Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Estilo
A tribo do boné falsificado

Proliferam na Inglaterra os grupos de chavs,
que têm gíria própria e uniforme peculiar


Silvia Rogar, de Londres


Eduardo Martino
Chavs em desfile: agasalhos e tênis brancos para eles, muito xadrez Burberry para elas

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A aristocracia britânica é imbatível na arte de se distinguir das massas, seja pelos gestos finos, pelo sotaque pomposo ou pela porcelana cara em que serve o chá. Tudo isso já foi tema de livro, de filme e de muita piada. Agora, um estilo plebeusíssimo também está dando o que falar. Com gosto duvidoso para se vestir, jeito encrenqueiro, pouca disposição para o trabalho e pouco dinheiro no bolso, os chamados chavs, uma tribo muito particular e facilmente reconhecível, estão roubando o espaço cativo das celebridades nas páginas dos tablóides e se encontram a um passo do dicionário Oxford: a equipe que organiza o compêndio elegeu como palavra do ano de 2004 justamente chav, definido como "pessoa jovem, de baixo nível educacional, que segue uma moda particular". Detalhe: chav que é chav detesta ser chamado assim. De fato, o epíteto, pejorativo, foi difundido principalmente por não-chavs, para se diferenciar da turminha baixo nível. A origem menos interessante do termo é que seja derivado de chavo, que significa menino para os ciganos. A mais propagada é que a história toda tenha começado em Chatham, no condado de Kent, onde o guarda-roupa um tanto questionável das moças ganhou fama nacional. "Existem lugares muito piores, onde as pessoas têm pior gosto. Isso é um insulto", disse a VEJA, indignada, uma vendedora da cidade, que trabalha na rede JD Sports, uma espécie de paraíso da moda chav.

Identificar um elemento do grupo é facílimo. Independentemente do frio e da chuva, as meninas usam microssaias, salto alto e argolas gigantes nas orelhas. O penteado é um rabo-de-cavalo tão puxado para trás, à custa de muito gel, que foi batizado de "lifting de conjunto habitacional" – um artifício para dar uma esticadinha na pele. No caso dos rapazes, o visual é esportivo, com logomarcas berrantes: camiseta pólo ou de time de futebol, jaqueta e calça de náilon (com a barra para dentro da meia) e tênis branquíssimos. Acessórios fundamentais: boné, sobretudo o xadrez (falsificado) da grife de luxo Burberry, correntes e pulseiras de ouro (falso). Pontos de encontro: shopping centers e lanchonetes, onde falam de futebol, sexo e reality shows (todo chav adoraria estar em um). Ídolos incontestáveis: David e Victoria Beckham (veja quadro), com sua vida cheia de grifes, conta bancária gorda e declarações públicas sem muito conteúdo.

Embora a maioria feche a cara, uns poucos chavs batem no peito e confirmam a identificação. "Sou, sim, e quase todos os meus amigos também são. Gostamos de passear em shoppings e, realmente, muitos não são chegados ao trabalho", assume Caroline Crombie, 21, cujo orgulho de ser chav trouxe lucros para a família. Ela incentivou o pai, David, a escrever um livro sobre o assunto, o miniguia The Little Book of Chavs, e depois um segundo título, The Little Book of Chav Speak, com as gírias do grupo; venderam 170.000 exemplares em quatro meses. "A maioria compra para se informar sobre o tema, que vem recebendo muita publicidade", diz o autor, que usou o pseudônimo de Lee Bok. Outro que se deu bem na história foi o cantor Mike Skinner, cuja banda de um homem só, The Streets, já vendeu 2 milhões de discos com canções que falam da combinação cerveja-cigarro-futebol-garotas-televisão.

Por causa da fama de arruaceiros que esse grupo ganhou, certos estabelecimentos proíbem a entrada de rapazes com bonés, sobretudo xadrezes, e casacos com capuz, justificando que eles dificultam a identificação pelas onipresentes câmeras de segurança. "Colocamos um cartaz do lado de fora de dois de nossos pubs para evitar problemas. Foi a própria polícia que recomendou", diz Emma Currim, relações-públicas da rede de bares Barracuda. A tradicional Burberry, queridinha de descolados como a modelo Kate Moss, tenta não dar importância à popularização de sua estampa, mas no Reino Unido suas vendas, que vinham em ascensão, caíram no último Natal.

 

Todos querem ser Beckham

David Beckham, 29 anos, jogador do Real Madrid e ídolo máximo dos chavs, é o típico garoto do povão que "chegou lá". Filho de uma cabeleireira e de um encanador (na Inglaterra, uma profissão até bem remunerada, mas sem prestígio), ele foi criado numa área simples de Londres; hoje, multimilionário, ostenta carrões, mansões, jóias poderosas e roupas de grife. Sua mulher, Victoria, vem de uma família com mais posses, mas trocou os estudos pela idéia fixa de ficar famosa – e ficou, como a integrante "chique" da felizmente extinta banda feminina Spice Girls. Hoje, sem ter conseguido emplacar uma carreira-solo, Victoria mudou-se para Madri e virou mulher de Beckham e mãe de seus três filhos em tempo integral, o que contribuiu para reforçar ainda mais a imagem de casal maravilha. No Brasil, a imagem da dupla equivaleria à dos astros da música sertaneja: fama, dinheiro, carros importados, casas enormes e roupas caras rendem, em geral, esnobação dos "refinados" e admiração e inveja da maioria. Mesmo sem precisar de publicidade, o casal Beckham se esforça por ganhar espaço nos jornais e ostentar sua fortuna. Em 1999, quando se casaram, Victoria e David se sentaram em tronos pomposos e idênticos durante a cerimônia. Para o batizado dos dois filhos mais velhos, Brooklyn e Romeo, no ano passado, a dupla construiu uma capela no jardim de sua mansão e convidou Elton John para padrinho. Ao filho mais novo, nascido em Madri em fevereiro, deram o nome de Cruz – impronunciável em inglês, mas chav até não poder mais.

 
 
 
 
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