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Brasil O
trágico segredo de M. A menina que sobreviveu
ao envenenamento que matou sua família acusa o pai de molestá-la
sexualmente desde que tinha 5 anos  Juliana
Linhares, de Campinas Reprodução
 | RETRATO
DE UMA TRAGÉDIA Fotomontagem com a silhueta de
M. no vídeo que gravou antes da fuga. No destaque, seu pai, Hudson, quando jovem
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A morte por envenenamento de
toda a sua família não foi a única tragédia na vida
da estudante M.M.C., de 15 anos. Segunda filha do casal Hudson da Silva Carvalho
e Thelma Almeida Migueis, a menina, até o início do ano, morava
em uma casa que ocupa um terreno de 850 metros quadrados em Campinas, interior
de São Paulo, com piscina, pomar e sala de ginástica. O pai, de
46 anos, médico homeopata, clinicava lá. A mãe, de 43, cuidava
da contabilidade do consultório. A família tinha quatro cachorros,
um gato, dois Pajero e, agora se sabe, um segredo: Hudson, afirma M., abusava
sexualmente das filhas desde que elas tinham 5 anos de idade. VEJA apurou que
a acusação foi feita pela menina a pelo menos seis pessoas
antes e depois da morte de seus pais, no dia 30 de janeiro, e da única
irmã, L., de 17 anos, no dia 31. Os três foram vítimas de
envenenamento por arsênico, provavelmente colocado em taças de musse
de chocolate, num caso que ganhou repercussão nacional. M., que também
ingeriu o veneno, conseguiu sobreviver. Amigas de
M. dizem que ela sempre teve pânico do pai. Uma de suas colegas na escola
adventista em que estudava conta que, desde que as duas tinham por volta de 12
anos de idade, M. costumava aparecer no colégio com os braços marcados
por hematomas. "A gente perguntava o que era aquilo e ela dizia que tinha caído",
diz a colega. Um dia, ao ter os braços roxos novamente comentados por amigas,
M. chorou. "Ela falou que o pai batia nela e que mexia nela e na irmã.
Mas a irmã não apanhava, só ela. É que a M. não
gostava de ir com o pai", afirma a amiga. Há dois anos, as queixas de M.
chegaram aos ouvidos de um professor do colégio, que decidiu levar a informação
à administração da escola. Hudson e Thelma foram chamados
para uma conversa com o diretor. O médico negou a acusação.
No dia seguinte, o diretor chamou M. à sua sala. Ela disse que havia mentido
e que o pai jamais a molestara. VEJA teve acesso
à casa em que a família vivia. Nas paredes, há muitas fotos
todas de Hudson. Na maior parte delas, o médico (que corria, fazia
musculação e praticava artes marciais) aparece se exercitando e
exibindo os músculos. Não há nenhum retrato de Thelma ou
das filhas. Hudson era um homem vaidoso e um pai severo. Proibia as meninas de
usar celular e navegar na internet. Amigas contam que as irmãs também
não podiam usar maquiagem, esmalte ou roupas decotadas. M., porém,
costumava driblar a rigidez paterna assim que entrava na perua escolar que a levava
ao colégio. "Quando subia no carro, logo passava batom", diz uma amiga.
Ela nutria o sonho de muitas meninas de sua idade: ser modelo.  | POR
TRÁS DOS SORRISOS O médico Hudson e a mulher,
Thelma: entre outras esquisitices, ele seria adepto da magia negra
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Em outubro do ano passado,
após uma discussão com o pai, M. fugiu de casa. Depois de perambular
por um dia no Rio de Janeiro, procurou um tio que mora na cidade, Lincoln Carvalho,
irmão de Hudson. Também a ele relatou histórias de abuso
sexual por parte do pai. O tio não acreditou. Levada de volta para casa,
M. foi proibida de ir ao colégio. Até o término das aulas,
foi somente quatro vezes à escola, sempre para fazer provas. O pai a acompanhou
em todas as ocasiões. À polícia, M. disse que, durante o
período em que ficou de castigo, permaneceu trancada no quarto, sem autorização
nem sequer para fazer as refeições na cozinha. Lincoln, o tio, diz
que a menina mente. "Ela ficou de castigo, sim, mas não em cárcere
privado. Andava pela casa e freqüentava restaurantes com a família",
afirma. Chamou a atenção da polícia, no entanto, a grande
quantidade de comida encontrada dentro de cômodas no quarto que as irmãs
dividiam: diversos pacotes de bolacha, facas de cozinha, caroços de fruta
e cerca de dez garrafas de água mineral. Atrás de uma dessas cômodas,
a polícia encontrou ainda um bilhete amassado, escrito com a letra de M.
Trazia frases desconexas: "L.: não precisa ter ciúme de mim. Pai:
Eu sei que você vai acabar me matando. Por isso estou fazendo isso. Não
quero te ver o resto da vida na cadeia. Eu queria amor de pai. Porque amor de
amigo não dá certo. Mãe: te amo. Te encontro no céu".
A polícia não sabe quando o bilhete foi escrito. O fato de ser endereçado
à família permite supor que a menina estivesse se referindo a um
provável plano de fuga ou de suicídio.
M. ainda estava de férias quando a família foi envenenada. Na sexta-feira
anterior às mortes, fez uma musse de chocolate que, segundo disse à
polícia, a família toda experimentou. No dia seguinte, ela, a irmã
e os pais almoçaram juntos em um shopping da cidade e, mais tarde, lancharam
em uma padaria. À noite, comeram novamente o doce. A musse foi servida
por Hudson, por volta das 21 horas, em taças de sobremesa. Dez minutos
depois, a família começou a passar mal, com vômitos e diarréia
contínua. M. diz que o pai impediu que fossem ao hospital, insistindo que
a indisposição passaria. A agonia da família durou quase
cinco horas. Somente de madrugada, Thelma, a mãe, ligou para o irmão
segundo M., às escondidas do marido , pedindo que enviasse
uma ambulância. Quando a família deu entrada no hospital Madre Maria
Theodora, às 2 da manhã, os médicos imediatamente suspeitaram
de envenenamento. Hudson e Thelma foram os primeiros a morrer. Apenas as duas
meninas chegaram a ter amostras de urina submetidas a reagentes para três
tipos de veneno: arsênico, bismuto e antimônio. Quando o resultado
saiu positivo para arsênico , elas receberam doses de dimercaprol,
um antídoto que acelera a eliminação da substância
pelo organismo. M. respondeu ao tratamento; L., não: seus rins, a essa
altura, já estavam paralisados. As irmãs apresentavam a mesma quantidade
de veneno na urina: cerca de 10.000 microgramas por amostra. Apenas 1.500 microgramas
são suficientes para matar uma pessoa. A
estada na casa da avó materna, para onde M. foi levada depois de receber
alta, durou pouco. Vizinhos contam que ouviam freqüentes brigas entre as
duas. M. disse à polícia que a avó a culpa pelas mortes.
No último dia 21 de fevereiro, a menina fugiu, levando 600 reais da avó
e deixando uma fita de vídeo. Nela, dizia ser inocente e afirmava que amava
a mãe e a irmã. Não fazia nenhuma alusão ao pai. L.,
a irmã, era portadora de lúpus. Tímida, não tinha
amigas. O pai queria que ela o sucedesse na farmácia de manipulação
da família. Thelma, a mãe, é descrita como uma mulher submissa.
Também vivia isolada e sofria de câncer linfático. Casada
com Hudson havia vinte anos, era a terceira mulher dele. A primeira, que mora
atualmente em uma cidade vizinha a Campinas, aceitou conversar com VEJA, desde
que sua identidade fosse mantida em sigilo. Ela afirma que, para se unir a Hudson,
teve de ser emancipada pelo pai: na época, era uma menina de apenas 14
anos. Hoje, tem 40. O retrato que traça do ex-marido é o de um homem
violento e obcecado por rituais de magia negra. Eles se conheceram em Campinas,
quando ela cursava o ginásio e ele já era estudante de medicina.
Ficaram casados por um ano, morando na casa da mãe de Hudson. Pelo menos
uma vez por semana, conta a mulher, o médico realizava estranhos rituais
no quarto do casal. "Pregada na parede, sobre uma cômoda, ele tinha uma
imagem que parecia um touro com cinco chifres. Ajoelhava-se diante dela e rezava."
A mulher conta ainda que Hudson era ciumento, surrava-a constantemente e tinha
fixação por limpeza. "Uma vez, me bateu porque fui ouvir alguns
de seus discos e deixei marcas de dedos neles." A polícia já havia
recebido informações do envolvimento do médico com rituais
de magia negra. Anexado ao inquérito sobre o envenenamento da família,
está a foto de um banheiro localizado dentro da garagem da casa em que
ela morava. Com as paredes pintadas de vermelho, o banheiro exibe, no teto, o
desenho de um rosto que mistura feições humanas e animalescas.
Até agora, Hudson é o principal suspeito pelo crime. O indício
mais forte contra ele é o testemunho de uma funcionária que trabalhava
em sua farmácia. Ela conta que, no fim de dezembro, o médico retirou
um frasco de arsênico do estoque e pediu à secretária que
registrasse o episódio como devolução de medicamento vencido.
Um vidro da substância foi encontrado pela polícia na casa da família,
praticamente vazio. Policiais que crêem na culpa do médico têm
uma tese para os motivos que o teriam levado a cometer o crime: ao divulgar a
acusação de que o pai a molestava, M. trouxe à baila um segredo
de família que, até então, Hudson vinha conseguindo manter
oculto. Diante das crescentes demonstrações de rebeldia da filha,
o médico teria sentido que perdera o controle da situação
e decidido matar-se, eliminando também a mulher e as filhas.
Lincoln Carvalho, irmão de Hudson, diz que não descarta "qualquer
possibilidade" para as mortes, mas afirma que há "dezenas de alternativas
para o nome do assassino". Para ele, as declarações da sobrinha
têm de ser vistas com desconfiança. M., afirma Lincoln, "apresenta
um quadro sério de psicopatia e tem flutuações de personalidade".
A psicóloga que acompanha o caso, Maria de Fátima dos Santos, diz
que M. tem revelado um discurso coerente. "Suas falas, até agora, não
têm mostrado contradições. Estamos checando a veracidade das
informações." M., localizada no início do mês em um
hotel em Guaíra, no Paraná, continua em tratamento para desintoxicação
de arsênico. Recebe poucas pessoas no hospital onde está internada
e dorme a maior parte do tempo. Quando está acordada, fala do medo que
sente de ser acusada pelo crime e ir para a cadeia. Fez apenas um pedido aos médicos:
o de que nenhum parente fosse autorizado a visitá-la.
"(...) PAI, EU SEI QUE VOCÊ VAI ACABAR ME
MATANDO. POR ISSO ESTOU FAZENDO ISSO. NÃO QUERO TE VER O RESTO DA VIDA
NA CADEIA. EU QUERIA AMOR DE PAI. PORQUE AMOR DE AMIGO NÃO DÁ CERTO
(...)" TRECHO DE BILHETE, SEM DATA,
ENCONTRADO PELA POLÍCIA ATRÁS DE UMA CÔMODA DO QUARTO
DE M. | | |