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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Harvard
foi parar no Irajá
"Quando
examinamos as universidades particulares de primeira linha pelo mundo
afora, verificamos que nelas manda quem é responsável por seu
sucesso ou seu fracasso"
Deixemo-nos levar pelas asas
da imaginação. Suponhamos que ocorreram dois eventos de magna importância.
Primeiro, a lei que reforma a universidade brasileira foi aprovada na íntegra.
Segundo, Harvard se mudou para o Irajá, no Rio de Janeiro, e faz tudo exatamente
como sempre vinha fazendo (aliás, o presidente Larry Summers já
comprou casa em Nilópolis e vai sair na Beija-Flor). Vejamos como funciona
Harvard, a nova:
Os seus institutos de pesquisa não são "integrados" (e tutelados)
pelo governo federal. São independentes e donos de seu nariz.
O campus está cheio de estrangeiros, ensinando e chefiando departamentos.
No futuro, todos os alunos deverão passar pelo menos um semestre em outro
país, perdendo a sua cultura e apreendendo línguas alienígenas.
Os departamentos (ou suas fundações) vendem seus projetos livremente
e se apropriam do dinheiro, não dando nenhuma satisfação
à reitoria. Não existe caixa único. Seu ensino é mercantilizado,
pois cobra vorazmente de todos a quem vende cursos, serviços e pesquisas.
Nada é de graça (embora haja muitas bolsas para quem não
pode pagar). Há uma busca furiosa por recursos, onde quer que possam estar.
Dentre pobres e ricos, entram somente os candidatos mais talentosos, impiedosamente
selecionados.
Não existe gestão democrática nem votação direta
para cargo nenhum. Não há participação de sindicatos
no processo decisório. Os habitantes locais não dão palpites,
pois Harvard não tem "articulação com a sociedade local".
Tampouco existe "gestão pluralista dos recursos da instituição",
ou "comitês superiores de funcionários e alunos". Não há
conselhos eleitos por instituições externas, para dar diretrizes
e fiscalizar seu funcionamento, nem membros do MST em seus conselhos.
De fato,
não há pessoas ou instituições de fora mandando, dando
orientações ou escolhendo os seus dirigentes.
Diante de tamanhos descalabros e ofensas, depois do parecer de seus doutos avaliadores,
o MEC manda fechar Harvard. As suas práticas contrariam quase todos os
princípios postulados pela nova legislação. Portanto, não
é digna de permanecer em solo verde-e-amarelo. É justa a sua expulsão.
Larry Summers recebe convites de 189 países, pedindo que sejam escolhidos
como nova localização.
Mas voltemos ao mundo real. Harvard é considerada a melhor universidade
do mundo. Quando universidades suecas saíram desse trilho e adotaram princípios
na linha dos que estão na proposta de lei brasileira, criou-se uma grande
balbúrdia e houve perda de qualidade. A coroa sueca foi obrigada a formar
uma comissão internacional para descobrir por que havia despencado o seu
desempenho. Em uma conferência na USP, o grande matemático francês
Laurent Schwartz narrou sua participação nesse grupo, cuja conclusão
foi simples: o experimento não havia dado certo. Por indicação
da comissão, a Suécia voltou atrás. A lição
foi aprendida, e nenhum país sério jamais se aventurou novamente
por esses caminhos. Todos adotam regras semelhantes às de Harvard. De fato,
quem quer virar universidade de primeira linha manda emissários às
melhores para copiar algum modelo de gestão muito parecido com o daquela
universidade. Quando examinamos as
universidades particulares de primeira linha pelo mundo afora, verificamos que
nelas manda quem é responsável por seu sucesso ou seu fracasso.
Escolhem-se os dirigentes por critérios meritocráticos, dentre candidatos
buscados por seus dotes de liderança intelectual e administrativa. Nas
melhores públicas, em que o Estado é o responsável, as regras
são parecidas. A meritocracia reina suprema. Os grupos de interesse não
têm espaço para mandar. Nenhum dirigente fez campanha para ser escolhido,
fez conchavo ou deve favores. A política não entra nem pela
porta nem pela janela. Ao que tudo
indica, não queremos universidades geridas como Harvard nem como todas
as grandes universidades do mundo, seja na Europa, seja alhures. Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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