Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Esporte
Ele corre 75 horas sem parar

O americano Dean Karnazes correu três
dias e três noites seguidos, uma façanha
que desafia os limites do corpo humano

EXCLUSIVO ON-LINE
Depoimento de Valmir Nunes

O esporte de alta competição da atualidade produziu uma questão ainda sem resposta – qual é o limite do corpo humano? O maratonista original, o grego da lenda, morreu de fadiga por ter corrido 42 quilômetros. O americano Dean Karnazes, cruzando sozinho as planícies da Califórnia, conseguiu no ano passado correr dez vezes mais em 75 horas. E agora se prepara para bater o próprio recorde, correndo 480 quilômetros. Karnazes, 42 anos, é a figura mais conhecida de um universo de distâncias superlativas, o dos ultramaratonistas. A competição mais comum entre eles é a de 100 quilômetros. Há também provas em que correm sem parar durante 24 horas. O grego Yiannis Kouros, campeão mundial dessa modalidade, percorreu 303 quilômetros nesse espaço de tempo, em 1997. O corredor paulista Valmir Nunes, recordista pan-americano, é capaz de correr de uma só tirada, sem parar para dormir, comer, beber água ou ir ao banheiro, nada menos que 270 quilômetros, a mesma distância entre Recife e Maceió. "Correr dessa forma não é fácil, mas tenho curiosidade de saber até que ponto a máquina humana é capaz de agüentar", declarou recentemente Karnazes.

Roberto Setton
O brasileiro Valmir Nunes, recordista pan-americano: a distância entre Recife e Maceió em 24 horas


O corredor americano não sabe até onde vai a capacidade do corpo humano, mas tem um palpite. "Eu acho que a maior barreira não é a física, e sim a psicológica", ele diz. "Se acreditarmos que o limite de nosso corpo pode ir além do que conseguimos até hoje, realmente conseguiremos superar essa marca." Karnazes começou a correr aos 30 anos (decidiu mudar de vida no dia do aniversário, pois estava acima do peso) e está prestes a lançar nos Estados Unidos uma autobiografia, batizada de O Homem da Ultramaratona. A megacorrida feita em outubro exigiu que Karnazes se mantivesse em pé, correndo e sem dormir por mais de três dias. Como ele se sentiu? "Eu fiquei quase louco", disse numa entrevista. "O trajeto que escolhi era muito montanhoso, e durante a corrida choveu por vinte horas." Nunes, Kouros e Karnazes fazem parte de uma comunidade de atletas que não se guiam pelos padrões convencionais da corrida. O desafio deles é aumentar cada vez mais suas marcas para testar os limites do corpo. Ao contrário do que se pode supor, não são atletas excepcionalmente dotados. Apenas possuem características que os habilitam a essas aventuras extremas. Para começar, recebem um empurrãozinho da genética. Não podem ser muito altos e fortes como os corredores dos 100 metros olímpicos – caso contrário, nos longos percursos, forçariam muito as articulações dos membros inferiores e seu corpo ofereceria excessiva resistência ao ar. Também não podem ser muito magros e de estatura mediana, como os quenianos que regularmente vencem a prova de São Silvestre, em São Paulo, pois lhes faltariam músculos para agüentar tamanho esforço por tanto tempo.

Os ultramaratonistas precisam ter uma compleição física sólida, com músculos excepcionalmente resistentes. Para chegarem a essa condição, não há segredo: perseguem um condicionamento físico perfeito e fazem treinamentos gradativos a longo prazo – traduzindo, correm diariamente distâncias brutalmente maiores que as que são percorridas por corredores de outras modalidades. Karnazes chega a fazer 220 quilômetros por semana. Treina sobretudo de madrugada, pois trabalha durante a semana numa indústria de alimentos naturais. O brasileiro Valmir Nunes corre em média 60 quilômetros por dia no asfalto e na areia dura das praias de Santos, onde nasceu e mora. "Para correr 300 quilômetros, é preciso um trabalho multidisciplinar que combine os aspectos físicos, nutricionais e psicológicos", diz a professora Denise Vaz de Macedo, do laboratório de bioquímica do exercício da Universidade Estadual de Campinas.

A enorme resistência dos supermaratonistas não significa que eles estejam livres das dores musculares e cãibras que acometem qualquer corredor. Depois dos 100 quilômetros, todos começam a sentir dores nas laterais das coxas, que só se agravam com o passar das horas. Além disso, por causa da extensão dos percursos, os atletas enfrentam a desidratação excessiva – não é possível repor toda a água que se perde durante uma prova. Também, passada a barreira dos 100 quilômetros, é comum surgirem tonturas e náuseas. Quando se corre à noite, a queda de temperatura pode fazer com que os músculos se enrijeçam, causando mais dores. Um estudo mostrou que no fim de uma maratona, devido à fadiga, o atleta tem menor concentração de glóbulos brancos, os anticorpos, que um paciente de aids. Imagine o estado de quem corre o equivalente a várias maratonas numa única tirada. "No fim das provas, as dores são tantas que o atleta entra em transe e corre como um zumbi", diz Nunes.

O melhor indicativo que existe sobre os limites do corpo humano são os recordes, sobretudo quando as marcas demoram para ser batidas. Sabe-se que é possível nadar 504 quilômetros, sem interrupção, porque essa foi a marca do esloveno Martin Strel, que bateu o recorde mundial de distância percorrida, em 2001, ao nadar 84 horas seguidas no Rio Danúbio. Nove anos atrás, o americano Shane Hamman ergueu 457,5 quilos na modalidade que consiste em, a partir de uma posição agachada, elevar o corpo mantendo os halteres acima dos ombros. A maioria das pessoas dificilmente consegue levantar pesos iguais à metade de seu próprio peso. No ano passado, o mergulhador francês Loïc Leferme desceu a 171 metros nas águas do mar sem o auxílio de nenhum equipamento. Nessa profundidade, a pressão equivale a dezoito atmosferas. O volume gasoso do corpo se reduz a um terço e os pulmões ficam com metade do tamanho normal. A prova durou três minutos e quinze segundos. Entre tantos recordes que parecem quase impossíveis de ser superados, há um que realmente resiste ao tempo. Em 1962, o pára-quedista russo Eugene Andreev saltou de uma altitude de 25.500 metros – mais que o dobro do teto de vôo de um Boeing 747 –, registrando o recorde de queda livre, que permanece invicto.

No mundo dos atletas de marcas excepcionais, há feitos que desafiam o conhecimento científico. Em 1992, durante a maratona aquática de Saint-Jean, em Quebec, no Canadá, a maior parte dos nadadores chegou ao fim da prova com uma temperatura corporal de 23 graus. Rezam os manuais de medicina que quando a temperatura do corpo se encontra abaixo dos 27 graus a pessoa está tecnicamente morta. Pesquisadores da Universidade de Quebec atribuíram a excepcional resistência dos nadadores ao frio, em grande parte, à determinação em completar a prova. "Racionalmente, não consigo explicar como resistimos", diz o nadador brasileiro Igor de Souza, que participou da prova de Saint-Jean. "O fato é que cada atleta desenvolve um método poderoso de mentalização para competir, e isso faz uma tremenda diferença."

 

Dia e noite, noite e dia...

O que acontece no organismo de um atleta que corre sem parar três dias e três noites, como fez o americano Dean Karnazes

INÍCIO
Dia 21 de outubro de 2004,
quinta-feira, 10 horas da manhã

12 HORAS
Nas primeiras horas, os alvéolos pulmonares e os vasos capilares se dilatam, facilitando a oxigenação dos músculos. O organismo produz endorfina, que aumenta a sensação de bem-estar. A partir da quinta hora, a situação começa a se inverter. Há leve desidratação e o sangue fica mais denso, dificultando a chegada de oxigênio e nutrientes aos músculos. Surgem as primeiras dores, em geral na lateral das coxas.

24 HORAS
A perda excessiva de água e sais minerais precisa ser enfrentada com o consumo de alimentos de fácil digestão, basicamente carboidratos. Sem comida, há o risco de ocorrer a hipoglicemia (queda na taxa de açúcar), que pode levar a tonturas ou desmaios. Devido ao treinamento, o atleta não sente muito os efeitos da noite sem dormir.

36 HORAS
A dor se torna maior em razão do acúmulo de ácido láctico e das microlesões causadas nas fibras musculares pelo esforço e pelo impacto dos pés no solo. O maior desafio é vencer a avassaladora vontade de parar, como se o corpo tivesse decidido que o esforço físico se tornou um risco à sobrevivência.

48 HORAS
O esforço para se manter acordado aumenta o nível do hormônio cortisol, o que mantém a pressão sanguínea elevada e o corpo em estado de alerta. A queda da temperatura à noite pode causar rigidez muscular e cãibras. A combinação de tais desconfortos deixa o corredor irritadiço.

60 HORAS
O excesso de cortisol é devastador para as proteínas musculares, o que contribui para o aumento da dor. Como o atleta sua em abundância para reduzir o calor produzido pelo esforço muscular, a desidratação supera a quantidade de água que seu corpo consegue absorver. A circulação se torna ainda mais lenta para poupar as reservas de líquidos, o que causa palidez no rosto.

75 HORAS
A terceira noite sem dormir é a parte mais difícil, pois todos os sintomas das etapas anteriores se intensificam. Ainda assim, a vontade de chegar e a expectativa de um bom resultado têm o efeito psicológico de aliviar as dores e o cansaço. Nos últimos quilômetros, o atleta recebe uma descarga extra de adrenalina no sangue, o que permite que lance mão dos últimos resíduos de energia e corra até mais rápido.


TÉRMINO
Dia 24 de outubro de 2004,
domingo, 1 hora da tarde

Fonte: doutor Milton Mizumoto

 

Em busca dos limites do corpo

Os resultados em esportes que medem
os extremos da resistência humana


Laszlo Balogh/Reuters

84 horas na água
Por quanto tempo uma pessoa consegue nadar sem parar? Bem, depende do que veste. Usando um traje térmico de neoprene, o esloveno Martin Strel nadou 504 quilômetros durante 84 horas no Rio Danúbio, em 2001. Dois anos antes, a australiana Susie Maroney nadou 190 quilômetros entre a Jamaica e Cuba, em 36 horas, sem usar nadadeiras ou roupas térmicas. O maior risco para um nadador de longa distância é a hipotermia causada pela água fria, pois o atleta não percebe que sua temperatura corporal está caindo. O resultado é uma redução no metabolismo que pode levar à morte.

Lyle Stafford/Reuters


A força dos braços
O maior peso já suportado por um ser humano, de acordo com os registros esportivos, foi o recorde do americano Shane Hamman. Em 1996, numa modalidade em que o atleta parte de uma posição agachada, ele ergueu 457,5 quilos. Equivale a carregar mais de nove sacos de cimento. A maioria das pessoas só consegue levantar pesos iguais à metade de seu próprio corpo.

Uma queda de 25 500 metros
Um salto de pára-quedas é feito, em média, de 4 000 metros de altitude. Em 1962, vestido com roupas semelhantes às de astronauta, o russo Eugene Andreev estabeleceu um recorde que ainda não foi batido. Ele pulou de um balão a 25 500 metros e abriu seu pára-quedas a 1 000 metros do solo. No ponto em que saltou, duas vezes e meia acima do teto de vôo de um Boeing 747, a temperatura é de 56 graus negativos e o ar é rarefeito. Até atingir 15 000 metros, ele desceu em posição vertical, alcançando a velocidade de cerca de 400 quilômetros por hora, superior à de um carro de F1. O francês Michel Fournier prepara-se para tentar quebrar o recorde em maio, saltando de 40 000 metros.

Derry Ian/Katz


8 minutos sem respirar
A maioria das pessoas resiste apenas um minuto e meio sem respirar. O alemão Tom Sietas quebrou o recorde de apnéia estática passando 8m58s com a cabeça dentro da água, há quatro meses. Já o francês Loïc Leferme bateu o recorde mundial de mergulho livre ao descer 171 metros no mar, em novembro do ano passado. Leferme ficou 3m15s submerso, uma enormidade nessas circunstâncias. A tal profundidade, devido à pressão de dezoito atmosferas, o tamanho dos pulmões se reduz à metade e o coração pode chegar a apenas trinta batimentos por minuto. Se algo der errado com o equipamento de retorno à superfície, as chances de resgate são quase nulas.

 

 
 
 
 
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