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Crime A
vida no fio da navalha Prisão de líder
comunitário revela ligação do tráfico com associações
de moradores de favelas 
Marcelo Carneiro
Fabio Rossi/Ag. O Globo  |
| Rocinha: ponto estratégico para a venda de drogas na
região nobre do Rio | | Com
a força das armas, o tráfico de drogas conquistou, nos últimos
anos, o domínio sobre regiões inteiras das grandes cidades. No Rio
de Janeiro, 1 milhão de pessoas que vivem em 700 favelas são submetidas
a um regime tirânico. Esse avanço territorial tem várias causas,
entre elas o arsenal de guerra dos bandidos, a falta de uma política de
segurança eficaz e a corrupção policial. Mas, no dia 23 de
fevereiro, a prisão do líder comunitário William de Oliveira
jogou luz sobre uma face mais complexa e chocante desse fenômeno. Presidente
da União Pró-Melhoramentos, a mais importante associação
de moradores da Rocinha, a maior favela do Rio, William foi flagrado em escutas
telefônicas com os chefes do tráfico local. Em uma das gravações,
autorizadas judicialmente, o líder comunitário pede ao traficante
Erismar Rodrigues, o "Bem-Te-Vi", patrocínio para uma festa em comemoração
ao aniversário da associação de moradores. Pesa ainda contra
William a suspeita de ter usado a entidade que preside para comprar aparelhos
de radiocomunicação e repassá-los aos traficantes. Outra
líder comunitária, Maria Luiza Carlos, também presa na operação
policial, foi mais longe. Ex-presidente da mesma União Pró-Melhoramentos,
"Madrinha", como é conhecida, atuava como elo entre bandidos e policiais
corruptos. Era de sua responsabilidade a entrega, de três em três
dias, de uma propina de cerca de 2.500 reais. A prisão de William e Maria
Luiza revela a deformação de uma estrutura que deveria agir em favor
dos interesses comunitários, e não prestar vassalagem a bandidos.
Estudos apontam que, no Rio de Janeiro, quase metade das associações
de moradores sucumbiu à proximidade com o tráfico e hoje oscila
entre a calada submissão e o apoio ostensivo ao crime organizado (veja
quadro).
Marcelo Carnaval/Ag. O Globo  |
| Guerra de traficantes faz polícia fechar o trânsito no
Leblon | "É preciso descobrir até
onde vai a convivência e onde começa a conivência com o tráfico.
A convivência é imposta, mas a conivência é opcional.
Há associações que escondem armas e drogas dentro de sua
sede", diz a inspetora Marina Magessi, chefe da equipe de investigação
da Polinter, unidade da Polícia Civil fluminense que comandou a operação
Navalha na Carne, responsável pela prisão dos líderes comunitários
e de sete policiais militares suspeitos de corrupção, entre eles
três oficiais. William e Maria Luiza não são os primeiros
dirigentes de entidades acusados de ligação com o tráfico.
Condenado a oito anos de prisão no ano passado e hoje foragido, Antônio
Carlos Ferreira Gabriel, o "Rumba", ex-presidente da Associação
de Moradores da Favela do Jacarezinho, na Zona Norte, também é acusado
de intermediar o pagamento de suborno de bandidos a policiais militares e de receber
ordens de traficantes para incitar moradores contra a PM. Em situação
bem mais nebulosa e até hoje não completamente esclarecida, em maio
de 2003 um comandante da Polícia Militar, Erir Ribeiro, denunciou o secretário
estadual de Esportes, Francisco de Carvalho uma das mais conhecidas lideranças
comunitárias de favelas do estado, eleito deputado estadual em 2002 ,
por agir em defesa de traficantes da favela da Mangueira. Carvalho teria pedido
uma trégua nas incursões à favela.
Casos como esses tornaram-se freqüentes porque as associações
de moradores hoje são uma pálida lembrança do que foram até
meados dos anos 80. Com a redemocratização, uma geração
de líderes de favelas com tradição na militância sindical
começou a partidarizar as disputas regionais pelo comando das entidades.
No caso específico do Rio de Janeiro, a ação de políticos
clientelistas ligados ao então governador Leonel Brizola, que disputavam
com os partidos de esquerda a hegemonia sobre as principais associações,
contribuiu ainda mais para o esvaziamento. "O movimento começou a perder
credibilidade e, ao mesmo tempo, os traficantes passaram a perceber que era importante
exercer domínio sobre as associações", explica a antropóloga
Alba Zaluar, que desde 1980 estuda a violência em zonas dominadas pelo tráfico.
Não por acaso, o declínio das entidades
comunitárias ocorreu no mesmo momento em que os traficantes transformaram
as favelas em grandes entrepostos da venda de drogas e começaram a comprar
armamento pesado para defender seus territórios do ataque de quadrilhas
rivais. A partir dos anos 90, tem início um processo de tomada das associações
pelos traficantes. Um estudo elaborado pelo deputado estadual Carlos Minc mostra
que, de 1992 a 2002, 850 líderes comunitários foram mortos ou expulsos
de suas favelas. Outras 350 lideranças mostraram-se claramente cooptadas
pelos bandidos. Atualmente, as associações de moradores raramente
são chamadas a colaborar em projetos sociais em áreas carentes.
No ano passado, o Viva Rio, uma das principais ONGs cariocas, realizou mais de
1.000 ações nas áreas de educação, cultura
e segurança pública, em parceria com 1.380 instituições
presentes em favelas. Dessas, apenas 73 eram associações de moradores.
Hoje, o espaço deixado vago pelas entidades está ocupado por rádios
e TVs comunitárias, igrejas católicas e evangélicas e as
próprias ONGs. A presença do crime
organizado no Rio de Janeiro é atualmente tão ostensiva que até
ruas e vias expressas da cidade são fechadas pelos traficantes, quando
em confronto com a polícia ou em guerra com outras quadrilhas. Para um
presidente ou diretor de associação de moradores de uma favela,
que está no meio desse fogo cruzado, é praticamente impossível
ficar imune. Muitas vezes, o líder comunitário atua como um mediador
de conflitos, servindo de interlocutor entre o mundo oficial e o poder paralelo.
A maior parte das concessionárias de serviços públicos como
água, luz e telefone só entra em áreas conflagradas após
um pedido aos dirigentes de associações, que, por sua vez, intercedem
junto aos chefões da venda de drogas. O desafio está em não
deixar que essa convivência imposta pelas regras do jogo pesado do
crime, como lembra a inspetora Marina Magessi se transforme em uma troca
de favores. Esse parece ter sido o caso de William, um produtor de bailes funk
na Rocinha que, aos poucos, se firmou como uma das lideranças da favela.
Sua prisão causou surpresa. Eleito presidente da União Pró-Melhoramentos
no início de 2004, William, de 33 anos, tornara-se uma referência
no meio comunitário, apesar de um início de gestão conturbado:
em abril do ano passado, uma guerra pelo controle do tráfico na Rocinha
favela com 100 000 habitantes e área estratégica para a venda
de drogas em toda a Zona Sul do Rio de Janeiro provocou a intervenção
da Polícia Militar. Cerca de 1.200 homens de diferentes batalhões
do estado iniciaram uma ocupação permanente do morro. Integrantes
de ONGs que protestaram contra a prisão de William garantem que o líder
comunitário sempre esteve à frente das negociações
com as autoridades fluminenses de segurança pública, e por isso
teria atraído inclusive a ira de alguns bandidos da Rocinha. O problema
é que, a julgar pelo que consta do inquérito em curso na Polinter,
existe outro William. VEJA teve acesso a um conjunto
de depoimentos que é considerado pela polícia a principal peça
de acusação contra o presidente da associação de moradores
da Rocinha. Nele, pessoas que terão seu nome guardado sob sigilo,
por questão de segurança asseguram que o próprio William
era responsável pela compra de aparelhos de radiocomunicação,
que depois, segundo investigações da polícia, foram usados
por traficantes. Alexandre Dumans, advogado de William, rebate as acusações.
"Ele pegava os rádios e os entregava a pessoas ligadas à associação.
É impossível que tivesse controle sobre o que era feito com cada
um dos aparelhos", diz Dumans. As investigações continuam, e, ao
final, a Justiça é quem decidirá se William é, de
fato, um colaborador dos traficantes da Rocinha. Não há dúvida,
porém, que a proximidade entre as associações de moradores
e os bandidos encastelados nas favelas criou uma zona cinzenta, na qual os limites
entre convivência e conivência caminham no fio da navalha.
| Gravação
realizada durante investigação policial no ano passado mostra William
de Oliveira, líder na Rocinha, pedindo patrocínio para uma festa
ao traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi. William
Vou fazer, dia 22, o aniversário da associação,
43 anos, lá na Curva do S. Bem-Te-Vi
Vai fechar um show lá? William
Vou, vou, vai ser no domingo. De 3 da tarde até meia-noite,
a entrada é 1 quilo de alimento. Tô fechando a programação
e quando tiver pronta eu vou falar contigo, pra ver o teu patrocínio aí,
o que você pode me patrocinar. Bem-Te-Vi
Que patrocínio? Pô, tá maluco? Minha "firma" tá
quebrada. Tá ligado que tá quebrada a firma? Mas a gente fala alguma
coisa, a gente pede alguma coisa a alguém, tá ligado? |
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Guilherme Lessa/Ag. O Globo  |
VEJA
teve acesso à transcrição de conversas telefônicas
gravadas com autorização judicial que deixam clara a função
de Maria Luiza Carlos, antecessora de William na presidência da União
Pró-Melhoramentos da Rocinha: servir de ligação entre traficantes
de drogas e policiais corruptos. Bem-Te-Vi
Manda eles ficarem no Largo da Macumba, e, se passar, não precisa
dar tiro, não, que nós tá (sic) vendo tudo.
Maria Luiza Eu vou passar para ele. Olha,
eles estão mandando te perguntar se você não quer comprar
um colete à prova de balas novinho. Bem-Te-Vi
Tem aquele porta-pistola na frente do peito?
Maria Luiza É esse mesmo.
Bem-Te-Vi Quanto é? Maria
Luiza Mil e quinhentos. Bem-Te-Vi
Que é isso? Os amigos deles outro dia venderam um por 600, aí
comprei mais vinte (....) | |
| A influência
do tráfico Utilizando dados de 1992 a 2002, o deputado
estadual Carlos Minc (PT-RJ) realizou um levantamento sobre a relação
entre o tráfico de drogas e as associações de moradores do
Rio de Janeiro. Abaixo, algumas das conclusões da pesquisa
Há
cerca de 8000 entidades ou associações comunitárias
em atuação nas 700 favelas do Rio. Dessas, 3200 foram analisadas
pela pesquisa
Em 40%, ou cerca de 1200, foi registrado algum tipo de influência
do tráfico de drogas
350 associações são identificadas como cooptadas pelos
traficantes
No período de uma década, 450 líderes comunitários
foram expulsos das favelas onde moravam devido a divergências com traficantes
Outros 400 terminaram assassinados | |
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