Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Crime
A vida no fio da navalha

Prisão de líder comunitário revela
ligação do tráfico com associações
de moradores de favelas


Marcelo Carneiro

Fabio Rossi/Ag. O Globo
Rocinha: ponto estratégico para a venda de drogas na região nobre do Rio
EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Violência no Rio


Com a força das armas, o tráfico de drogas conquistou, nos últimos anos, o domínio sobre regiões inteiras das grandes cidades. No Rio de Janeiro, 1 milhão de pessoas que vivem em 700 favelas são submetidas a um regime tirânico. Esse avanço territorial tem várias causas, entre elas o arsenal de guerra dos bandidos, a falta de uma política de segurança eficaz e a corrupção policial. Mas, no dia 23 de fevereiro, a prisão do líder comunitário William de Oliveira jogou luz sobre uma face mais complexa e chocante desse fenômeno. Presidente da União Pró-Melhoramentos, a mais importante associação de moradores da Rocinha, a maior favela do Rio, William foi flagrado em escutas telefônicas com os chefes do tráfico local. Em uma das gravações, autorizadas judicialmente, o líder comunitário pede ao traficante Erismar Rodrigues, o "Bem-Te-Vi", patrocínio para uma festa em comemoração ao aniversário da associação de moradores. Pesa ainda contra William a suspeita de ter usado a entidade que preside para comprar aparelhos de radiocomunicação e repassá-los aos traficantes. Outra líder comunitária, Maria Luiza Carlos, também presa na operação policial, foi mais longe. Ex-presidente da mesma União Pró-Melhoramentos, "Madrinha", como é conhecida, atuava como elo entre bandidos e policiais corruptos. Era de sua responsabilidade a entrega, de três em três dias, de uma propina de cerca de 2.500 reais. A prisão de William e Maria Luiza revela a deformação de uma estrutura que deveria agir em favor dos interesses comunitários, e não prestar vassalagem a bandidos. Estudos apontam que, no Rio de Janeiro, quase metade das associações de moradores sucumbiu à proximidade com o tráfico e hoje oscila entre a calada submissão e o apoio ostensivo ao crime organizado (veja quadro).


Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
Guerra de traficantes faz polícia fechar o trânsito no Leblon

"É preciso descobrir até onde vai a convivência e onde começa a conivência com o tráfico. A convivência é imposta, mas a conivência é opcional. Há associações que escondem armas e drogas dentro de sua sede", diz a inspetora Marina Magessi, chefe da equipe de investigação da Polinter, unidade da Polícia Civil fluminense que comandou a operação Navalha na Carne, responsável pela prisão dos líderes comunitários e de sete policiais militares suspeitos de corrupção, entre eles três oficiais. William e Maria Luiza não são os primeiros dirigentes de entidades acusados de ligação com o tráfico. Condenado a oito anos de prisão no ano passado e hoje foragido, Antônio Carlos Ferreira Gabriel, o "Rumba", ex-presidente da Associação de Moradores da Favela do Jacarezinho, na Zona Norte, também é acusado de intermediar o pagamento de suborno de bandidos a policiais militares e de receber ordens de traficantes para incitar moradores contra a PM. Em situação bem mais nebulosa e até hoje não completamente esclarecida, em maio de 2003 um comandante da Polícia Militar, Erir Ribeiro, denunciou o secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho – uma das mais conhecidas lideranças comunitárias de favelas do estado, eleito deputado estadual em 2002 –, por agir em defesa de traficantes da favela da Mangueira. Carvalho teria pedido uma trégua nas incursões à favela.

Casos como esses tornaram-se freqüentes porque as associações de moradores hoje são uma pálida lembrança do que foram até meados dos anos 80. Com a redemocratização, uma geração de líderes de favelas com tradição na militância sindical começou a partidarizar as disputas regionais pelo comando das entidades. No caso específico do Rio de Janeiro, a ação de políticos clientelistas ligados ao então governador Leonel Brizola, que disputavam com os partidos de esquerda a hegemonia sobre as principais associações, contribuiu ainda mais para o esvaziamento. "O movimento começou a perder credibilidade e, ao mesmo tempo, os traficantes passaram a perceber que era importante exercer domínio sobre as associações", explica a antropóloga Alba Zaluar, que desde 1980 estuda a violência em zonas dominadas pelo tráfico.

Não por acaso, o declínio das entidades comunitárias ocorreu no mesmo momento em que os traficantes transformaram as favelas em grandes entrepostos da venda de drogas e começaram a comprar armamento pesado para defender seus territórios do ataque de quadrilhas rivais. A partir dos anos 90, tem início um processo de tomada das associações pelos traficantes. Um estudo elaborado pelo deputado estadual Carlos Minc mostra que, de 1992 a 2002, 850 líderes comunitários foram mortos ou expulsos de suas favelas. Outras 350 lideranças mostraram-se claramente cooptadas pelos bandidos. Atualmente, as associações de moradores raramente são chamadas a colaborar em projetos sociais em áreas carentes. No ano passado, o Viva Rio, uma das principais ONGs cariocas, realizou mais de 1.000 ações nas áreas de educação, cultura e segurança pública, em parceria com 1.380 instituições presentes em favelas. Dessas, apenas 73 eram associações de moradores. Hoje, o espaço deixado vago pelas entidades está ocupado por rádios e TVs comunitárias, igrejas católicas e evangélicas e as próprias ONGs.

A presença do crime organizado no Rio de Janeiro é atualmente tão ostensiva que até ruas e vias expressas da cidade são fechadas pelos traficantes, quando em confronto com a polícia ou em guerra com outras quadrilhas. Para um presidente ou diretor de associação de moradores de uma favela, que está no meio desse fogo cruzado, é praticamente impossível ficar imune. Muitas vezes, o líder comunitário atua como um mediador de conflitos, servindo de interlocutor entre o mundo oficial e o poder paralelo. A maior parte das concessionárias de serviços públicos como água, luz e telefone só entra em áreas conflagradas após um pedido aos dirigentes de associações, que, por sua vez, intercedem junto aos chefões da venda de drogas. O desafio está em não deixar que essa convivência – imposta pelas regras do jogo pesado do crime, como lembra a inspetora Marina Magessi – se transforme em uma troca de favores. Esse parece ter sido o caso de William, um produtor de bailes funk na Rocinha que, aos poucos, se firmou como uma das lideranças da favela. Sua prisão causou surpresa. Eleito presidente da União Pró-Melhoramentos no início de 2004, William, de 33 anos, tornara-se uma referência no meio comunitário, apesar de um início de gestão conturbado: em abril do ano passado, uma guerra pelo controle do tráfico na Rocinha – favela com 100 000 habitantes e área estratégica para a venda de drogas em toda a Zona Sul do Rio de Janeiro – provocou a intervenção da Polícia Militar. Cerca de 1.200 homens de diferentes batalhões do estado iniciaram uma ocupação permanente do morro. Integrantes de ONGs que protestaram contra a prisão de William garantem que o líder comunitário sempre esteve à frente das negociações com as autoridades fluminenses de segurança pública, e por isso teria atraído inclusive a ira de alguns bandidos da Rocinha. O problema é que, a julgar pelo que consta do inquérito em curso na Polinter, existe outro William.

VEJA teve acesso a um conjunto de depoimentos que é considerado pela polícia a principal peça de acusação contra o presidente da associação de moradores da Rocinha. Nele, pessoas – que terão seu nome guardado sob sigilo, por questão de segurança – asseguram que o próprio William era responsável pela compra de aparelhos de radiocomunicação, que depois, segundo investigações da polícia, foram usados por traficantes. Alexandre Dumans, advogado de William, rebate as acusações. "Ele pegava os rádios e os entregava a pessoas ligadas à associação. É impossível que tivesse controle sobre o que era feito com cada um dos aparelhos", diz Dumans. As investigações continuam, e, ao final, a Justiça é quem decidirá se William é, de fato, um colaborador dos traficantes da Rocinha. Não há dúvida, porém, que a proximidade entre as associações de moradores e os bandidos encastelados nas favelas criou uma zona cinzenta, na qual os limites entre convivência e conivência caminham no fio da navalha.

 

Gravação realizada durante investigação policial no ano passado mostra William de Oliveira, líder na Rocinha, pedindo patrocínio para uma festa ao traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi.

William – Vou fazer, dia 22, o aniversário da associação, 43 anos, lá na Curva do S.

Bem-Te-Vi – Vai fechar um show lá?

William – Vou, vou, vai ser no domingo. De 3 da tarde até meia-noite, a entrada é 1 quilo de alimento. Tô fechando a programação e quando tiver pronta eu vou falar contigo, pra ver o teu patrocínio aí, o que você pode me patrocinar.

Bem-Te-Vi – Que patrocínio? Pô, tá maluco? Minha "firma" tá quebrada. Tá ligado que tá quebrada a firma? Mas a gente fala alguma coisa, a gente pede alguma coisa a alguém, tá ligado?

 

Guilherme Lessa/Ag. O Globo



VEJA teve acesso à transcrição de conversas telefônicas gravadas com autorização judicial que deixam clara a função de Maria Luiza Carlos, antecessora de William na presidência da União Pró-Melhoramentos da Rocinha: servir de ligação entre traficantes de drogas e policiais corruptos.

Bem-Te-Vi – Manda eles ficarem no Largo da Macumba, e, se passar, não precisa dar tiro, não, que nós tá (sic) vendo tudo.

Maria Luiza – Eu vou passar para ele. Olha, eles estão mandando te perguntar se você não quer comprar um colete à prova de balas novinho.

Bem-Te-Vi – Tem aquele porta-pistola na frente do peito?

Maria Luiza – É esse mesmo.

Bem-Te-Vi ­ Quanto é?

Maria Luiza – Mil e quinhentos.

Bem-Te-Vi – Que é isso? Os amigos deles outro dia venderam um por 600, aí comprei mais vinte (....)

 

A influência do tráfico

Utilizando dados de 1992 a 2002, o deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ) realizou um levantamento sobre a relação entre o tráfico de drogas e as associações de moradores do Rio de Janeiro. Abaixo, algumas das conclusões da pesquisa

Há cerca de 8000 entidades ou associações comunitárias em atuação nas 700 favelas do Rio. Dessas, 3200 foram analisadas pela pesquisa

Em 40%, ou cerca de 1200, foi registrado algum tipo de influência do tráfico de drogas

350 associações são identificadas como cooptadas pelos traficantes

No período de uma década, 450 líderes comunitários foram expulsos das favelas onde moravam devido a divergências com traficantes

Outros 400 terminaram assassinados

 

 
 
 
 
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