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Tales
Alvarenga Carnaval virtual
"Vendo
o Carnaval pela televisão, com todas aquelas celebridades nos carros alegóricos
e nos camarotes, o brasileiro tem a
ilusão de que o país inteiro está
metido na fuzarca. Não está"
Se eu fosse chamado a organizar
o Carnaval, começaria por dispensar os sambistas que desfilam como se estivessem
fazendo ginástica aeróbica na avenida, como bem definiu o presidente
da Portela, Nilo Figueiredo. Os "estrangeiros", que hoje lotam a passarela depois
de comprar a fantasia no morro, estragam metade da festa.
Eu proibiria as alas de aparecer com qualquer tipo de chapéu, capacete
ou coroa na cabeça. Essas coisas tendem inexoravelmente a desabar. Outra
coisa incômoda é a qualidade artística daquelas figuras de
tigres que se mexem, dragões que põem fumaça pelas narinas
e águias de asas quebradas. Essas esculturas, moldadas com estética
primitiva, são grotescas. Como
nos shows musicais da Broadway, é preciso ter no Carnaval gente que saiba
dançar, cantar e compor direito. Os sambas-enredo de hoje são deploráveis.
Finalmente, está na hora de organizar o barulho. Há percussão
demais. Eu baixaria o tom da percussão e incluiria instrumentos que fazem
melodia de verdade. O Carnaval é uma bela festa, mas tem falhas. Está
na hora de corrigi-las. Para os intelecas
que gostam de analisar o Carnaval, ele é a representação
da alma brasileira. É a prova de que o habitante do patropi é desinibido
e não sofre as repressões sexuais dos branquelos europeus. No Carnaval,
um clima de alegria pagã envolveria os foliões. Normas sociais seriam
subvertidas e desapareceriam as marcações entre pobres e ricos,
brancos e negros, proletários, bicheiros e artistas.
A verdade é que esse era o Carnaval até meados do século
passado, num país rural, analfabeto e ingênuo. Todo mundo saía
à rua e se misturava. Aceitava-se que o folião vestido de mulher
desse umbigada em madame e o garoto pobre jogasse talco na cabeça do doutor.
O Carnaval de hoje, fechado nos sambódromos
ou nos circuitos de rua preestabelecidos, é a festa de um país industrializado.
Nada tem de ingênuo. Por trás das escolas de samba, há planejamento.
Por isso, todas elas parecem ter saído do mesmo molde. A semelhança
de umas com as outras torna um pouco entediante ver os desfiles.
Em Salvador, onde o Carnaval tem participação maior do povão,
ele já se transformou em show musical puro e simples. Cantores como Daniela
Mercury e Ivete Sangalo passam cantando no alto de enormes caminhões (palcos)
com conjunto de som em que dominam as guitarras elétricas. Nada de passista,
bateria ou fantasia. Esse estilo foi criado lá pelo meio do século
passado pela dupla Dodô e Osmar. Inventaram o trio elétrico
cujo nome já diz tudo. Vendo
o Carnaval pela televisão, com todas aquelas celebridades nos carros alegóricos
e nos camarotes, o brasileiro tem a ilusão de que o país inteiro
está metido na fuzarca. Não está. De um lado, um grupo apresenta
seu número. Do outro, milhões assistem na sala de TV.
O Carnaval é hoje uma realização profissional que envolve
planejamento, gastos, patrocínio e direção. Como qualquer
espetáculo, empreendimentos assim tendem a ir se livrando de sua espontaneidade
de origem. Isso não significa que o Carnaval esteja pior. Ficou apenas
diferente. Não vivemos mais no país do Carnaval. É apenas
um país com Carnaval. |