Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Internacional
O contra-ataque dos turbantes

Xiitas do Hezbollah mostram sua força no
Líbano com megamanifestação a favor da Síria

 
Ramzi Haidar/AFP
Meio milhão de pessoas no protesto do Hezbollah: "O Líbano não é a Ucrânia"

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Há duas semanas, milhares de libaneses tomaram as ruas centrais de Beirute para exigir a renúncia do governo imposto pela Síria, a própria retirada das tropas sírias estacionadas no país desde 1976 e justiça para os assassinos de Rafik Hariri, cuja morte num atentado tem todo o jeito de ter sido arquitetada em Damasco. O presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, saudou as manifestações – que passaram a ser chamadas de Revolução dos Cedros – como uma demonstração de que, finalmente, a democracia estava em marcha no Oriente Médio. A comemoração terá sido prematura? A resposta começou a ser formulada nas ruas de Beirute, na semana passada. Agitando bandeiras, meio milhão de libaneses tomou as mesmas ruas centrais da cidade da manifestação anterior, mas dessa vez para demonstrar apoio à Síria e detratar Israel e os Estados Unidos. A passeata – a maior da história recente do país – foi convocada pelo Hezbollah, que recebe financiamento do Irã e é popular entre os xiitas libaneses por ter ajudado a expulsar as tropas israelenses do sul do país, em 2000.

Mahmoud Tawl/AP
Karami, reconduzido ao poder: a Síria recupera sua influência


Aproveitando o cenário propício armado pelo grupo xiita, o presidente libanês, Emile Lahoud, reconduziu Omar Karami à chefia do governo incumbindo-o de governar até a formação de um novo gabinete pelo Congresso. O Líbano deu um passo atrás. Mas as coisas não voltaram ao ponto em que eram antes. A Síria começou a retirar suas tropas do país, como exige uma resolução da ONU bancada pelos Estados Unidos e pela União Européia. Por outro lado, Damasco demonstrou que tem amigos no Líbano. A contra-revolução foi um ato dos xiitas, que são a maioria entre os muçulmanos do país. A manifestação anti-Síria tinha mobilizado cristãos, drusos e muçulmanos sunitas, as três outras comunidades que compõem o complicado mosaico étnico libanês. Hassan Nasrallah, chefe do Hezbollah, declarou que o Líbano não deve ser confundido com a Ucrânia. Que jamais irá fazer a paz com Israel. Na verdade, o projeto da milícia é a destruição do Estado judeu, objetivo que os próprios palestinos já abandonaram. Esse tipo de impasse, com as várias comunidades colocadas em posições antagônicas a respeito do que querem para o Líbano, foi o estopim da guerra civil nos anos 70. Morreram 150.000 libaneses e as feridas ainda estão abertas, apesar do acordo de paz assinado no início dos anos 90.

O dilema do Líbano não é entre ditadura e democracia. É entre duas visões de mundo antagônicas. Pode mergulhar no pan-arabismo proposto pela Síria, que viria acompanhado por fanatismo xiita ao estilo iraniano. A opção é se tornar uma sociedade aberta, moderna e integrada à economia global. É bem possível que, para evitar maior sofrimento, a maioria da população prefira permanecer a meio caminho, do jeito que tem vivido nos últimos quinze anos. Na semana passada, de acordo com o jornal The New York Times, o governo dos Estados Unidos já tinha chegado à conclusão de que é necessário rever sua política em relação ao Hezbollah. Oficialmente, Washington o considera um grupo terrorista. Nesta nova visão, ele seria aceito por seu valor de face na geopolítica libanesa. "Os principais envolvidos estão subestimando o Hezbollah", afirmou um diplomata ao jornal. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, comentando a reportagem em sua visita ao México, negou que a posição norte-americana tivesse mudado, mas só por via das dúvidas evitou usar o termo "terroristas" dessa vez.

 
 
 
 
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