Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Mundo hediondo –
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O embaixador americano Elbrick tinha sido raptado. A moçada do JB, na época um grande jornal carioca, se reuniu em torno da Condessa Pereira Carneiro (Rainha da Inglaterra do jornal), pra decisões. Papo quente, cada um achando que sabia o que fazer, cada um sabendo o who is who dos raptores. No meio do alá-lá-ô, alguém citou o nome de um presumível herói, logo cortado por um repórter: "Esse não. Esse é um babaca!". Foi um shhhs! geral, um quequéisso, um que grossura, ô cara!. Toda a moçada prafrentex (gíria da época) se escandalizou com a palavra obscena pronunciada diante da condessa.

Confesso que vivi, como dizia aquele chileno. Já fui censurado semanticamente, já briguei e já me demiti, por escrever assassinato (meu Deus, um galicismo!) em vez de assassínio, já houve tempo em que me consideraram pornográfico por escrever a palavra amante, e até a expressão "estou grávida" era impronunciável e impublicável. E estou falando de gravidez matrimonial, não a dessas meninas de 10 anos dos tempos atuais, quando o co-autor da gravidez tem de ser descoberto pelo DNA.

Bem, nunca fui propriamente um desbocado, mas nunca evitei uma palavra apropriada, soasse como soasse aos ouvidos mais castos. Na verdade nunca entendi bem o que é que estavam estranhando ou proibindo. Sei, sou um dos culpados por termos chegado aonde chegamos.

Por isso fico espantado que, aparentemente, só agora se tenha descoberto a pedofilia. E que o Poder mais escandalizado com a descoberta, ora vejam só!, tenha sido a Santa Madre Igreja. Uma instituição que, com seus segregacionismos sexuais, sabe, há séculos, que dentro dos conventos ninguém escapava ou escapa. Frades, freiras, madres, visitantes (conventos sempre abrigaram aventuras de nobres, daí lupanar se chamar conventilho), a Igreja sempre soube que as nossas almas mais nobres, reprimidas, se danavam, se desviando pra animalismos, homonismos, escatofagismos, e tudo o mais do repertório, sem falar na prostituição pura e simples. Tudo devidamente perseguido, almadiçoado, enforcado, queimado.

Pois é, como a caça às bruxas no passado, a caça à pedofilia é o esporte da vez. Depois do poder intemporal é o temporal. Na França, Chirac está perseguindo tudo o que seduz jovens com até 17 anos e 364 dias (18 anos e 1 dia, pode), aproveitando isso, naturalmente, pra enquadrar alguns muçulmanos que têm a ridícula mania de cobrir o rosto e rezar de cócoras.

E, como o show business americano não podia ficar fora dessa, pegaram Michael Jackson pra Cristo (nenhuma intenção sacrílega). Jackson, ninguém ignora, apesar dos milhões de dólares, é um pobre-diabo. Dada a onda gigantesca que se fez das intimidades dele, eu esperava que, no julgamento, aparecessem monstruosidades assustadoras. Apareceu apenas uma masturbaçãozinha aqui, uma bebidinha mais afoita ali, nada que não se faça nas melhores casas de família (que é, aliás, onde se pratica o incesto). Querem, os acusadores, condenar o infeliz a vinte anos de prisão. E receber alguma gaita por conta.

Eu, juiz, dava a Michael Jackson apenas um ou dois anos de cadeia por pedofilia branda. Mas não esqueceria de lhe dar mais cinco anos por ter pendurado o filho da janela de um edifício. Isso, sim, é uma mistura explosiva – pedofilia com show business.

 

 
 
 
 
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