|
|
Bolívia
Uma conquista no grito
Com ameaça de renúncia, presidente
da Bolívia ganha apoio para governar
Ali Burafi/AFP
 |
| Mesa, acima e ao lado, festeja
em La Paz: pacto de governabilidade |
Marcos Brindicci/Reuters
 |
Há dezessete meses no cargo, Carlos
Mesa é um presidente encurralado. A Bolívia vive paralisada
por barricadas erguidas nas ruas e estradas por grupos esquerdistas,
em protesto generalizado contra as mazelas do país mais pobre
da América do Sul. No Legislativo, seu programa de reformas
também foi bloqueado. Pressionado por todos os lados, ele
decidiu dar um basta e anunciou que, se o Congresso e os bolivianos
não o deixassem governar, iria renunciar. Jânio Quadros
tentou sem sucesso a mesma manobra teatral no Brasil, em 1961. Com
o presidente boliviano a tática funcionou melhor. Milhares
de bolivianos saíram às ruas para apoiar Mesa e o
Congresso rejeitou seu pedido de renúncia, na semana passada.
Os deputados aceitaram também um pacto cujo objetivo é
dar condições a Mesa para governar até o fim
de seu mandato, em 2007. Se vai conseguir é uma questão
em aberto, pois a oposição mais extremada, aquela
que bloqueia estradas, não quer ouvir falar em trégua.
As instituições da Bolívia
são frágeis, os políticos não se entendem
e a desigualdade social é gritante pelo menos 65%
dos seus 8,7 milhões de habitantes vivem na miséria.
O país detém a segunda maior reserva de gás
natural da América Latina mas os bolivianos não
se põem em acordo sobre a melhor forma de explorar o produto
que representa a única chance de inserir a Bolívia
no mundo globalizado. Sem esse entendimento, não há
como aproveitar a galinha dos ovos de ouro para ganhar divisas e
atrair investimentos externos. Há um ano e meio, uma revolta
popular contra a exportação do gás natural
por um porto do Chile, inimigo histórico devido a uma guerra
do século XIX, deixou sessenta mortos e acabou provocando
a renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.
Os protestos de rua prosseguiram na Presidência
de Carlos Mesa, o sucessor de Lozada. Além de bloquearem
estradas exigindo a nacionalização da produção
do gás, os bolivianos fizeram greve por melhores salários,
para reverter a privatização (e a tarifa) do serviço
de água, contra o aumento do preço da gasolina e a
favor de eleição direta para governador nas províncias,
entre outros temas. O pacto do presidente com o Congresso prevê
uma nova lei energética, que tentará conciliar a demanda
popular por melhor distribuição de renda com a necessidade
de acumular divisas. Propõe também um referendo para
saber se as províncias devem ou não eleger seus governadores
e, por fim, trata da necessidade de formar uma assembléia
constituinte. Em tese, a nova Constituição trataria
melhor os índios, que são maioria mas se sentem cidadãos
de segunda classe.
Se essas providências vão prosperar
depende muito do deputado Evo Morales, cujo modelo político
é o populista Hugo Chávez, da Venezuela. Ex-presidente
do sindicato de produtores de coca, Morales teve ascensão
meteórica na política boliviana. De origem pobre e
rural, ele pertence à etnia indígena aimará,
a segunda em número. Morales, o segundo colocado nas eleições
presidenciais de 2002, liderou os protestos de rua que derrubaram
Lozada. É dele o projeto de lei para aumentar para 50% os
royalties pagos pelas empresas estrangeiras que exploram o gás
natural, produto responsável por um terço das exportações
bolivianas. Duas vezes superior ao cobrado no mercado internacional,
o imposto pode inviabilizar o negócio para as companhias
estrangeiras que operam no setor, entre elas a Petrobras. "A disputa
mostra a incrível capacidade da Bolívia de desperdiçar
as oportunidades de modernizar sua economia", disse a VEJA o economista
boliviano Roberto Laserna, da Universidade de San Simón,
em Cochabamba.
O trauma do combate à hiperinflação
é apontado como uma das causas da resistência à
modernização da economia. Para debelar a inflação
de 25.000% nos anos 80, o governo abriu a economia, privatizou estatais
e atraiu investimentos externos para explorar o gás e outras
riquezas naturais, como o estanho. A inflação foi
controlada, mas as reformas agravaram o desemprego e a pobreza.
Para piorar, o governo cedeu às pressões americanas
e deu início a um programa de combate às plantações
de coca. O objetivo era coibir a venda da planta aos produtores
de cocaína da Colômbia. Acontece que só uma
parte da produção ia para o narcotráfico. Desde
os tempos dos incas, os bolivianos mascam folhas de coca para enganar
a fome ou as usam como infusão para chás. A campanha
tirou o sustento de 200.000 pequenos agricultores, sem criar uma
alternativa viável para os moradores do campo. São
esses cocaleiros desempregados que formam hoje a massa de desesperados
que Evo Morales usa para bloquear as estradas da Bolívia.
|
A Bolívia que dá certo
A Província de Santa Cruz é
uma ilha de prosperidade no mar de pobreza boliviano.
Com um clima propício à agricultura, um
solo fértil e repleto de riquezas minerais, a
província desenvolveu um setor agrícola
dinâmico e boa infra-estrutura para a extração
de gás e petróleo. Graças a uma
pauta de exportações diversificada
que inclui soja, algodão, frutas, petróleo
e gás , Santa Cruz é responsável
por mais da metade das vendas externas da Bolívia
e por cerca de 30% do PIB boliviano. Com 25% da população
total do país, a região tem a sensação
de estar levando a Bolívia nas costas. Sem direito
de eleger os próprios governantes ou de tomar
decisões sobre impostos, as províncias
bolivianas têm de engolir governadores nomeados
por La Paz. Nessas circunstâncias, como seria
de esperar, projetos de autonomia e até de separatismo
começam a ganhar força. No início
do ano uma manifestação por autonomia
reuniu 200.000 pessoas em Santa Cruz de la Sierra, a
capital da província. Dali saiu uma Assembléia
Provisória Autônoma, eleita por voto popular
e encabeçada pelo empresário Rubén
Costas. Ele também representa o movimento Nação
Camba, cuja principal bandeira, até pouco tempo
atrás, era a separação da parte
oriental da Bolívia.
|
|
|