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Economia e Negócios Ele
é que caiu O real não ficou forte;
o dólar é que piorou. Demais moedas incentivam as exportações
 Carina
Nucci
O dólar já caiu 23% em relação
ao real desde dezembro de 2002. Com a queda, vieram a ira e a pressão dos
exportadores por intervenção do governo no mercado de câmbio.
Segundo eles, o dólar fraco, abaixo de 3 reais, torna os produtos brasileiros
menos competitivos lá fora como resultado, exportações
declinantes ameaçariam os superávits comerciais que estão
reduzindo a vulnerabilidade da economia brasileira. A tese faria todo o sentido
não fosse um fato nada desprezível: o dólar já desceu
aquém do cabalístico patamar de 3 reais e, mesmo assim, o saldo
não parou de crescer. No mês passado, o país ultrapassou pela
primeira vez na história a marca de 100 bilhões de dólares
exportados no período de doze meses. Além disso, o Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) elevou a previsão de superávit
para este ano de 25 bilhões para 28 bilhões de dólares.
Se o dólar caro sempre foi apontado como o responsável pelo crescimento
das exportações, por que as vendas externas não caíram
quando o real subiu? Primeiro, porque o Brasil exporta mais para a Europa, que
paga em euro. E a moeda européia caiu apenas 1,9% diante do real nos últimos
dois anos. Países da América Latina e da Ásia também
são grandes consumidores de produtos brasileiros e suas moedas não
se enfraqueceram ante o real. Outro motivo que impulsiona a balança é
que o preço de produtos básicos exportados pelo Brasil subiu 17,5%
em 2004. Neste ano não deve ser diferente. O aumento de 71,5% do preço
do minério de ferro produzido pela Companhia Vale do Rio Doce vai elevar
o saldo comercial brasileiro em 3,5 bilhões de dólares. No setor
de papel e celulose, a queda do dólar foi compensada pela elevação
de 15% do preço do produto no mercado externo. A indústria de autopeças
também não sentiu prejuízos com a queda do dólar.
Ela avisou que as exportações já cresceram 11% neste ano.
Alguns setores foram seriamente prejudicados, é verdade. É o caso
da indústria de calçados, que envia a maior parte de suas mercadorias
aos Estados Unidos. O setor diz já ter demitido 4.000 funcionários
e pode colocar mais gente na rua neste ano. Os fabricantes de suco de laranja
estimam perda de 900 milhões de reais nesta safra.
A queda do dólar é um fenômeno mundial. Em relação
ao euro, a moeda já perdeu 21% de seu valor desde dezembro de 2002. O motivo
é que os americanos importam muito mais do que exportam. Todo mês,
eles compram do exterior 55 bilhões de dólares acima do que vendem
ao mundo. É uma vez e meia o superávit comercial brasileiro de 2004.
Aqui o real cresceu com a ajuda das exportações, que, nos últimos
quatro anos, elevaram a oferta de dólares no país. Juros baixos
lá fora também atraíram investidores estrangeiros para cá.
O Banco Central tem aproveitado a fase do dólar barato para pagar boa parte
da dívida interna corrigida pela moeda americana. Além disso, aumentou
suas reservas internacionais. A partir desta semana, regras novas darão
aos exportadores prazo maior para trocar seus dólares no momento mais favorável.
Tudo isso fortalece a economia brasileira e desburocratiza as exportações.
O país lucra com a política que preserva o compromisso com o câmbio
flutuante. |