Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Partidos
Uma mancha na América Latina

Recursos das Farc vêm do
narcotráfico e dos seqüestros

 
Scott Dalton/AP
Ricardo Mazalan/AP
O DRAMA DOS CATIVOS
Lecompte, o marido, ao lado do cartaz com foto de Ingrid Betancourt. Ao lado, guerrilheiro seqüestrador das Farc

NESTA EDIÇÃO
Laços explosivos

A Abin descobriu que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deram dinheiro para militantes petistas. Mas de onde vem o dinheiro das Farc? A maior parte dos recursos do maior grupo guerrilheiro colombiano é obtida por meio de três atividades criminosas – seqüestros, tráfico de drogas e roubo de gado. Entre 1997 e 2004, 4.734 pessoas passaram pelos cativeiros mantidos pelas Farc em seus acampamentos no interior do país. Só no ano passado foram 700 cativos. Os pagamentos de resgate somaram 37,5 milhões de dólares apenas em 2003, de acordo com as últimas estimativas oficiais disponíveis. No mesmo ano, a guerrilha lucrou 31,8 milhões de dólares com o roubo de mais de 100.000 cabeças de gado. Especialistas calculam que as Farc controlam 30% do mercado de distribuição e exportação de cocaína na Colômbia. Em termos monetários, significa um faturamento anual entre 600 milhões e 800 milhões de dólares.

O seqüestro é uma atividade antiga da guerrilha colombiana. O envolvimento com o narcotráfico é mais recente. Começou no início da década de 90, quando uma ofensiva para erradicar as plantações de folha de coca na Bolívia e no Peru levou os cartéis colombianos a se associar com a guerrilha para o plantio nas áreas rurais sob controle dos esquerdistas. O negócio fez uma tremenda diferença. De guerrilheiros pobres, que tinham perdido a mesada de Cuba, as Farc se tornaram milionárias. Para administrarem o ritmo acelerado de sua indústria de seqüestros, as Farc adotam um procedimento padronizado. O valor do resgate é tabelado de acordo com a região do país e varia entre 5.000 e 15.000 dólares, para prisioneiros de classe média. No caso de grandes fazendeiros e funcionários de empresas estrangeiras pagam-se valores bem maiores. A guerrilha pressiona os familiares para que o pagamento seja efetuado em, no máximo, uma semana. A partir desse prazo, são informados de que a vida do refém corre risco.

Situação ainda mais dramática é a daqueles seqüestrados por motivos políticos. Nesses casos, a guerrilha não aceita o pagamento de resgate. Os cativos servem para ser trocados por guerrilheiros presos em negociações com o governo. Hoje, 64 reféns estão nessa situação. São 27 políticos, 34 militares e três civis americanos. O caso mais conhecido é o da escritora e senadora Ingrid Betancourt, de 43 anos, mãe de um casal de adolescentes. Candidata à Presidência nas eleições de 2002 por um pequeno partido ambientalista, Ingrid já era uma celebridade internacional antes de ser seqüestrada pelas Farc. Sua autobiografia, Coração Enfurecido, é best-seller na França e nos Estados Unidos. Seu marido, o publicitário Juan Carlos Lecompte, largou o trabalho para seguir obsessivamente qualquer pista sobre o paradeiro da mulher. Há um mês, quando o seqüestro completou três anos, ele lançou um livro relatando os 1.100 dias de seu sofrimento. "Minha vida virou do avesso, a ponto de eu não ter idéia se Ingrid vai me reconhecer quando for solta, de tão amargo e triste que me tornei", disse Lecompte a VEJA.

O desespero é compartilhado com os familiares de outros reféns políticos. Esses familiares mantêm um programa de rádio, As Vozes do Seqüestro, no qual enviam mensagens aos parentes no cativeiro. Também se reúnem todas as semanas na Praça Bolívar, em Bogotá, para pressionar as autoridades. Apesar da mobilização, as chances de rever os parentes são cada vez menores. A guerrilha chegou a estudar a troca dos reféns por 500 guerrilheiros presos. Mas recuou depois que o governo colombiano extraditou dois chefões das Farc para os Estados Unidos, onde respondem a processo por participação no tráfico de drogas. O drama dos mortos-vivos, como esses reféns são conhecidos, ainda está longe do fim.

 
 
 
 
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