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Entrevista:
Will Smith
"Eu vendo esperança"
O mais popular astro negro da história
do cinema diz que entreter a platéia vale
mil vezes mais do que ganhar um Oscar

Isabela Boscov
Cantor de rap milionário
aos 18 anos, protagonista de uma bem-sucedida série de televisão
The Fresh Prince of Bel-Air aos 22 e ícone
do cinema aos 27, quando encabeçou o elenco da ficção
científica Independence Day: Will Smith, o mais popular
astro negro de todos os tempos (e o mais bem pago, com cachês
que rodeiam os 20 milhões de dólares, fora sua participação
na bilheteria), não é de brincar em serviço.
Casado com a atriz Jada Pinkett Smith e pai de dois meninos e uma
menina, Smith aplica seus lendários perfeccionismo e ambição
não só ao trabalho, mas também à vida
conjugal e familiar. É o que ele explica nesta entrevista
concedida a VEJA no Rio de Janeiro, onde esteve para promover seu
novo filme, Hitch Conselheiro Amoroso, em que interpreta
um especialista em ensinar homens titubeantes a conquistar a mulher
de seus sonhos. Hitch é a primeira comédia
romântica da carreira de Smith, mas provou que não
é por mera sorte que a estrela dele brilha tão forte:
depois de estrear nos Estados Unidos com um recorde de bilheteria
para o gênero (43 milhões de dólares só
no primeiro fim de semana em cartaz), ela já fez quase 900.000
espectadores no Brasil, onde segue de vento em popa. "A verdade",
diz Smith, "é que a indústria de cinema só
distingue uma cor: o verde dos dólares".
Veja Há
poucos negros tão bem-sucedidos quanto o senhor nos Estados
Unidos. O senhor acha que virá o dia em que o país
não estará cindido entre brancos e não-brancos?
Smith Um país projetado sobre o trabalho escravo
não se reinventa de um dia para o outro, nem mesmo de um
século para o outro. O racismo faz parte da fibra de que
a América é tecida. Não adianta dizer que a
partir de determinado momento seremos todos iguais quando uma parte
da população teve seu progresso atrasado em 200 anos.
Digamos que bem agora, no meio desta entrevista, eu lhe dê
uma bofetada, sem nenhum motivo ou razão. Nunca mais poderemos
estar juntos no mesmo recinto sem que você tema que eu lhe
dê outra bofetada e sem que eu tema que você
resolva me devolver a agressão. Por isso nos Estados Unidos
os brancos nutrem tamanha desconfiança em relação
aos negros que eles não conhecem porque aquele pode
ser o negro que virá lhe dar o troco.
Veja Essa tensão
entre brancos e negros é, então, insolúvel?
Smith A natureza sempre é capaz de se refazer.
No ano passado, Los Angeles sofreu com incêndios intensos.
Em seguida vieram chuvas igualmente pesadas, e agora a natureza
da região está mais luxuriante do que nunca. Tenho
confiança de que os americanos também vão passar
por um processo semelhante de recuperação e conciliação
apenas não tão rapidamente quanto gostaríamos.
Veja O senhor
pensa em participar desse processo de forma mais pública,
ou ativa? Por exemplo, entrando para a política?
Smith A política é um jogo sujo. O que
é maravilhoso na arte, seja música, seja cinema, é
que as regras da natureza não se aplicam a ela. As pessoas
vão ao cinema e riem ou choram de verdade. É uma conexão
real, que não está confinada aos parâmetros
da competição. O que a arte faz é estimular
essa parte essencial do ser humano que é a esperança,
ao passo que a política é incapaz de gerar esse tipo
de sentimento ou de cura. Isso é o que eu vendo: esperança.
Hitch, por exemplo, defende a idéia de que qualquer
homem é capaz de inspirar paixão em qualquer mulher.
Esse não é o mundo que a maioria das pessoas habita.
A maior parte dos homens vive sob a impressão de que existem
obstáculos pessoais, financeiros, de classe ou de
raça que não podem ser superados na busca por
aquele tipo de felicidade que só uma mulher pode proporcionar.
Para mim, criar esse sentimento no público é a razão
de tudo.
Veja O racismo
vigora também no ambiente da indústria de cinema?
Smith A verdade é que Hollywood só enxerga
uma cor: o verde dos dólares. Se você é bom
de bilheteria e eu felizmente sou , todas as outras
distinções desaparecem.
Veja O senhor
já declarou que é um admirador dos livros do escritor
brasileiro Paulo Coelho. Por quê?
Smith Vivo a vida de acordo com uma frase de O
Alquimista, que diz que todo o universo está contido
num grão de areia. O que isso significa para mim é
que, seja qual for seu trabalho, ele pode conter todas as lições
do universo, desde que você o faça com dedicação
e profundidade, buscando o domínio completo sobre ele. Essa
é a filosofia que aplico ao meu trabalho como ator, e que
tento transmitir aos meus filhos.
Veja O senhor
disse certa vez que prefere mil vezes quebrar um recorde de bilheteria
a ganhar um Oscar. Por quê?
Smith A única coisa de que eu realmente preciso
é da sensação de que a platéia se divertiu
ou se emocionou com meu trabalho. O ideal, para mim, seria que um
filme combinasse arte e entretenimento. O que eu almejo é
algo como Forrest Gump, Titanic ou Casablanca, um
filme que estabeleça uma conexão espiritual com o
público mas que também funcione do ponto de vista
comercial. Ali, sobre o boxeador Muhammad Ali, foi minha
tentativa de chegar lá ainda que não tenha
sido recebido como eu esperava. No fundo, ainda sou aquele garoto
de 12 anos que se fascinou assistindo a Star Wars, e é
nesse espírito que faço minhas escolhas. Talvez, à
medida que eu envelheça e amadureça, passe a procurar
outras coisas. Mas o que eu ainda quero é essa emoção.
Veja O que o
levou a se interessar pelo papel do protagonista em seu novo filme,
Hitch Conselheiro Amoroso?
Smith Com os meus amigos, ajo exatamente como o personagem,
dando conselhos amorosos a torto e a direito. Sou um estudioso da
interação entre homens e mulheres. Veja só:
dedicamos quarenta, sessenta ou até oitenta horas por semana
ao trabalho, porque isso é o necessário para fazê-lo
bem-feito. De onde então tiramos a idéia de que bastam
vinte minutos de atenção a um relacionamento, encaixados
no meio de todas as nossas outras obrigações, para
que ele seja bem-sucedido? Se passássemos só meia
hora por semana no emprego, seríamos demitidos. E isso é
o que acontece com muitos casamentos: faltamos ao trabalho e perdemos
o emprego. Eu já fui demitido várias vezes dos meus
relacionamentos, e por isso tento me tornar um especialista na matéria,
como o protagonista de Hitch. Minha mulher é importante
demais para mim para que eu me descuide de meu casamento.
Veja O senhor
também titubeia e perde as palavras na hora de se abrir com
sua mulher, como o personagem?
Smith Espero já ter passado dessa fase. Isso
é o que acontece com homens que guardam ou ignoram os seus
sentimentos até o ponto em que eles explodem e atropelam
as palavras. Se eles cultivassem o hábito de conversar com
as mulheres, sempre e um pouco de cada vez, teriam a chance de se
expressar melhor.
Veja O senhor
e sua parceira de cena em Hitch, Eva Mendes, têm aquilo
que se chama de "química". Ainda que sua mulher seja atriz
e compreenda que isso faz parte do ofício, situações
como essa não causam ciúme, de parte a parte?
Smith Não, porque meu relacionamento com Jada
é baseado cem por cento na honestidade. A honestidade é
o elixir que cura o ciúme. Se seu parceiro fala sempre a
verdade toda a verdade , não sobra combustível
para alimentar esse tipo de desconforto. Se eu estivesse tão
atraído por Eva que tivesse de dormir com ela, contar isso
a Jada daria a ela a oportunidade de decidir que atitude tomar
por exemplo, me pôr para fora de casa ou arrumar também
ela um namoro. Da mesma forma, contar a Jada que acho Eva atraente
e que às vezes rolava um flerte superficial quando íamos
fazer uma cena, mas que a coisa definitivamente parou por aí,
poupa a nós dois das especulações dolorosas
e fúteis que nascem da incerteza. O importante é pôr
todas as cartas na mesa e garantir que sua palavra valha sempre.
E tanto Jada como eu vivemos pela honra da nossa palavra. Se algum
jornal publicar que fiquei nu no terraço do hotel no Rio
de Janeiro, não preciso ligar para Jada para desmentir a
notícia. Se eu não contei isso a ela, ela sabe, sem
sombra de dúvida, que é porque não aconteceu
de fato.
Veja Essa opção
pela honestidade é algo que o senhor aprendeu com o divórcio
de sua primeira mulher?
Smith Somos todos colagens de nossas dores e triunfos
passados mais das dores do que dos triunfos , e o fato
é que cada vez acredito menos em divórcio. Casar-se
com alguém é empenhar a palavra. Você não
pode prometer diante de Deus, de sua família e de seus amigos
uma união até a morte, e intimamente pensar que se
as coisas não correrem como o esperado a separação
está aí para isso. Se alguém mente para Deus,
certamente vai mentir para você também. Não
sou o tipo de pessoa que entra num casamento trabalhando com a hipótese
de divórcio. Ainda mais porque, quando um casal tem um filho,
o relacionamento se torna indissolúvel, quer você queira
quer não.
Veja O senhor
ganha milhões de dólares por filme e vive cercado
de adulação. Preocupa-o que, nesse ambiente, seus
filhos venham a formar uma idéia distorcida do que é
a vida?
Smith Acredito piamente que a natureza de um indivíduo
se sobrepõe quase sempre à educação.
Acho que nascemos com um determinado espírito ou índole,
que trata de se impor. Alguns de nós, porém, têm
espírito mais delicado e suscetível à influência.
Meus filhos têm 12, 6 e 4 anos, e já é possível
saber quem eles vão ser. O mais velho e a mais nova têm
o espírito inquebrantável: eles saíram do útero
sabendo aonde querem chegar e como. O do meio é mais carente
de orientação. Ele é muito criativo, e por
isso tem dificuldade em escolher entre todas as idéias que
convivem em sua cabeça. Para ele, cuido de explicar que vivemos
numa casa como a nossa porque trabalho desde os 16 anos e tive a
sorte de ter sucesso além de ter exercitado a abnegação
que ele exigiu. Também gosto de ensinar que existe uma coisa
chamada carma: quando se trata bem os outros, essa energia volta
para você de alguma forma.
Veja Já
pensou em se lançar como diretor?
Smith Justamente por trabalhar tanto é que
não tenho tempo de pensar nisso. De mais a mais, dirijo muitos
filmes: os curtas-metragens que faço com meus filhos. Quando
eu era pequeno, ajudava meu pai no negócio dele, uma empresa
de refrigeração. A meu ver, essa é a única
maneira de verdadeiramente transmitir aos filhos aquilo que se sabe
trabalhar lado a lado. Por isso fazemos nossos filminhos
domésticos. Talvez um dia eu dê uma de Clint Eastwood
e passe também a dirigir longas-metragens.
Veja O senhor
já decidiu qual será seu próximo filme?
Smith Ainda não, mas Hitch representou
uma certa mudança de rumo. Meu filho do meio, justamente
aquele que é cheio de idéias, fez um comentário
contundente depois de assistir a Eu, Robô que me deixou
com a pulga atrás da orelha. "Papai, tenho 5 anos e você
já salvou o mundo quatro vezes." E isso foi dito num leve
tom de crítica. Não poderia haver sinal mais claro
de que está na hora de deixar de lado os papéis heróicos.
Sabe como é, da boca dos bebês é que vem a verdade.
Por isso fiz a voz do protagonista no desenho O Espanta Tubarões
e, agora, uma comédia romântica. Seja como for, durante
os próximos meses vou trabalhar no meu novo CD. O mundo da
música é muito mais próximo daquilo que as
pessoas estão sentindo e pensando do que o do cinema. Ainda
que se produza um filme muito rápido, o processo nunca toma
menos do que três meses na melhor das hipóteses.
Mas, se eu gravar uma música no meu estúdio ao meio-dia
de hoje, às 3 da tarde ela já pode estar nas rádios.
É uma comunicação muito mais imediata com o
público. Por isso, sempre que tenho a oportunidade de voltar
à música, trato de aproveitá-la.
Veja O que o
senhor quer comunicar com tanta rapidez?
Smith Minhas músicas falam sempre do que eu
conheço a minha vida. Por exemplo, sobre como é
muito mais fácil chegar ao topo do que permanecer nele.
Veja Como permanecer
no topo?
Smith Quando falo de "topo", não me refiro
necessariamente a salário ou bilheteria. Quando eu tinha
12 anos, assisti a Star Wars e me apaixonei perdidamente
pelo cinema. Fiquei fascinado pela idéia de que alguém
podia imaginar algo e transpor essa visão para a tela, para
que eu pudesse compartilhá-la. Existe uma diferença
entre escolher uma cor de carpete diante de cinco amostras e dar
forma, detalhe por detalhe, a algo que não existe na realidade,
como o mundo de Star Wars. Tudo nele vem dessa fonte vasta
e universal que chamamos de imaginação. Esse é
o objetivo que venho perseguindo ao longo de toda a minha carreira:
quero que um garoto que está sentado ali na platéia
sinta o que eu senti quando vi Star Wars. Isso para mim é
o topo.
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