Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Diogo Mainardi
Adeus, Lula

"Esta é a última coluna em que Lula irá
aparecer.
Achincalhá-lo foi uma farra por
dois anos e meio.
Agora a farra acabou.
Peguei bode. Estou farto.
Fico com perebas
na pele só de
ver sua cara ou ouvir sua voz.
Somatizei Lula"

Enjoei de Lula. Esta é a última coluna em que ele irá aparecer. Achincalhá-lo foi uma farra por dois anos e meio. Agora a farra acabou. Peguei bode. Não quero mais falar sobre ele. Estou farto. Fico com perebas na pele só de ver sua cara ou ouvir sua voz. Somatizei Lula. De hoje em diante, ele morreu.

Desde que Lula chegou ao poder, dediquei cerca de 5.000 horas a ele. É mais do que dediquei a Flaubert. É mais do que dediquei a Tolstoi. Li tudo o que ele falou. Li sua obra completa. Fui de comício em comício, de palanque em palanque, recolhendo e analisando no microscópio cada despropositado perdigoto expelido por sua boca. Minha coluna se transformou numa espécie de bestiário lulista, em que colecionei todas as suas monstruosidades. Amolá-lo virou meu dever. Virou meu bordão. Virou meu ponto-de-venda. Semanalmente, eu era desafiado a inventar novas variações para a mesma piada, como no desenho animado do Beep-Beep, em que o coiote sempre acaba esmagado por uma pedra. A idéia era usar qualquer artifício para ridicularizá-lo. Comparei-o a um escravo vestido de rei do Congo. Aconselhei-o a parar de beber em público. Acusei-o de defender o regime do apartheid. Demonstrei que ele dá azar. Pedi-lhe entrevistas que não foram concedidas. Amaldiçoei-o dizendo que ninguém se lembrará dele daqui a dez anos.

Não sinto animosidade por Lula. Pelo contrário. Sou-lhe imensamente grato. Só tenho boas recordações do período. Acompanhei seu governo como se acompanha um filme vagabundo. Lula foi meu Plano 9 do Espaço Sideral particular. Filme vagabundo é para ser visto em companhia de amigos, assobiando, vaiando e avacalhando rumorosamente. Foi o que tentei fazer aqui na coluna. Filme vagabundo é assim: quanto pior, melhor. O divertimento está justamente na implausibilidade do roteiro, na incapacidade técnica, na precariedade de recursos, na ruindade dos atores. Lula conseguiu reunir tudo isso, como nos grandes clássicos do filme B. Quando meu fetichismo cinematográfico se esgotou, o divertimento também se esgotou. Tornou-se tédio. Chegou a hora de mudar.

Era bom depreciar Lula quando ninguém o fazia. Agora não. Todo mundo o deprecia. Mais e melhor do que eu. Institutos de pesquisa indicam que a popularidade do presidente continua alta, com 60 e tantos por cento. Não sei onde está essa gente toda. Não conheço ninguém feliz com ele. O único ponto que as pessoas ainda insistem em elogiar é a gestão da economia. É um erro. É dar-lhe uma canja indevida. Lula só é elogiável quando se considera a baixa expectativa que havia em relação a ele. O problema é que Lula não pode ser comparado a ele mesmo. Ele não concorreu sozinho à eleição. Seu adversário era José Serra. Para elogiar a gestão da economia de Lula, é necessário achar que o país estaria pior caso Serra tivesse sido eleito. Eu não acho isso. Acho que estaria melhor. Faríamos tudo igualzinho. Só que não teríamos perdido dois anos.

Adeus, Lula.

 
 
 
 
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