Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Ambiente
Nordeste?
Não. Rio Grande do Sul

A falta de chuvas quebra a safra,
abate a economia e derruba o ânimo
dos agricultores em quatro estados


José Edward


Fotos Neco Varella
Fundo do açude na propriedade do agricultor Idelio Martini, no município gaúcho de Aratiba


A população e particularmente os agricultores de quatro estados, onde se localizam alguns dos principais pólos de produção de alimentos, estão passando por um drama de cores nordestinas. A seca na região, que começou brandamente no ano passado, agora é uma catástrofe. Mais de 500 municípios do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de Mato Grosso do Sul se encontram em estado de emergência por causa da estiagem. O racionamento já atinge quase 2 milhões de pessoas. Pelo menos 13 milhões de toneladas de produtos agrícolas estão perdidas – o equivalente a 10% da safra nacional esperada em 2005. "Essa seca é a pior das últimas seis décadas na região", diz o consultor Ronaldo Coutinho, diretor da empresa Climaterra. Só existem registros datados de 1820 dando conta de calamidades maiores do que as da atual seca e as da histórica estiagem de 1943. Desde então, a população e a produção local se multiplicaram várias vezes. "Por isso o impacto econômico e social é uma calamidade nunca vista", afirma o governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, o estado mais afetado.

Dezenas de cidades gaúchas já recorrem a caminhões-pipa abastecidos em municípios vizinhos ou em poços artesianos recém-abertos. O rodízio de água é uma novidade que se espalhou pelo estado. Em Erechim, a 390 quilômetros de Porto Alegre, o corte do abastecimento pela rede pública dura dezoito horas em cada bairro. O calor também é intenso. Na semana passada, a área da capital teve temperaturas além dos 41 graus – as mais altas dos últimos vinte anos. Focos de incêndio aparecem por todo lado. Houve 590 nos dois primeiros meses deste ano, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. Nas plantações, metade da soja e do milho, mais de um terço do feijão, das maçãs e das uvas e 10% do arroz estão perdidos. Também houve quebra de mais de 40 milhões de litros na produção de leite.

O produtor Cristiano Pierdoná planejava colher 3.000 quilos de soja em cada um dos 300 hectares que plantou em Passo Fundo. Já se dá por contente se alcançar um terço da meta. "Em algumas áreas, nem compensa usar a máquina para tentar colher o pouco que se salvou", ele diz. Essa situação produz um efeito em cascata. A venda de equipamentos agrícolas, por exemplo, reduziu-se nos últimos meses à metade do que foi no ano passado. Há quem tenha seguro, nas grandes fazendas, ou garantia de renda estabelecida pelos financiamentos do Banco do Brasil, nas propriedades familiares. Haverá, também, ajuda do governo, para os outros. Mas essas soluções acodem os produtores, não as economias locais nem a nacional, dependentes da safra. Além das queixas contra São Pedro, existem muitas contra os institutos de meteorologia. Órgãos públicos, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e empresas privadas, como a paulista Somar Meteorologia, garantiram que choveria dentro da média neste verão. "Fizemos um alto investimento acreditando que a safra seria boa, mas caímos do cavalo", reclama a engenheira agrônoma gaúcha Celi Weber, cuja família perdeu mais da metade da lavoura de 1.800 hectares de soja e milho.

Os especialistas admitem o erro. O principal motivo, segundo eles, é o fato de os efeitos do fenômeno conhecido como El Niño não terem atingido a região como em anos anteriores. "Nossas informações basearam-se em dados de institutos internacionais, que previam um El Niño fraco mas atuante no sul do país", diz o chefe do Oitavo Distrito do Inmet, Solismar Prestes. Para complicar, havia baixo estoque de água na região, porque o ano passado também foi fraco em chuvas, e as massas úmidas de ar da Amazônia, que normalmente rumam para o Sul, pararam no centro do país. O meteorologista Eugênio Hackbart, da Estação de Climatologia Urbana de São Leopoldo, uma das únicas agências que previram a possibilidade de seca, afirma que a estiagem deverá se prolongar pelo menos até o fim do primeiro semestre.

 

Os números da seca

558 municípios em situação de emergência em quatro estados  

1,7 milhão de pessoas submetidas a racionamento de água em 112 municípios  

7,5 bilhões de reais de prejuízo nas lavouras, granjas e currais  

13 milhões de toneladas de produtos agrícolas perdidas*


*Estimativa relativa à colheita prevista

 
 
 
 
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