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Justiça
Frente a frente Michael Jackson
alega doença, é ameaçado de prisão e tem de encarar
seu acusador
Kimberly White/Reuters  |
| Jackson chega ao tribunal, abatido e desarrumado: relatos
de abusos |
Na metade de seu segundo mês, o julgamento
do cantor Michael Jackson pela acusação de abuso sexual de menores
entrou na fase dos detalhes cabeludos que a internet já havia listado,
mas que agora são ouvidos da boca de adolescentes. O público de
corpo presente minguou: na semana passada, só três fãs de
Jackson batiam ponto na porta do tribunal na pequena cidade de Santa Maria, na
Califórnia. Na mídia, porém, o julgamento vem sendo tratado
com insistência, interpretações e reconstituições
que lembram o célebre caso O.J. Simpson quando os Estados Unidos
pararam para acompanhar o processo contra o ex-jogador de futebol americano acusado
de matar a mulher (acabou absolvido). Os ingredientes, agora, são muito
mais explosivos: a acusação é de pedofilia; as testemunhas-chave
têm 14, 15 e 18 anos (dois a mais do que quando os abusos teriam acontecido);
e o acusado é famoso, reincidente, tem aparência bizarra e comportamento
mais ainda. Na quinta-feira, Jackson, que é obrigado a estar presente aos
depoimentos, mandou avisar que não ia, pois precisava tratar uma excruciante
dor nas costas. O juiz Rodney Melville avisou que, se ele não chegasse
em noventa minutos, mandaria prendê-lo. Abatido e amparado por seguranças,
Jackson obedeceu de calça larga do tipo pijama, camiseta, blazer
preto, sandália, meias brancas e, mais impensável ainda, cabelo
de quem não lavou nem fez escova. Sentado
junto dos advogados, impassível, ouviu Gavin Arvizo confirmar que, ao lado
do irmão menor Star, no quarto de Jackson, viu o cantor acessar sites pornográficos
na internet, mostrar fotos de mulheres nuas em revistas e fazer comentários
chulos; também junto do irmão, no mesmo quarto, viu Jackson sem
roupa; que, incentivado pelo cantor, tomou vinho (o "suco de Jesus") e outras
bebidas; e, no momento mais dramático, que foi masturbado duas vezes por
Jackson, na cama dele, sob as cobertas, sendo que na segunda o cantor quis que
o tocasse também, o que o adolescente diz que se recusou a fazer. Antes
de Gavin, depôs durante três dias o irmão menor, Star, que,
além de também contar a história da exibição
de pornografia, do desfile sem roupas e das bebidas, relatou ter assistido, escondido,
a dois episódios de masturbação do irmão por Jackson.
Antes ainda, o júri ouviu o testemunho da irmã, Davellin, com menos
detalhes: ela só falou das bebidas e de como Gavin "mudou" depois de conhecer
Jackson que o convidou, e à família, a visitá-lo quando
o menino tinha 10 anos e estava hospitalizado, tratando-se de um câncer.
A defesa, além de pôr em evidência as incongruências
nos três depoimentos, destacou dois episódios. Um, o vídeo
que os Arvizo gravaram em resposta a Living with Michael Jackson, o programa
que a BBC exibiu no começo de 2003 em que o cantor dizia achar normalíssimo
dormir com meninos. Nesse vídeo, que a família agora diz ter sido
obrigada a gravar, a vítima, Gavin, exalta: "Assim que conheci Michael,
percebi que era um homem carinhoso, gentil e simples"; Star enaltece: "Ele faz
com que eu me sinta seu filho"; Davellin elogia: "Isso é que é um
pai!"; e a mãe dos três, Janet, derrama-se: "Conheço corações
especiais, e o dele é" e "A maldade está na cabeça dos outros".
A outra passagem que a defesa adora destrinchar, anterior ao caso, é quando
Janet processou uma loja por ter sido maltratada pelos seguranças e instruiu
os filhos a mentir que o pai não espancava a família, a fim de que
todos os seus ferimentos fossem atribuídos aos guardas. Ganhou 150.000
dólares de indenização. Pouco depois, divorciou-se do marido,
acusando-o de espancá-la sistematicamente. O depoimento de Gavin deve prosseguir
por mais alguns dias. Depois será a vez da defesa e de sua lista de celebridades.
Mais espetáculo virá por aí. |