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 | Hai-kai Mundo
hediondo Ninguém pergunta O que eu respondo |
Critérios
O embaixador americano Elbrick tinha sido raptado. A moçada do JB,
na época um grande jornal carioca, se reuniu em torno da Condessa Pereira
Carneiro (Rainha da Inglaterra do jornal), pra decisões. Papo quente, cada
um achando que sabia o que fazer, cada um sabendo o who is who dos raptores.
No meio do alá-lá-ô, alguém citou o nome de
um presumível herói, logo cortado por um repórter: "Esse
não. Esse é um babaca!". Foi um shhhs! geral, um quequéisso,
um que grossura, ô cara!. Toda a moçada prafrentex (gíria
da época) se escandalizou com a palavra obscena pronunciada diante
da condessa. Confesso que vivi, como dizia aquele
chileno. Já fui censurado semanticamente, já briguei e já
me demiti, por escrever assassinato (meu Deus, um galicismo!) em vez de
assassínio, já houve tempo em que me consideraram pornográfico
por escrever a palavra amante, e até a expressão "estou grávida"
era impronunciável e impublicável. E estou falando de gravidez matrimonial,
não a dessas meninas de 10 anos dos tempos atuais, quando o co-autor da
gravidez tem de ser descoberto pelo DNA. Bem, nunca
fui propriamente um desbocado, mas nunca evitei uma palavra apropriada, soasse
como soasse aos ouvidos mais castos. Na verdade nunca entendi bem o que é
que estavam estranhando ou proibindo. Sei, sou um dos culpados por termos chegado
aonde chegamos. Por isso fico espantado que, aparentemente,
só agora se tenha descoberto a pedofilia. E que o Poder mais escandalizado
com a descoberta, ora vejam só!, tenha sido a Santa Madre Igreja. Uma instituição
que, com seus segregacionismos sexuais, sabe, há séculos, que dentro
dos conventos ninguém escapava ou escapa. Frades, freiras, madres, visitantes
(conventos sempre abrigaram aventuras de nobres, daí lupanar se chamar
conventilho), a Igreja sempre soube que as nossas almas mais nobres, reprimidas,
se danavam, se desviando pra animalismos, homonismos, escatofagismos, e tudo o
mais do repertório, sem falar na prostituição pura e simples.
Tudo devidamente perseguido, almadiçoado, enforcado, queimado.
Pois é, como a caça às bruxas no passado, a caça à
pedofilia é o esporte da vez. Depois do poder intemporal é o temporal.
Na França, Chirac está perseguindo tudo o que seduz jovens com até
17 anos e 364 dias (18 anos e 1 dia, pode), aproveitando isso, naturalmente, pra
enquadrar alguns muçulmanos que têm a ridícula mania
de cobrir o rosto e rezar de cócoras. E,
como o show business americano não podia ficar fora dessa, pegaram
Michael Jackson pra Cristo (nenhuma intenção sacrílega).
Jackson, ninguém ignora, apesar dos milhões de dólares, é
um pobre-diabo. Dada a onda gigantesca que se fez das intimidades dele, eu esperava
que, no julgamento, aparecessem monstruosidades assustadoras. Apareceu apenas
uma masturbaçãozinha aqui, uma bebidinha mais afoita ali, nada que
não se faça nas melhores casas de família (que é,
aliás, onde se pratica o incesto). Querem, os acusadores, condenar o infeliz
a vinte anos de prisão. E receber alguma gaita por conta.
Eu, juiz, dava a Michael Jackson apenas um ou dois anos de cadeia por pedofilia
branda. Mas não esqueceria de lhe dar mais cinco anos por ter pendurado
o filho da janela de um edifício. Isso, sim, é uma mistura explosiva
pedofilia com show business. 
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