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Esporte Ele
corre 75 horas sem parar O americano Dean Karnazes
correu três dias e três noites seguidos, uma façanha
que desafia os limites do corpo humano O esporte de alta competição da atualidade
produziu uma questão ainda sem resposta qual é o limite do
corpo humano? O maratonista original, o grego da lenda, morreu de fadiga por ter
corrido 42 quilômetros. O americano Dean Karnazes, cruzando sozinho as planícies
da Califórnia, conseguiu no ano passado correr dez vezes mais em 75 horas.
E agora se prepara para bater o próprio recorde, correndo 480 quilômetros.
Karnazes, 42 anos, é a figura mais conhecida de um universo de distâncias
superlativas, o dos ultramaratonistas. A competição mais comum entre
eles é a de 100 quilômetros. Há também provas em que
correm sem parar durante 24 horas. O grego Yiannis Kouros, campeão mundial
dessa modalidade, percorreu 303 quilômetros nesse espaço de tempo,
em 1997. O corredor paulista Valmir Nunes, recordista pan-americano, é
capaz de correr de uma só tirada, sem parar para dormir, comer, beber água
ou ir ao banheiro, nada menos que 270 quilômetros, a mesma distância
entre Recife e Maceió. "Correr dessa forma não é fácil,
mas tenho curiosidade de saber até que ponto a máquina humana é
capaz de agüentar", declarou recentemente Karnazes.
Roberto Setton  |
| O brasileiro Valmir Nunes, recordista pan-americano:
a distância entre Recife e Maceió em 24 horas |
O corredor americano não sabe até onde vai a capacidade do corpo
humano, mas tem um palpite. "Eu acho que a maior barreira não é
a física, e sim a psicológica", ele diz. "Se acreditarmos que o
limite de nosso corpo pode ir além do que conseguimos até hoje,
realmente conseguiremos superar essa marca." Karnazes começou a correr
aos 30 anos (decidiu mudar de vida no dia do aniversário, pois estava acima
do peso) e está prestes a lançar nos Estados Unidos uma autobiografia,
batizada de O Homem da Ultramaratona. A megacorrida feita em outubro exigiu
que Karnazes se mantivesse em pé, correndo e sem dormir por mais de três
dias. Como ele se sentiu? "Eu fiquei quase louco", disse numa entrevista. "O trajeto
que escolhi era muito montanhoso, e durante a corrida choveu por vinte horas."
Nunes, Kouros e Karnazes fazem parte de uma comunidade de atletas que não
se guiam pelos padrões convencionais da corrida. O desafio deles é
aumentar cada vez mais suas marcas para testar os limites do corpo. Ao contrário
do que se pode supor, não são atletas excepcionalmente dotados.
Apenas possuem características que os habilitam a essas aventuras extremas.
Para começar, recebem um empurrãozinho da genética. Não
podem ser muito altos e fortes como os corredores dos 100 metros olímpicos
caso contrário, nos longos percursos, forçariam muito as
articulações dos membros inferiores e seu corpo ofereceria excessiva
resistência ao ar. Também não podem ser muito magros e de
estatura mediana, como os quenianos que regularmente vencem a prova de São
Silvestre, em São Paulo, pois lhes faltariam músculos para agüentar
tamanho esforço por tanto tempo.
Os ultramaratonistas
precisam ter uma compleição física sólida, com músculos
excepcionalmente resistentes. Para chegarem a essa condição, não
há segredo: perseguem um condicionamento físico perfeito e fazem
treinamentos gradativos a longo prazo traduzindo, correm diariamente distâncias
brutalmente maiores que as que são percorridas por corredores de outras
modalidades. Karnazes chega a fazer 220 quilômetros por semana. Treina sobretudo
de madrugada, pois trabalha durante a semana numa indústria de alimentos
naturais. O brasileiro Valmir Nunes corre em média 60 quilômetros
por dia no asfalto e na areia dura das praias de Santos, onde nasceu e mora. "Para
correr 300 quilômetros, é preciso um trabalho multidisciplinar que
combine os aspectos físicos, nutricionais e psicológicos", diz a
professora Denise Vaz de Macedo, do laboratório de bioquímica do
exercício da Universidade Estadual de Campinas.
A enorme resistência dos supermaratonistas não significa que eles
estejam livres das dores musculares e cãibras que acometem qualquer corredor.
Depois dos 100 quilômetros, todos começam a sentir dores nas laterais
das coxas, que só se agravam com o passar das horas. Além disso,
por causa da extensão dos percursos, os atletas enfrentam a desidratação
excessiva não é possível repor toda a água
que se perde durante uma prova. Também, passada a barreira dos 100 quilômetros,
é comum surgirem tonturas e náuseas. Quando se corre à noite,
a queda de temperatura pode fazer com que os músculos se enrijeçam,
causando mais dores. Um estudo mostrou que no fim de uma maratona, devido à
fadiga, o atleta tem menor concentração de glóbulos brancos,
os anticorpos, que um paciente de aids. Imagine o estado de quem corre o equivalente
a várias maratonas numa única tirada. "No fim das provas, as dores
são tantas que o atleta entra em transe e corre como um zumbi", diz Nunes.
O melhor indicativo que existe sobre os limites
do corpo humano são os recordes, sobretudo quando as marcas demoram para
ser batidas. Sabe-se que é possível nadar 504 quilômetros,
sem interrupção, porque essa foi a marca do esloveno Martin Strel,
que bateu o recorde mundial de distância percorrida, em 2001, ao nadar 84
horas seguidas no Rio Danúbio. Nove anos atrás, o americano Shane
Hamman ergueu 457,5 quilos na modalidade que consiste em, a partir de uma posição
agachada, elevar o corpo mantendo os halteres acima dos ombros. A maioria das
pessoas dificilmente consegue levantar pesos iguais à metade de seu próprio
peso. No ano passado, o mergulhador francês Loïc Leferme desceu a 171
metros nas águas do mar sem o auxílio de nenhum equipamento. Nessa
profundidade, a pressão equivale a dezoito atmosferas. O volume gasoso
do corpo se reduz a um terço e os pulmões ficam com metade do tamanho
normal. A prova durou três minutos e quinze segundos. Entre tantos recordes
que parecem quase impossíveis de ser superados, há um que realmente
resiste ao tempo. Em 1962, o pára-quedista russo Eugene Andreev saltou
de uma altitude de 25.500 metros mais que o dobro do teto de vôo
de um Boeing 747 , registrando o recorde de queda livre, que permanece invicto.
No mundo dos atletas de marcas excepcionais, há
feitos que desafiam o conhecimento científico. Em 1992, durante a maratona
aquática de Saint-Jean, em Quebec, no Canadá, a maior parte dos
nadadores chegou ao fim da prova com uma temperatura corporal de 23 graus. Rezam
os manuais de medicina que quando a temperatura do corpo se encontra abaixo dos
27 graus a pessoa está tecnicamente morta. Pesquisadores da Universidade
de Quebec atribuíram a excepcional resistência dos nadadores ao frio,
em grande parte, à determinação em completar a prova. "Racionalmente,
não consigo explicar como resistimos", diz o nadador brasileiro Igor de
Souza, que participou da prova de Saint-Jean. "O fato é que cada atleta
desenvolve um método poderoso de mentalização para competir,
e isso faz uma tremenda diferença."
| Dia e noite, noite e dia... O
que acontece no organismo de um atleta que corre sem parar três dias e três
noites, como fez o americano Dean Karnazes INÍCIO
Dia 21 de outubro de 2004, quinta-feira, 10 horas da manhã
12 HORAS Nas primeiras horas,
os alvéolos pulmonares e os vasos capilares se dilatam, facilitando a oxigenação
dos músculos. O organismo produz endorfina, que aumenta a sensação
de bem-estar. A partir da quinta hora, a situação começa
a se inverter. Há leve desidratação e o sangue fica mais
denso, dificultando a chegada de oxigênio e nutrientes aos músculos.
Surgem as primeiras dores, em geral na lateral das coxas. 24
HORAS A perda excessiva de água e sais minerais precisa ser enfrentada
com o consumo de alimentos de fácil digestão, basicamente carboidratos.
Sem comida, há o risco de ocorrer a hipoglicemia (queda na taxa de açúcar),
que pode levar a tonturas ou desmaios. Devido ao treinamento, o atleta não
sente muito os efeitos da noite sem dormir. 36
HORAS A dor se torna maior em razão do acúmulo de ácido
láctico e das microlesões causadas nas fibras musculares pelo esforço
e pelo impacto dos pés no solo. O maior desafio é vencer a avassaladora
vontade de parar, como se o corpo tivesse decidido que o esforço físico
se tornou um risco à sobrevivência. 48
HORAS O esforço para se manter acordado aumenta o nível
do hormônio cortisol, o que mantém a pressão sanguínea
elevada e o corpo em estado de alerta. A queda da temperatura à noite pode
causar rigidez muscular e cãibras. A combinação de tais desconfortos
deixa o corredor irritadiço. 60 HORAS
O excesso de cortisol é devastador para as proteínas musculares,
o que contribui para o aumento da dor. Como o atleta sua em abundância para
reduzir o calor produzido pelo esforço muscular, a desidratação
supera a quantidade de água que seu corpo consegue absorver. A circulação
se torna ainda mais lenta para poupar as reservas de líquidos, o que causa
palidez no rosto. 75 HORAS A terceira
noite sem dormir é a parte mais difícil, pois todos os sintomas
das etapas anteriores se intensificam. Ainda assim, a vontade de chegar e a expectativa
de um bom resultado têm o efeito psicológico de aliviar as dores
e o cansaço. Nos últimos quilômetros, o atleta recebe uma
descarga extra de adrenalina no sangue, o que permite que lance mão dos
últimos resíduos de energia e corra até mais rápido.
TÉRMINO
Dia 24 de outubro de 2004, domingo, 1 hora da tarde
Fonte:
doutor Milton Mizumoto | |
| Em busca dos limites do corpo Os
resultados em esportes que medem os extremos da resistência humana
Laszlo Balogh/Reuters  |
84 horas na água Por quanto
tempo uma pessoa consegue nadar sem parar? Bem, depende do que veste. Usando um
traje térmico de neoprene, o esloveno Martin Strel nadou
504 quilômetros durante 84 horas no Rio Danúbio, em 2001. Dois anos
antes, a australiana Susie Maroney nadou 190 quilômetros entre a Jamaica
e Cuba, em 36 horas, sem usar nadadeiras ou roupas térmicas. O maior risco
para um nadador de longa distância é a hipotermia causada pela água
fria, pois o atleta não percebe que sua temperatura corporal está
caindo. O resultado é uma redução no metabolismo que pode
levar à morte.
Lyle Stafford/Reuters  |
A força dos braços
O maior peso já suportado por um ser humano, de acordo com os registros
esportivos, foi o recorde do americano Shane Hamman. Em 1996, numa
modalidade em que o atleta parte de uma posição agachada, ele ergueu
457,5 quilos. Equivale a carregar mais de nove sacos de cimento. A maioria das
pessoas só consegue levantar pesos iguais à metade de seu próprio
corpo.
Uma queda de 25 500 metros
Um salto de pára-quedas é feito, em média, de 4 000 metros
de altitude. Em 1962, vestido com roupas semelhantes às de astronauta,
o russo Eugene Andreev estabeleceu um recorde que ainda não foi batido.
Ele pulou de um balão a 25 500 metros e abriu seu pára-quedas a
1 000 metros do solo. No ponto em que saltou, duas vezes e meia acima do teto
de vôo de um Boeing 747, a temperatura é de 56 graus negativos e
o ar é rarefeito. Até atingir 15 000 metros, ele desceu em posição
vertical, alcançando a velocidade de cerca de 400 quilômetros por
hora, superior à de um carro de F1. O francês Michel Fournier
prepara-se para tentar quebrar o recorde em maio, saltando de 40 000 metros.
Derry Ian/Katz  |
8 minutos sem respirar A maioria
das pessoas resiste apenas um minuto e meio sem respirar. O alemão Tom
Sietas quebrou o recorde de apnéia estática passando 8m58s com a
cabeça dentro da água, há quatro meses. Já o francês
Loïc Leferme bateu o recorde mundial de mergulho livre ao descer 171
metros no mar, em novembro do ano passado. Leferme ficou 3m15s submerso, uma enormidade
nessas circunstâncias. A tal profundidade, devido à pressão
de dezoito atmosferas, o tamanho dos pulmões se reduz à metade e
o coração pode chegar a apenas trinta batimentos por minuto. Se
algo der errado com o equipamento de retorno à superfície, as chances
de resgate são quase nulas.
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