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Ambiente Nordeste?
Não. Rio Grande do Sul A falta de chuvas quebra
a safra, abate a economia e derruba o ânimo dos agricultores em
quatro estados  José
Edward
Fotos
Neco Varella
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do açude na propriedade do agricultor Idelio Martini, no município gaúcho de Aratiba
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A população e particularmente
os agricultores de quatro estados, onde se localizam alguns dos principais pólos
de produção de alimentos, estão passando por um drama de
cores nordestinas. A seca na região, que começou brandamente no
ano passado, agora é uma catástrofe. Mais de 500 municípios
do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de Mato Grosso do
Sul se encontram em estado de emergência por causa da estiagem. O racionamento
já atinge quase 2 milhões de pessoas. Pelo menos 13 milhões
de toneladas de produtos agrícolas estão perdidas o equivalente
a 10% da safra nacional esperada em 2005. "Essa seca é a pior das últimas
seis décadas na região", diz o consultor Ronaldo Coutinho, diretor
da empresa Climaterra. Só existem registros datados de 1820 dando conta
de calamidades maiores do que as da atual seca e as da histórica estiagem
de 1943. Desde então, a população e a produção
local se multiplicaram várias vezes. "Por isso o impacto econômico
e social é uma calamidade nunca vista", afirma o governador Germano Rigotto,
do Rio Grande do Sul, o estado mais afetado. Dezenas
de cidades gaúchas já recorrem a caminhões-pipa abastecidos
em municípios vizinhos ou em poços artesianos recém-abertos.
O rodízio de água é uma novidade que se espalhou pelo estado.
Em Erechim, a 390 quilômetros de Porto Alegre, o corte do abastecimento
pela rede pública dura dezoito horas em cada bairro. O calor também
é intenso. Na semana passada, a área da capital teve temperaturas
além dos 41 graus as mais altas dos últimos vinte anos. Focos
de incêndio aparecem por todo lado. Houve 590 nos dois primeiros meses deste
ano, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. Nas
plantações, metade da soja e do milho, mais de um terço do
feijão, das maçãs e das uvas e 10% do arroz estão
perdidos. Também houve quebra de mais de 40 milhões de litros na
produção de leite. O produtor Cristiano
Pierdoná planejava colher 3.000 quilos de soja em cada um dos 300 hectares
que plantou em Passo Fundo. Já se dá por contente se alcançar
um terço da meta. "Em algumas áreas, nem compensa usar a máquina
para tentar colher o pouco que se salvou", ele diz. Essa situação
produz um efeito em cascata. A venda de equipamentos agrícolas, por exemplo,
reduziu-se nos últimos meses à metade do que foi no ano passado.
Há quem tenha seguro, nas grandes fazendas, ou garantia de renda estabelecida
pelos financiamentos do Banco do Brasil, nas propriedades familiares. Haverá,
também, ajuda do governo, para os outros. Mas essas soluções
acodem os produtores, não as economias locais nem a nacional, dependentes
da safra. Além das queixas contra São Pedro, existem muitas contra
os institutos de meteorologia. Órgãos públicos, como o Instituto
Nacional de Meteorologia (Inmet), e empresas privadas, como a paulista Somar Meteorologia,
garantiram que choveria dentro da média neste verão. "Fizemos um
alto investimento acreditando que a safra seria boa, mas caímos do cavalo",
reclama a engenheira agrônoma gaúcha Celi Weber, cuja família
perdeu mais da metade da lavoura de 1.800 hectares de soja e milho.
Os especialistas admitem o erro. O principal motivo, segundo eles, é o
fato de os efeitos do fenômeno conhecido como El Niño não
terem atingido a região como em anos anteriores. "Nossas informações
basearam-se em dados de institutos internacionais, que previam um El Niño
fraco mas atuante no sul do país", diz o chefe do Oitavo Distrito do Inmet,
Solismar Prestes. Para complicar, havia baixo estoque de água na região,
porque o ano passado também foi fraco em chuvas, e as massas úmidas
de ar da Amazônia, que normalmente rumam para o Sul, pararam no centro do
país. O meteorologista Eugênio Hackbart, da Estação
de Climatologia Urbana de São Leopoldo, uma das únicas agências
que previram a possibilidade de seca, afirma que a estiagem deverá se prolongar
pelo menos até o fim do primeiro semestre.
Os números da seca •
558 municípios em situação
de emergência em quatro estados •
1,7 milhão de pessoas submetidas a racionamento
de água em 112 municípios
• 7,5 bilhões
de reais de prejuízo nas lavouras, granjas e currais
• 13 milhões de toneladas
de produtos agrícolas perdidas*
*Estimativa relativa à colheita prevista | |
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