Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Justiça
Frente a frente

Michael Jackson alega doença, é ameaçado
de prisão e tem de encarar seu acusador


Kimberly White/Reuters
Jackson chega ao tribunal, abatido e desarrumado: relatos de abusos

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Dia: Michael Jackson

Na metade de seu segundo mês, o julgamento do cantor Michael Jackson pela acusação de abuso sexual de menores entrou na fase dos detalhes cabeludos que a internet já havia listado, mas que agora são ouvidos da boca de adolescentes. O público de corpo presente minguou: na semana passada, só três fãs de Jackson batiam ponto na porta do tribunal na pequena cidade de Santa Maria, na Califórnia. Na mídia, porém, o julgamento vem sendo tratado com insistência, interpretações e reconstituições que lembram o célebre caso O.J. Simpson – quando os Estados Unidos pararam para acompanhar o processo contra o ex-jogador de futebol americano acusado de matar a mulher (acabou absolvido). Os ingredientes, agora, são muito mais explosivos: a acusação é de pedofilia; as testemunhas-chave têm 14, 15 e 18 anos (dois a mais do que quando os abusos teriam acontecido); e o acusado é famoso, reincidente, tem aparência bizarra e comportamento mais ainda. Na quinta-feira, Jackson, que é obrigado a estar presente aos depoimentos, mandou avisar que não ia, pois precisava tratar uma excruciante dor nas costas. O juiz Rodney Melville avisou que, se ele não chegasse em noventa minutos, mandaria prendê-lo. Abatido e amparado por seguranças, Jackson obedeceu – de calça larga do tipo pijama, camiseta, blazer preto, sandália, meias brancas e, mais impensável ainda, cabelo de quem não lavou nem fez escova.

Sentado junto dos advogados, impassível, ouviu Gavin Arvizo confirmar que, ao lado do irmão menor Star, no quarto de Jackson, viu o cantor acessar sites pornográficos na internet, mostrar fotos de mulheres nuas em revistas e fazer comentários chulos; também junto do irmão, no mesmo quarto, viu Jackson sem roupa; que, incentivado pelo cantor, tomou vinho (o "suco de Jesus") e outras bebidas; e, no momento mais dramático, que foi masturbado duas vezes por Jackson, na cama dele, sob as cobertas, sendo que na segunda o cantor quis que o tocasse também, o que o adolescente diz que se recusou a fazer. Antes de Gavin, depôs durante três dias o irmão menor, Star, que, além de também contar a história da exibição de pornografia, do desfile sem roupas e das bebidas, relatou ter assistido, escondido, a dois episódios de masturbação do irmão por Jackson. Antes ainda, o júri ouviu o testemunho da irmã, Davellin, com menos detalhes: ela só falou das bebidas e de como Gavin "mudou" depois de conhecer Jackson – que o convidou, e à família, a visitá-lo quando o menino tinha 10 anos e estava hospitalizado, tratando-se de um câncer. A defesa, além de pôr em evidência as incongruências nos três depoimentos, destacou dois episódios. Um, o vídeo que os Arvizo gravaram em resposta a Living with Michael Jackson, o programa que a BBC exibiu no começo de 2003 em que o cantor dizia achar normalíssimo dormir com meninos. Nesse vídeo, que a família agora diz ter sido obrigada a gravar, a vítima, Gavin, exalta: "Assim que conheci Michael, percebi que era um homem carinhoso, gentil e simples"; Star enaltece: "Ele faz com que eu me sinta seu filho"; Davellin elogia: "Isso é que é um pai!"; e a mãe dos três, Janet, derrama-se: "Conheço corações especiais, e o dele é" e "A maldade está na cabeça dos outros". A outra passagem que a defesa adora destrinchar, anterior ao caso, é quando Janet processou uma loja por ter sido maltratada pelos seguranças e instruiu os filhos a mentir que o pai não espancava a família, a fim de que todos os seus ferimentos fossem atribuídos aos guardas. Ganhou 150.000 dólares de indenização. Pouco depois, divorciou-se do marido, acusando-o de espancá-la sistematicamente. O depoimento de Gavin deve prosseguir por mais alguns dias. Depois será a vez da defesa e de sua lista de celebridades. Mais espetáculo virá por aí.

 
 
 
 
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