Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Economia e Negócios
Ele é que caiu

O real não ficou forte; o dólar é que piorou.
Demais moedas incentivam as exportações


Carina Nucci

O dólar já caiu 23% em relação ao real desde dezembro de 2002. Com a queda, vieram a ira e a pressão dos exportadores por intervenção do governo no mercado de câmbio. Segundo eles, o dólar fraco, abaixo de 3 reais, torna os produtos brasileiros menos competitivos lá fora – como resultado, exportações declinantes ameaçariam os superávits comerciais que estão reduzindo a vulnerabilidade da economia brasileira. A tese faria todo o sentido não fosse um fato nada desprezível: o dólar já desceu aquém do cabalístico patamar de 3 reais e, mesmo assim, o saldo não parou de crescer. No mês passado, o país ultrapassou pela primeira vez na história a marca de 100 bilhões de dólares exportados no período de doze meses. Além disso, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) elevou a previsão de superávit para este ano de 25 bilhões para 28 bilhões de dólares.

Se o dólar caro sempre foi apontado como o responsável pelo crescimento das exportações, por que as vendas externas não caíram quando o real subiu? Primeiro, porque o Brasil exporta mais para a Europa, que paga em euro. E a moeda européia caiu apenas 1,9% diante do real nos últimos dois anos. Países da América Latina e da Ásia também são grandes consumidores de produtos brasileiros e suas moedas não se enfraqueceram ante o real. Outro motivo que impulsiona a balança é que o preço de produtos básicos exportados pelo Brasil subiu 17,5% em 2004. Neste ano não deve ser diferente. O aumento de 71,5% do preço do minério de ferro produzido pela Companhia Vale do Rio Doce vai elevar o saldo comercial brasileiro em 3,5 bilhões de dólares. No setor de papel e celulose, a queda do dólar foi compensada pela elevação de 15% do preço do produto no mercado externo. A indústria de autopeças também não sentiu prejuízos com a queda do dólar. Ela avisou que as exportações já cresceram 11% neste ano. Alguns setores foram seriamente prejudicados, é verdade. É o caso da indústria de calçados, que envia a maior parte de suas mercadorias aos Estados Unidos. O setor diz já ter demitido 4.000 funcionários e pode colocar mais gente na rua neste ano. Os fabricantes de suco de laranja estimam perda de 900 milhões de reais nesta safra.

A queda do dólar é um fenômeno mundial. Em relação ao euro, a moeda já perdeu 21% de seu valor desde dezembro de 2002. O motivo é que os americanos importam muito mais do que exportam. Todo mês, eles compram do exterior 55 bilhões de dólares acima do que vendem ao mundo. É uma vez e meia o superávit comercial brasileiro de 2004. Aqui o real cresceu com a ajuda das exportações, que, nos últimos quatro anos, elevaram a oferta de dólares no país. Juros baixos lá fora também atraíram investidores estrangeiros para cá. O Banco Central tem aproveitado a fase do dólar barato para pagar boa parte da dívida interna corrigida pela moeda americana. Além disso, aumentou suas reservas internacionais. A partir desta semana, regras novas darão aos exportadores prazo maior para trocar seus dólares no momento mais favorável. Tudo isso fortalece a economia brasileira e desburocratiza as exportações. O país lucra com a política que preserva o compromisso com o câmbio flutuante.

 

 

 
 
 
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