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Estilo A
tribo do boné falsificado Proliferam na
Inglaterra os grupos de chavs, que têm gíria própria
e uniforme peculiar 
Silvia Rogar, de Londres
Eduardo Martino  |
| Chavs em desfile:
agasalhos e tênis brancos para eles, muito xadrez Burberry para elas |
A aristocracia britânica é imbatível
na arte de se distinguir das massas, seja pelos gestos finos, pelo sotaque pomposo
ou pela porcelana cara em que serve o chá. Tudo isso já foi tema
de livro, de filme e de muita piada. Agora, um estilo plebeusíssimo também
está dando o que falar. Com gosto duvidoso para se vestir, jeito encrenqueiro,
pouca disposição para o trabalho e pouco dinheiro no bolso, os chamados
chavs, uma tribo muito particular e facilmente reconhecível, estão
roubando o espaço cativo das celebridades nas páginas dos tablóides
e se encontram a um passo do dicionário Oxford: a equipe que organiza
o compêndio elegeu como palavra do ano de 2004 justamente chav, definido
como "pessoa jovem, de baixo nível educacional, que segue uma moda particular".
Detalhe: chav que é chav detesta ser chamado assim. De fato,
o epíteto, pejorativo, foi difundido principalmente por não-chavs,
para se diferenciar da turminha baixo nível. A origem menos interessante
do termo é que seja derivado de chavo, que significa menino para
os ciganos. A mais propagada é que a história toda tenha começado
em Chatham, no condado de Kent, onde o guarda-roupa um tanto questionável
das moças ganhou fama nacional. "Existem lugares muito piores, onde as
pessoas têm pior gosto. Isso é um insulto", disse a VEJA, indignada,
uma vendedora da cidade, que trabalha na rede JD Sports, uma espécie de
paraíso da moda chav. Identificar
um elemento do grupo é facílimo. Independentemente do frio e da
chuva, as meninas usam microssaias, salto alto e argolas gigantes nas orelhas.
O penteado é um rabo-de-cavalo tão puxado para trás, à
custa de muito gel, que foi batizado de "lifting de conjunto habitacional"
um artifício para dar uma esticadinha na pele. No caso dos rapazes, o visual
é esportivo, com logomarcas berrantes: camiseta pólo ou de time
de futebol, jaqueta e calça de náilon (com a barra para dentro da
meia) e tênis branquíssimos. Acessórios fundamentais: boné,
sobretudo o xadrez (falsificado) da grife de luxo Burberry, correntes e pulseiras
de ouro (falso). Pontos de encontro: shopping centers e lanchonetes, onde falam
de futebol, sexo e reality shows (todo chav adoraria estar em um). Ídolos
incontestáveis: David e Victoria Beckham (veja
quadro), com sua vida cheia de grifes, conta bancária gorda
e declarações públicas sem muito conteúdo.
Embora a maioria feche a cara, uns poucos chavs
batem no peito e confirmam a identificação. "Sou, sim, e quase todos
os meus amigos também são. Gostamos de passear em shoppings e, realmente,
muitos não são chegados ao trabalho", assume Caroline Crombie, 21,
cujo orgulho de ser chav trouxe lucros para a família. Ela incentivou
o pai, David, a escrever um livro sobre o assunto, o miniguia The Little Book
of Chavs, e depois um segundo título, The Little Book of Chav Speak,
com as gírias do grupo; venderam 170.000 exemplares em quatro meses. "A
maioria compra para se informar sobre o tema, que vem recebendo muita publicidade",
diz o autor, que usou o pseudônimo de Lee Bok. Outro que se deu bem na história
foi o cantor Mike Skinner, cuja banda de um homem só, The Streets, já
vendeu 2 milhões de discos com canções que falam da combinação
cerveja-cigarro-futebol-garotas-televisão.
Por causa da fama de arruaceiros que esse grupo ganhou, certos estabelecimentos
proíbem a entrada de rapazes com bonés, sobretudo xadrezes, e casacos
com capuz, justificando que eles dificultam a identificação pelas
onipresentes câmeras de segurança. "Colocamos um cartaz do lado de
fora de dois de nossos pubs para evitar problemas. Foi a própria polícia
que recomendou", diz Emma Currim, relações-públicas da rede
de bares Barracuda. A tradicional Burberry, queridinha de descolados como a modelo
Kate Moss, tenta não dar importância à popularização
de sua estampa, mas no Reino Unido suas vendas, que vinham em ascensão,
caíram no último Natal.
| Todos querem ser Beckham David
Beckham, 29 anos, jogador do Real Madrid e ídolo máximo dos chavs,
é o típico garoto do povão que "chegou lá". Filho
de uma cabeleireira e de um encanador (na Inglaterra, uma profissão até
bem remunerada, mas sem prestígio), ele foi criado numa área simples
de Londres; hoje, multimilionário, ostenta carrões, mansões,
jóias poderosas e roupas de grife. Sua mulher, Victoria, vem de uma família
com mais posses, mas trocou os estudos pela idéia fixa de ficar famosa
e ficou, como a integrante "chique" da felizmente extinta banda feminina
Spice Girls. Hoje, sem ter conseguido emplacar uma carreira-solo, Victoria mudou-se
para Madri e virou mulher de Beckham e mãe de seus três filhos em
tempo integral, o que contribuiu para reforçar ainda mais a imagem de casal
maravilha. No Brasil, a imagem da dupla equivaleria à dos astros da música
sertaneja: fama, dinheiro, carros importados, casas enormes e roupas caras rendem,
em geral, esnobação dos "refinados" e admiração e
inveja da maioria. Mesmo sem precisar de publicidade, o casal Beckham se esforça
por ganhar espaço nos jornais e ostentar sua fortuna. Em 1999, quando se
casaram, Victoria e David se sentaram em tronos pomposos e idênticos durante
a cerimônia. Para o batizado dos dois filhos mais velhos, Brooklyn e Romeo,
no ano passado, a dupla construiu uma capela no jardim de sua mansão e
convidou Elton John para padrinho. Ao filho mais novo, nascido em Madri em fevereiro,
deram o nome de Cruz impronunciável em inglês, mas chav
até não poder mais. | | |