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Economia e Negócios As
novas rotas do lucro Guerra de tarifas realça
as vantagens do modelo de atuação das empresas aéreas
de baixo custo 
O setor aéreo brasileiro saiu da lengalenga dos pedidos
de favores ao governo e lançou-se numa guerra de tarifas na semana passada.
O golpe inicial foi da Gol, que anunciou redução de até 56%
no preço de alguns trechos. TAM e Varig entraram no jogo e divulgaram promoções
especiais de Páscoa. Há anos sofrendo com serviços aéreos
deteriorados e preços salgados, os consumidores reagiram com euforia. Aeroportos
ficaram lotados, e a venda de passagens triplicou. Os sites das empresas na internet
logo se revelaram insuficientes para atender a tanta demanda. Saíram do
ar, deixando muitos passageiros irritados. A guerra
de tarifas traz algumas lições. A primeira é que os brasileiros
não só apreciam viagens de avião, como adoram qualquer indício
(raro) de competição no setor. Não fosse pela resistência
de algumas empresas aéreas, acostumadas à proteção
do Estado, a concorrência deveria ter se estabelecido no país em
1992, quando começou a reestruturação e a liberalização
do setor aéreo no Brasil. Ciente desse atraso, o ministro da Fazenda, Antonio
Palloci, cutucou as companhias de aviação. "Temos alguns setores
que têm medo da concorrência, e isso é um problema do setor
aéreo", disse. Outra lição
dessa guerra de preços é que, na disputa por consumidores, algumas
empresas aéreas chegam antes porque são mais "leves". O que permitiu
à Gol reduzir preços (e não se limitar a descontos de Páscoa)
foi justamente seu modelo de negócio baseado em custos baixíssimos.
A prática, mais conhecida como low cost, low fare, teve início nos
Estados Unidos, nos anos 70, e permite cobrar tarifas reduzidas. Seus adeptos
vêm ganhando o espaço das companhias tradicionais em todo o mundo.
A Ryanair, a maior empresa aérea do ramo
na Europa, começou em 1985 com apenas uma aeronave fazendo o trajeto de
Waterford, na Irlanda, para o Gatwick, em Londres. Nos últimos dez anos,
ela saltou de 700 000 passageiros transportados por ano para mais de 27 milhões
e pretende dobrar esse número até 2012. Neste ano, a companhia encomendou
setenta aviões Boeing 737-800, além da opção de compra
de mais setenta aeronaves. Hoje, a Ryanair voa para dezenove países europeus.
Segundo um relatório do Congresso americano
sobre a crise da aviação que atingiu os EUA com os atentados de
11 de setembro, as empresas de baixo custo aumentaram o total de passageiros transportados
de 79,8 milhões em 1998 para 117 milhões em 2003. No mesmo período,
as companhias tradicionais viram o número de passageiros cair de 242 milhões
para 231 milhões. Um dos segredos dessas
empresas para diminuir os custos está na homogeneização da
frota de aviões. No Brasil, por exemplo, a Gol trabalha com um único
tipo de aeronave. Assim, economiza cerca de 60% na manutenção de
um único aparelho, em comparação com a concorrência.
Outro segredo é não servir refeições quentes. Por
oferecer apenas lanches frugais, a Gol pôde adicionar até vinte assentos
no lugar da cozinha do avião. E, justamente por não servir refeições,
ganha agilidade na limpeza da aeronave, o que faz com que cada avião permaneça
menos tempo em solo. "Avião no solo é prejuízo. E a Gol consegue
manter suas aeronaves por mais tempo no ar do que todas as outras", diz Fábio
Zagatti, analista da HSBC Corretora. Hoje, cada aeronave da Gol permanece, em
média, treze horas voando por dia. As da TAM e as da Varig ficam dez e
nove horas, respectivamente. Outra vantagem das empresas de baixo custo está
na preferência pela venda on-line de passagens. Em 2004, a Gol comercializou
80% das operações pela internet. Já a TAM vendeu apenas 8%
das passagens por seu website. David
Ryan/The New York Times
 | | Interior
de avião da JetBlue nos EUA: serviços caprichados para competir com as grandes
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Curiosamente, os avanços da Gol
ainda não se traduziram em bons índices de pontualidade, regularidade
e eficiência operacional, que são medidos pelo Departamento de Aviação
Civil (DAC). Em 2004, a companhia ficou atrás da TAM e da Varig em todos
os quesitos. "Eu atribuiria esses resultados à falta de aeronaves para
atender à crescente demanda por vôos da Gol", analisa Zagatti.
Há também quem diga que a Gol não se enquadra nas melhores
práticas das empresas de baixo custo. O presidente da JetBlue, David Neeleman,
uma das maiores companhias aéreas de baixo custo dos EUA, que lucrou 47
milhões de dólares em 2004, disse recentemente que a Gol poderia
reduzir ainda mais suas tarifas. Ele comparou os preços das passagens cobradas
pela JetBlue e pela Gol. Segundo ele, para um trecho de 2.000 quilômetros,
a JetBlue cobra em média 260 reais, ao passo que a Gol, quase o mesmo valor
(235 reais) para um trecho de 660 quilômetros. Para Neelman, isso explica
o lucro líquido de 131 milhões de dólares da Gol no ano passado.
Número bem superior aos 47 milhões da JetBlue.
Seja como for, a Gol colheu ótimos frutos em seus quatro anos de história.
Na semana passada, a companhia anunciou um salto nos lucros de 113 milhões
de reais em 2003 para 317,5 milhões no ano passado. Isso a coloca entre
as empresas de baixo custo mais rentáveis do mundo. Comparativamente, Varig
e Vasp continuam atoladas em dívidas que beiram 10 bilhões de reais.
Na semana passada, os deputados da Comissão de Desenvolvimento Econômico
e Relações Exteriores decidiram encaminhar ao Executivo um pedido
de intervenção para que a Varig possa ser recuperada (com ajuda
oficial) e volte a funcionar normalmente. Outra tradicional do setor, a Vasp,
também enfrentou problemas. Na última quinta-feira, a Justiça
do Trabalho de São Paulo anunciou a intervenção administrativa
na empresa. Segundo o Ministério Público do Trabalho, o passivo
trabalhista da companhia de Wagner Canhedo com seus ex-funcionários chega
a 75 milhões de reais. Os analistas elogiam
a atuação da Gol no Brasil, mas não acreditam que o futuro
da aviação será baseado na estratégia desse segmento.
Os clientes das empresas tradicionais têm a seu dispor uma gama de vantagens
que as companhias de baixo custo não podem oferecer. Um exemplo é
o programa de milhagem, que interessa aos clientes executivos que viajam constantemente,
além dos serviços de primeira classe e o atendimento personalizado.
Outro dilema das empresas de custo baixo é que, quanto maiores e mais antigas
ficam, mais se assemelham às suas concorrentes tradicionais. Nos EUA, por
exemplo, a JetBlue tem melhorado alguns serviços de bordo para afastar
o rótulo de "avarentas" que acompanha as empresas adeptas de seu modelo
de negócio. Enquanto os preços se mantiverem baixos, os consumidores
agradecem. No Brasil e no mundo. 
Mais leves que o ar Companhias
aéreas que operam com custos e preços baixos surgiram nos EUA com
a Southwest, na década de 70. Nos anos 90, elas se espalharam pelo mundo
e revolucionaram a aviação comercial ao abocanhar fatias de mercado
das empresas tradicionais. Os segredos de suas
tarifas baratas são: 1.
Trabalham com um número restrito de aeronaves, o que reduz em até
60% os custos de manutenção 2.
Não servem pratos quentes nos vôos. Em vez de cozinha, seus
aviões podem ter até vinte assentos extras
3. Dispõem de menos empregados em solo
porque vendem mais passagens pela internet
4. Por serem mais novas, elas não carregam
custos trabalhistas e judiciais | |
O peso das tradicionais 
A desregulamentação do setor aéreo e
os atentados terroristas de 2001 trouxeram dificuldades às empresas mais
antigas 1. Quando
o mercado deixou de ser regulamentado, no fim da década de 70, elas não
souberam enfrentar a competição 2.
No Brasil, planos econômicos as obrigaram a operar no vermelho por vários
períodos 3.
Por manterem ao mesmo tempo trechos curtos e rotas longas, operam com aviões
diferentes, o que acarreta maiores custos de manutenção
4. Não usaram, com a mesma rapidez que
as companhias de baixo custo, as novas tecnologias para modernizar seu sistema
de vendas e de operação | | |