Edição 1896 . 16 de março de 2005

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Entrevista: Will Smith
"Eu vendo esperança"

O mais popular astro negro da história
do cinema diz que entreter a platéia vale
mil vezes mais do que ganhar um Oscar


Isabela Boscov

Cantor de rap milionário aos 18 anos, protagonista de uma bem-sucedida série de televisão – The Fresh Prince of Bel-Air – aos 22 e ícone do cinema aos 27, quando encabeçou o elenco da ficção científica Independence Day: Will Smith, o mais popular astro negro de todos os tempos (e o mais bem pago, com cachês que rodeiam os 20 milhões de dólares, fora sua participação na bilheteria), não é de brincar em serviço. Casado com a atriz Jada Pinkett Smith e pai de dois meninos e uma menina, Smith aplica seus lendários perfeccionismo e ambição não só ao trabalho, mas também à vida conjugal e familiar. É o que ele explica nesta entrevista concedida a VEJA no Rio de Janeiro, onde esteve para promover seu novo filme, Hitch – Conselheiro Amoroso, em que interpreta um especialista em ensinar homens titubeantes a conquistar a mulher de seus sonhos. Hitch é a primeira comédia romântica da carreira de Smith, mas provou que não é por mera sorte que a estrela dele brilha tão forte: depois de estrear nos Estados Unidos com um recorde de bilheteria para o gênero (43 milhões de dólares só no primeiro fim de semana em cartaz), ela já fez quase 900.000 espectadores no Brasil, onde segue de vento em popa. "A verdade", diz Smith, "é que a indústria de cinema só distingue uma cor: o verde dos dólares".

Veja – Há poucos negros tão bem-sucedidos quanto o senhor nos Estados Unidos. O senhor acha que virá o dia em que o país não estará cindido entre brancos e não-brancos?
Smith – Um país projetado sobre o trabalho escravo não se reinventa de um dia para o outro, nem mesmo de um século para o outro. O racismo faz parte da fibra de que a América é tecida. Não adianta dizer que a partir de determinado momento seremos todos iguais quando uma parte da população teve seu progresso atrasado em 200 anos. Digamos que bem agora, no meio desta entrevista, eu lhe dê uma bofetada, sem nenhum motivo ou razão. Nunca mais poderemos estar juntos no mesmo recinto sem que você tema que eu lhe dê outra bofetada – e sem que eu tema que você resolva me devolver a agressão. Por isso nos Estados Unidos os brancos nutrem tamanha desconfiança em relação aos negros que eles não conhecem – porque aquele pode ser o negro que virá lhe dar o troco.

Veja – Essa tensão entre brancos e negros é, então, insolúvel?
Smith – A natureza sempre é capaz de se refazer. No ano passado, Los Angeles sofreu com incêndios intensos. Em seguida vieram chuvas igualmente pesadas, e agora a natureza da região está mais luxuriante do que nunca. Tenho confiança de que os americanos também vão passar por um processo semelhante de recuperação e conciliação – apenas não tão rapidamente quanto gostaríamos.

Veja – O senhor pensa em participar desse processo de forma mais pública, ou ativa? Por exemplo, entrando para a política?
Smith – A política é um jogo sujo. O que é maravilhoso na arte, seja música, seja cinema, é que as regras da natureza não se aplicam a ela. As pessoas vão ao cinema e riem ou choram de verdade. É uma conexão real, que não está confinada aos parâmetros da competição. O que a arte faz é estimular essa parte essencial do ser humano que é a esperança, ao passo que a política é incapaz de gerar esse tipo de sentimento ou de cura. Isso é o que eu vendo: esperança. Hitch, por exemplo, defende a idéia de que qualquer homem é capaz de inspirar paixão em qualquer mulher. Esse não é o mundo que a maioria das pessoas habita. A maior parte dos homens vive sob a impressão de que existem obstáculos – pessoais, financeiros, de classe ou de raça – que não podem ser superados na busca por aquele tipo de felicidade que só uma mulher pode proporcionar. Para mim, criar esse sentimento no público é a razão de tudo.

Veja – O racismo vigora também no ambiente da indústria de cinema?
Smith – A verdade é que Hollywood só enxerga uma cor: o verde dos dólares. Se você é bom de bilheteria – e eu felizmente sou –, todas as outras distinções desaparecem.

Veja – O senhor já declarou que é um admirador dos livros do escritor brasileiro Paulo Coelho. Por quê?
Smith – Vivo a vida de acordo com uma frase de O Alquimista, que diz que todo o universo está contido num grão de areia. O que isso significa para mim é que, seja qual for seu trabalho, ele pode conter todas as lições do universo, desde que você o faça com dedicação e profundidade, buscando o domínio completo sobre ele. Essa é a filosofia que aplico ao meu trabalho como ator, e que tento transmitir aos meus filhos.

Veja – O senhor disse certa vez que prefere mil vezes quebrar um recorde de bilheteria a ganhar um Oscar. Por quê?
Smith – A única coisa de que eu realmente preciso é da sensação de que a platéia se divertiu ou se emocionou com meu trabalho. O ideal, para mim, seria que um filme combinasse arte e entretenimento. O que eu almejo é algo como Forrest Gump, Titanic ou Casablanca, um filme que estabeleça uma conexão espiritual com o público mas que também funcione do ponto de vista comercial. Ali, sobre o boxeador Muhammad Ali, foi minha tentativa de chegar lá – ainda que não tenha sido recebido como eu esperava. No fundo, ainda sou aquele garoto de 12 anos que se fascinou assistindo a Star Wars, e é nesse espírito que faço minhas escolhas. Talvez, à medida que eu envelheça e amadureça, passe a procurar outras coisas. Mas o que eu ainda quero é essa emoção.

Veja – O que o levou a se interessar pelo papel do protagonista em seu novo filme, Hitch – Conselheiro Amoroso?
Smith – Com os meus amigos, ajo exatamente como o personagem, dando conselhos amorosos a torto e a direito. Sou um estudioso da interação entre homens e mulheres. Veja só: dedicamos quarenta, sessenta ou até oitenta horas por semana ao trabalho, porque isso é o necessário para fazê-lo bem-feito. De onde então tiramos a idéia de que bastam vinte minutos de atenção a um relacionamento, encaixados no meio de todas as nossas outras obrigações, para que ele seja bem-sucedido? Se passássemos só meia hora por semana no emprego, seríamos demitidos. E isso é o que acontece com muitos casamentos: faltamos ao trabalho e perdemos o emprego. Eu já fui demitido várias vezes dos meus relacionamentos, e por isso tento me tornar um especialista na matéria, como o protagonista de Hitch. Minha mulher é importante demais para mim para que eu me descuide de meu casamento.

Veja – O senhor também titubeia e perde as palavras na hora de se abrir com sua mulher, como o personagem?
Smith – Espero já ter passado dessa fase. Isso é o que acontece com homens que guardam ou ignoram os seus sentimentos até o ponto em que eles explodem e atropelam as palavras. Se eles cultivassem o hábito de conversar com as mulheres, sempre e um pouco de cada vez, teriam a chance de se expressar melhor.

Veja – O senhor e sua parceira de cena em Hitch, Eva Mendes, têm aquilo que se chama de "química". Ainda que sua mulher seja atriz e compreenda que isso faz parte do ofício, situações como essa não causam ciúme, de parte a parte?
Smith – Não, porque meu relacionamento com Jada é baseado cem por cento na honestidade. A honestidade é o elixir que cura o ciúme. Se seu parceiro fala sempre a verdade – toda a verdade –, não sobra combustível para alimentar esse tipo de desconforto. Se eu estivesse tão atraído por Eva que tivesse de dormir com ela, contar isso a Jada daria a ela a oportunidade de decidir que atitude tomar – por exemplo, me pôr para fora de casa ou arrumar também ela um namoro. Da mesma forma, contar a Jada que acho Eva atraente e que às vezes rolava um flerte superficial quando íamos fazer uma cena, mas que a coisa definitivamente parou por aí, poupa a nós dois das especulações dolorosas e fúteis que nascem da incerteza. O importante é pôr todas as cartas na mesa e garantir que sua palavra valha sempre. E tanto Jada como eu vivemos pela honra da nossa palavra. Se algum jornal publicar que fiquei nu no terraço do hotel no Rio de Janeiro, não preciso ligar para Jada para desmentir a notícia. Se eu não contei isso a ela, ela sabe, sem sombra de dúvida, que é porque não aconteceu de fato.

Veja – Essa opção pela honestidade é algo que o senhor aprendeu com o divórcio de sua primeira mulher?
Smith – Somos todos colagens de nossas dores e triunfos passados – mais das dores do que dos triunfos –, e o fato é que cada vez acredito menos em divórcio. Casar-se com alguém é empenhar a palavra. Você não pode prometer diante de Deus, de sua família e de seus amigos uma união até a morte, e intimamente pensar que se as coisas não correrem como o esperado a separação está aí para isso. Se alguém mente para Deus, certamente vai mentir para você também. Não sou o tipo de pessoa que entra num casamento trabalhando com a hipótese de divórcio. Ainda mais porque, quando um casal tem um filho, o relacionamento se torna indissolúvel, quer você queira quer não.

Veja – O senhor ganha milhões de dólares por filme e vive cercado de adulação. Preocupa-o que, nesse ambiente, seus filhos venham a formar uma idéia distorcida do que é a vida?
Smith – Acredito piamente que a natureza de um indivíduo se sobrepõe quase sempre à educação. Acho que nascemos com um determinado espírito ou índole, que trata de se impor. Alguns de nós, porém, têm espírito mais delicado e suscetível à influência. Meus filhos têm 12, 6 e 4 anos, e já é possível saber quem eles vão ser. O mais velho e a mais nova têm o espírito inquebrantável: eles saíram do útero sabendo aonde querem chegar e como. O do meio é mais carente de orientação. Ele é muito criativo, e por isso tem dificuldade em escolher entre todas as idéias que convivem em sua cabeça. Para ele, cuido de explicar que vivemos numa casa como a nossa porque trabalho desde os 16 anos e tive a sorte de ter sucesso – além de ter exercitado a abnegação que ele exigiu. Também gosto de ensinar que existe uma coisa chamada carma: quando se trata bem os outros, essa energia volta para você de alguma forma.

Veja – Já pensou em se lançar como diretor?
Smith – Justamente por trabalhar tanto é que não tenho tempo de pensar nisso. De mais a mais, dirijo muitos filmes: os curtas-metragens que faço com meus filhos. Quando eu era pequeno, ajudava meu pai no negócio dele, uma empresa de refrigeração. A meu ver, essa é a única maneira de verdadeiramente transmitir aos filhos aquilo que se sabe – trabalhar lado a lado. Por isso fazemos nossos filminhos domésticos. Talvez um dia eu dê uma de Clint Eastwood e passe também a dirigir longas-metragens.

Veja – O senhor já decidiu qual será seu próximo filme?
Smith – Ainda não, mas Hitch representou uma certa mudança de rumo. Meu filho do meio, justamente aquele que é cheio de idéias, fez um comentário contundente depois de assistir a Eu, Robô que me deixou com a pulga atrás da orelha. "Papai, tenho 5 anos e você já salvou o mundo quatro vezes." E isso foi dito num leve tom de crítica. Não poderia haver sinal mais claro de que está na hora de deixar de lado os papéis heróicos. Sabe como é, da boca dos bebês é que vem a verdade. Por isso fiz a voz do protagonista no desenho O Espanta Tubarões e, agora, uma comédia romântica. Seja como for, durante os próximos meses vou trabalhar no meu novo CD. O mundo da música é muito mais próximo daquilo que as pessoas estão sentindo e pensando do que o do cinema. Ainda que se produza um filme muito rápido, o processo nunca toma menos do que três meses – na melhor das hipóteses. Mas, se eu gravar uma música no meu estúdio ao meio-dia de hoje, às 3 da tarde ela já pode estar nas rádios. É uma comunicação muito mais imediata com o público. Por isso, sempre que tenho a oportunidade de voltar à música, trato de aproveitá-la.

Veja – O que o senhor quer comunicar com tanta rapidez?
Smith – Minhas músicas falam sempre do que eu conheço – a minha vida. Por exemplo, sobre como é muito mais fácil chegar ao topo do que permanecer nele.

Veja – Como permanecer no topo?
Smith – Quando falo de "topo", não me refiro necessariamente a salário ou bilheteria. Quando eu tinha 12 anos, assisti a Star Wars e me apaixonei perdidamente pelo cinema. Fiquei fascinado pela idéia de que alguém podia imaginar algo e transpor essa visão para a tela, para que eu pudesse compartilhá-la. Existe uma diferença entre escolher uma cor de carpete diante de cinco amostras e dar forma, detalhe por detalhe, a algo que não existe na realidade, como o mundo de Star Wars. Tudo nele vem dessa fonte vasta e universal que chamamos de imaginação. Esse é o objetivo que venho perseguindo ao longo de toda a minha carreira: quero que um garoto que está sentado ali na platéia sinta o que eu senti quando vi Star Wars. Isso para mim é o topo.

 
 
 
 
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