiro de Abreu, e o "Minha terra tem palmeiras
/ onde canta o sabiá", de Gonçalves Dias. Os dois poetas românticos
são bem estabelecidos na história da literatura. O mesmo não
se pode dizer de seu contemporâneo Francisco Otaviano, que no entanto também
conquistou um lugarzinho na fala popular: embora ninguém lembre, a expressão
"passar em branca nuvem" é criação sua.
De tanto serem recitadas, essas banalidades líricas ganharam uma importância
exagerada. O singelo sabiá da Canção do Exílio
foi até convertido em representante do orgulho nacional (e nessa condição
foi parodiado por modernistas como Oswald de Andrade e Murilo Mendes). O mais
comum, porém, é o caminho contrário: a frase nasce poderosa
e é banalizada pelo uso. Há até casos em que seu sentido
é deturpado. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", de Euclides
da Cunha, é um exemplo. Fora de seu contexto, ela virou um bordão
ufanista, na linha "o sertanejo é brasileiro e não desiste nunca".
Em Os Sertões, porém, fica claro que, apesar de sua força,
o sertanejo é um miserável anacronismo que será soterrado
pela civilização. A frase seguinte do livro expõe o racismo
pseudocientífico de Euclides ele diz que o sertanejo "não
tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral".
Mesmo quando seu sentido não é desfigurado,
a frase famosa corre o risco de ser despida de toda sutileza e complexidade. Qualquer
adolescente pode invocar o "Deus está morto" do filósofo alemão
Friedrich Nietzsche para brigar com os pais que querem arrastá-lo para
a missa. Mas, transformada em slogan, a frase se esvazia. Desce pelo ralo toda
a controversa crítica de Nietzsche à moral cristã. Machado
de Assis também teve seu ácido diluído pela repetição.
A sentença final de Memórias Póstumas de Brás Cubas
"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado
da nossa miséria" transformou-se em uma espécie de genérico
do estilo machadiano. Não é de estranhar que Erico Verissimo tenha
trocado as bolas num curso de literatura brasileira que ministrou na Universidade
da Califórnia, em 1943: informou a seus alunos americanos, erroneamente,
que aquele era o final de Dom Casmurro.
Carlos Drummond de Andrade irritava-se de ter alguns versos convertidos em lugar-comum.
Ressentia-se, sobretudo, do fato de eles eclipsarem o restante de sua poesia.
Diante de um grupo de jornalistas que queria entrevistá-lo em seu aniversário
de 80 anos, comentou discretamente com o amigo Otto Lara Resende: "Fora 'no meio
do caminho tinha uma pedra' e 'e agora José', ninguém aqui sabe
um verso meu". Mas a maior vítima da popularização simplificadora
é, sem dúvida, William Shakespeare. Sua obra é um tesouro
de citações, de "meu reino por um cavalo" a "há algo de podre
no reino da Dinamarca" (parafraseada até numa faixa de protesto contra
o prefeito corrupto da novela Senhora do Destino). Sua frase mais batida
pertence a um monólogo de Hamlet: "Ser ou não ser, eis a
questão". É difícil ouvi-la sem enfado. Para recuperar sua
sutil metafísica, é preciso voltar à fonte ler Hamlet
de cabo a rabo. Aliás, a recomendação vale para todas
as citações literárias: não há nada de errado
em repeti-las na mesa do bar, mas o melhor é encontrá-las na obra
original.
Com luz própria
Uma tipologia das citações célebres A
FRASE MAIOR QUE O LIVRO Exemplo: "O inferno
são os outros", de Jean-Paul Sartre Continua em circulação
mesmo depois que a obra é esquecida. No auge do existencialismo, era chique
citar essa fala da peça Entre Quatro Paredes. Hoje, ela é
mais lembrada que o texto A FRASE OFUSCANTE Exemplo:
"No meio do caminho tinha uma pedra", de Carlos Drummond de Andrade De
tão conhecida e recitada, obscurece o restante da obra do autor. Drummond
até se irritava com a fama desse verso do poema No Meio do Caminho
A
FRASE ARRASA-QUARTEIRÃO Exemplo: "Deus
está morto", de Friedrich Nietzsche Transforma-se em palavra-de-ordem.
O trecho de Assim Falou Zaratustra pode não ser o melhor do autor,
mas virou um slogan de todo contestador da religião mesmo dos que
não leram o livro A FRASE DE AUTOR
PERDIDO Exemplo: "O horror, o horror",
de Joseph Conrad É a que se desgarra não só da
obra, mas também do autor. A frase foi citada no filme Apocalypse
Now, baseado no livro Coração das Trevas. Muita gente
acha que é criação da fita, e não da obra de Conrad
Reprodução
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A
FRASE LUGAR-COMUM Exemplo: "Ser ou não ser:
eis a questão", de William Shakespeare De tanto ser repetida,
torna-se desgastada. Hamlet é um monumento da literatura, mas as
palavras que abrem seu mais famoso monólogo acabaram se barateando
A FRASE DETURPADA Exemplo:
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte", de Euclides da Cunha Fora
do contexto original, muda de sentido. O trecho é confundido com um elogio
ao sertanejo. Mas, em Os Sertões, aparece em meio a considerações
racistas | | |