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André
Petry Aborto, uma vitória católica
"O enfoque da Igreja Católica é
chocante, pois pressupõe que as mulheres são essencialmente
mentirosas e que, quando têm uma brecha qualquer, fazem abortos com
a voracidade de moscas buscando
açúcar" Finalmente o Brasil
começa a dar sinais de entender que o aborto integra a lista de direitos
inalienáveis da mulher de seus direitos reprodutivos, de seus direitos
sexuais, de seus direitos sobre o próprio corpo. Duas decisões fortalecem
essa impressão. A primeira veio dos trinta membros do Conselho Nacional
de Saúde, que assessora e orienta o ministro da área. Numa reunião
de cinco horas, eles decidiram por 27 votos contra 3 manifestar-se
a favor do direito da mulher de abortar quando grávida de um feto sem cérebro,
cuja vida fora do útero é 100% inviável. A decisão
é importante porque ajuda a ampliar o coro dos que defendem a legalização
do aborto de fetos sem cérebro, tema que a Justiça deverá
julgar em breve. A outra decisão veio na forma de uma norma do Ministério
da Saúde. A norma diz o seguinte: mulheres grávidas de estupro agora
podem abortar nos hospitais públicos sem apresentar o boletim de ocorrência
da polícia. É outra medida que merece aplauso. Revela o devido respeito
à mulher, na medida em que dá à sua palavra a mesma importância
dada a um boletim burocrático, e sobretudo retira da órbita policial
uma questão de saúde física e psicológica.
E isso pode ser chamado de vitória católica?
No Conselho Nacional de Saúde, entre os três votos contrários
ao aborto de feto sem cérebro estava o de Zilda Arns, que representa a
entidade dos bispos católicos do Brasil. A Igreja Católica, todos
sabemos, é contra o aborto em qualquer situação. Em caso
de risco de morte para a mãe, em caso de gravidez resultante de estupro,
em caso de fetos sem chance de sobrevivência fora do útero. A Igreja
Católica também rejeita a nova norma do Ministério da Saúde.
Teme que, sem terem de registrar a ocorrência do estupro numa delegacia,
as mulheres farão abortos nos hospitais públicos mesmo quando não
sofrerem estupro... Teme, portanto, que a nova norma sirva de estímulo
ao aborto nos hospitais do SUS. É um enfoque chocante, pois pressupõe
que as mulheres são essencialmente mentirosas e que, quando encontram uma
brecha qualquer, fazem abortos com a voracidade de moscas buscando açúcar...
A novidade é que a flexibilização
da lei do aborto incomoda a cúpula da Igreja Católica, mas não
os fiéis. Pelo menos, a maioria dos fiéis. O grupo Católicas
pelo Direito de Decidir, formado por defensoras do direito da mulher sobre seu
corpo, encomendou uma pesquisa ao Ibope. A pesquisa levantou a opinião
geral, de toda a população, e a opinião apenas dos católicos
sobre o aborto. Descobriu que os católicos são mais liberais que
a população em geral. Um exemplo: 76% dos brasileiros concordam
com o aborto de fetos com problemas letais, mas esse número chega a 80%
entre os católicos. Outro: 62% dos brasileiros defendem o aborto em caso
de estupro, e 67% dos católicos têm a mesma posição.
Mais um: 74% dos brasileiros querem que o SUS ofereça o serviço
de aborto nos casos previstos em lei, e 78% dos católicos dizem o mesmo.
Ou seja: flexibilizar a lei do aborto é uma vitória da maioria do
povo brasileiro, particularmente dos católicos. |