Edição 1896 . 16 de março de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
O trágico segredo de M.

A menina que sobreviveu ao envenenamento
que matou sua família acusa o pai de molestá-la
sexualmente desde que tinha 5 anos


Juliana Linhares, de Campinas

 
Reprodução
RETRATO DE UMA TRAGÉDIA
Fotomontagem com a silhueta de M. no vídeo que gravou antes da fuga. No destaque, seu pai, Hudson, quando jovem

A morte por envenenamento de toda a sua família não foi a única tragédia na vida da estudante M.M.C., de 15 anos. Segunda filha do casal Hudson da Silva Carvalho e Thelma Almeida Migueis, a menina, até o início do ano, morava em uma casa que ocupa um terreno de 850 metros quadrados em Campinas, interior de São Paulo, com piscina, pomar e sala de ginástica. O pai, de 46 anos, médico homeopata, clinicava lá. A mãe, de 43, cuidava da contabilidade do consultório. A família tinha quatro cachorros, um gato, dois Pajero e, agora se sabe, um segredo: Hudson, afirma M., abusava sexualmente das filhas desde que elas tinham 5 anos de idade. VEJA apurou que a acusação foi feita pela menina a pelo menos seis pessoas – antes e depois da morte de seus pais, no dia 30 de janeiro, e da única irmã, L., de 17 anos, no dia 31. Os três foram vítimas de envenenamento por arsênico, provavelmente colocado em taças de musse de chocolate, num caso que ganhou repercussão nacional. M., que também ingeriu o veneno, conseguiu sobreviver.

Amigas de M. dizem que ela sempre teve pânico do pai. Uma de suas colegas na escola adventista em que estudava conta que, desde que as duas tinham por volta de 12 anos de idade, M. costumava aparecer no colégio com os braços marcados por hematomas. "A gente perguntava o que era aquilo e ela dizia que tinha caído", diz a colega. Um dia, ao ter os braços roxos novamente comentados por amigas, M. chorou. "Ela falou que o pai batia nela e que mexia nela e na irmã. Mas a irmã não apanhava, só ela. É que a M. não gostava de ir com o pai", afirma a amiga. Há dois anos, as queixas de M. chegaram aos ouvidos de um professor do colégio, que decidiu levar a informação à administração da escola. Hudson e Thelma foram chamados para uma conversa com o diretor. O médico negou a acusação. No dia seguinte, o diretor chamou M. à sua sala. Ela disse que havia mentido e que o pai jamais a molestara.

VEJA teve acesso à casa em que a família vivia. Nas paredes, há muitas fotos – todas de Hudson. Na maior parte delas, o médico (que corria, fazia musculação e praticava artes marciais) aparece se exercitando e exibindo os músculos. Não há nenhum retrato de Thelma ou das filhas. Hudson era um homem vaidoso e um pai severo. Proibia as meninas de usar celular e navegar na internet. Amigas contam que as irmãs também não podiam usar maquiagem, esmalte ou roupas decotadas. M., porém, costumava driblar a rigidez paterna assim que entrava na perua escolar que a levava ao colégio. "Quando subia no carro, logo passava batom", diz uma amiga. Ela nutria o sonho de muitas meninas de sua idade: ser modelo.

 
POR TRÁS DOS SORRISOS
O médico Hudson e a mulher, Thelma: entre outras esquisitices, ele seria adepto da magia negra

Em outubro do ano passado, após uma discussão com o pai, M. fugiu de casa. Depois de perambular por um dia no Rio de Janeiro, procurou um tio que mora na cidade, Lincoln Carvalho, irmão de Hudson. Também a ele relatou histórias de abuso sexual por parte do pai. O tio não acreditou. Levada de volta para casa, M. foi proibida de ir ao colégio. Até o término das aulas, foi somente quatro vezes à escola, sempre para fazer provas. O pai a acompanhou em todas as ocasiões. À polícia, M. disse que, durante o período em que ficou de castigo, permaneceu trancada no quarto, sem autorização nem sequer para fazer as refeições na cozinha. Lincoln, o tio, diz que a menina mente. "Ela ficou de castigo, sim, mas não em cárcere privado. Andava pela casa e freqüentava restaurantes com a família", afirma. Chamou a atenção da polícia, no entanto, a grande quantidade de comida encontrada dentro de cômodas no quarto que as irmãs dividiam: diversos pacotes de bolacha, facas de cozinha, caroços de fruta e cerca de dez garrafas de água mineral. Atrás de uma dessas cômodas, a polícia encontrou ainda um bilhete amassado, escrito com a letra de M. Trazia frases desconexas: "L.: não precisa ter ciúme de mim. Pai: Eu sei que você vai acabar me matando. Por isso estou fazendo isso. Não quero te ver o resto da vida na cadeia. Eu queria amor de pai. Porque amor de amigo não dá certo. Mãe: te amo. Te encontro no céu". A polícia não sabe quando o bilhete foi escrito. O fato de ser endereçado à família permite supor que a menina estivesse se referindo a um provável plano de fuga ou de suicídio.

M. ainda estava de férias quando a família foi envenenada. Na sexta-feira anterior às mortes, fez uma musse de chocolate que, segundo disse à polícia, a família toda experimentou. No dia seguinte, ela, a irmã e os pais almoçaram juntos em um shopping da cidade e, mais tarde, lancharam em uma padaria. À noite, comeram novamente o doce. A musse foi servida por Hudson, por volta das 21 horas, em taças de sobremesa. Dez minutos depois, a família começou a passar mal, com vômitos e diarréia contínua. M. diz que o pai impediu que fossem ao hospital, insistindo que a indisposição passaria. A agonia da família durou quase cinco horas. Somente de madrugada, Thelma, a mãe, ligou para o irmão – segundo M., às escondidas do marido –, pedindo que enviasse uma ambulância. Quando a família deu entrada no hospital Madre Maria Theodora, às 2 da manhã, os médicos imediatamente suspeitaram de envenenamento. Hudson e Thelma foram os primeiros a morrer. Apenas as duas meninas chegaram a ter amostras de urina submetidas a reagentes para três tipos de veneno: arsênico, bismuto e antimônio. Quando o resultado saiu – positivo para arsênico –, elas receberam doses de dimercaprol, um antídoto que acelera a eliminação da substância pelo organismo. M. respondeu ao tratamento; L., não: seus rins, a essa altura, já estavam paralisados. As irmãs apresentavam a mesma quantidade de veneno na urina: cerca de 10.000 microgramas por amostra. Apenas 1.500 microgramas são suficientes para matar uma pessoa.

A estada na casa da avó materna, para onde M. foi levada depois de receber alta, durou pouco. Vizinhos contam que ouviam freqüentes brigas entre as duas. M. disse à polícia que a avó a culpa pelas mortes. No último dia 21 de fevereiro, a menina fugiu, levando 600 reais da avó e deixando uma fita de vídeo. Nela, dizia ser inocente e afirmava que amava a mãe e a irmã. Não fazia nenhuma alusão ao pai. L., a irmã, era portadora de lúpus. Tímida, não tinha amigas. O pai queria que ela o sucedesse na farmácia de manipulação da família. Thelma, a mãe, é descrita como uma mulher submissa. Também vivia isolada e sofria de câncer linfático. Casada com Hudson havia vinte anos, era a terceira mulher dele. A primeira, que mora atualmente em uma cidade vizinha a Campinas, aceitou conversar com VEJA, desde que sua identidade fosse mantida em sigilo. Ela afirma que, para se unir a Hudson, teve de ser emancipada pelo pai: na época, era uma menina de apenas 14 anos. Hoje, tem 40. O retrato que traça do ex-marido é o de um homem violento e obcecado por rituais de magia negra. Eles se conheceram em Campinas, quando ela cursava o ginásio e ele já era estudante de medicina. Ficaram casados por um ano, morando na casa da mãe de Hudson. Pelo menos uma vez por semana, conta a mulher, o médico realizava estranhos rituais no quarto do casal. "Pregada na parede, sobre uma cômoda, ele tinha uma imagem que parecia um touro com cinco chifres. Ajoelhava-se diante dela e rezava." A mulher conta ainda que Hudson era ciumento, surrava-a constantemente e tinha fixação por limpeza. "Uma vez, me bateu porque fui ouvir alguns de seus discos e deixei marcas de dedos neles." A polícia já havia recebido informações do envolvimento do médico com rituais de magia negra. Anexado ao inquérito sobre o envenenamento da família, está a foto de um banheiro localizado dentro da garagem da casa em que ela morava. Com as paredes pintadas de vermelho, o banheiro exibe, no teto, o desenho de um rosto que mistura feições humanas e animalescas.

Até agora, Hudson é o principal suspeito pelo crime. O indício mais forte contra ele é o testemunho de uma funcionária que trabalhava em sua farmácia. Ela conta que, no fim de dezembro, o médico retirou um frasco de arsênico do estoque e pediu à secretária que registrasse o episódio como devolução de medicamento vencido. Um vidro da substância foi encontrado pela polícia na casa da família, praticamente vazio. Policiais que crêem na culpa do médico têm uma tese para os motivos que o teriam levado a cometer o crime: ao divulgar a acusação de que o pai a molestava, M. trouxe à baila um segredo de família que, até então, Hudson vinha conseguindo manter oculto. Diante das crescentes demonstrações de rebeldia da filha, o médico teria sentido que perdera o controle da situação – e decidido matar-se, eliminando também a mulher e as filhas.

Lincoln Carvalho, irmão de Hudson, diz que não descarta "qualquer possibilidade" para as mortes, mas afirma que há "dezenas de alternativas para o nome do assassino". Para ele, as declarações da sobrinha têm de ser vistas com desconfiança. M., afirma Lincoln, "apresenta um quadro sério de psicopatia e tem flutuações de personalidade". A psicóloga que acompanha o caso, Maria de Fátima dos Santos, diz que M. tem revelado um discurso coerente. "Suas falas, até agora, não têm mostrado contradições. Estamos checando a veracidade das informações." M., localizada no início do mês em um hotel em Guaíra, no Paraná, continua em tratamento para desintoxicação de arsênico. Recebe poucas pessoas no hospital onde está internada e dorme a maior parte do tempo. Quando está acordada, fala do medo que sente de ser acusada pelo crime e ir para a cadeia. Fez apenas um pedido aos médicos: o de que nenhum parente fosse autorizado a visitá-la.

 

"(...) PAI, EU SEI QUE VOCÊ VAI ACABAR ME MATANDO. POR ISSO ESTOU FAZENDO ISSO. NÃO QUERO TE VER O RESTO DA VIDA NA CADEIA. EU QUERIA AMOR DE PAI. PORQUE AMOR DE AMIGO NÃO DÁ CERTO (...)" 

TRECHO DE BILHETE, SEM DATA, ENCONTRADO PELA
POLÍCIA ATRÁS DE UMA CÔMODA DO QUARTO DE M.

 
 
 
 
topovoltar