Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Harvard foi parar
no Irajá

"Quando examinamos as universidades
particulares de primeira linha pelo mundo
afora, verificamos que nelas manda quem é
responsável por seu sucesso ou
seu fracasso"

Deixemo-nos levar pelas asas da imaginação. Suponhamos que ocorreram dois eventos de magna importância. Primeiro, a lei que reforma a universidade brasileira foi aprovada na íntegra. Segundo, Harvard se mudou para o Irajá, no Rio de Janeiro, e faz tudo exatamente como sempre vinha fazendo (aliás, o presidente Larry Summers já comprou casa em Nilópolis e vai sair na Beija-Flor). Vejamos como funciona Harvard, a nova:

Os seus institutos de pesquisa não são "integrados" (e tutelados) pelo governo federal. São independentes e donos de seu nariz.

O campus está cheio de estrangeiros, ensinando e chefiando departamentos. No futuro, todos os alunos deverão passar pelo menos um semestre em outro país, perdendo a sua cultura e apreendendo línguas alienígenas.

Os departamentos (ou suas fundações) vendem seus projetos livremente e se apropriam do dinheiro, não dando nenhuma satisfação à reitoria. Não existe caixa único. Seu ensino é mercantilizado, pois cobra vorazmente de todos a quem vende cursos, serviços e pesquisas. Nada é de graça (embora haja muitas bolsas para quem não pode pagar). Há uma busca furiosa por recursos, onde quer que possam estar.

Dentre pobres e ricos, entram somente os candidatos mais talentosos, impiedosamente selecionados.

Não existe gestão democrática nem votação direta para cargo nenhum. Não há participação de sindicatos no processo decisório. Os habitantes locais não dão palpites, pois Harvard não tem "articulação com a sociedade local". Tampouco existe "gestão pluralista dos recursos da instituição", ou "comitês superiores de funcionários e alunos". Não há conselhos eleitos por instituições externas, para dar diretrizes e fiscalizar seu funcionamento, nem membros do MST em seus conselhos.

De fato, não há pessoas ou instituições de fora mandando, dando orientações ou escolhendo os seus dirigentes.

Diante de tamanhos descalabros e ofensas, depois do parecer de seus doutos avaliadores, o MEC manda fechar Harvard. As suas práticas contrariam quase todos os princípios postulados pela nova legislação. Portanto, não é digna de permanecer em solo verde-e-amarelo. É justa a sua expulsão. Larry Summers recebe convites de 189 países, pedindo que sejam escolhidos como nova localização.

Mas voltemos ao mundo real. Harvard é considerada a melhor universidade do mundo. Quando universidades suecas saíram desse trilho e adotaram princípios na linha dos que estão na proposta de lei brasileira, criou-se uma grande balbúrdia e houve perda de qualidade. A coroa sueca foi obrigada a formar uma comissão internacional para descobrir por que havia despencado o seu desempenho. Em uma conferência na USP, o grande matemático francês Laurent Schwartz narrou sua participação nesse grupo, cuja conclusão foi simples: o experimento não havia dado certo. Por indicação da comissão, a Suécia voltou atrás. A lição foi aprendida, e nenhum país sério jamais se aventurou novamente por esses caminhos. Todos adotam regras semelhantes às de Harvard. De fato, quem quer virar universidade de primeira linha manda emissários às melhores para copiar algum modelo de gestão muito parecido com o daquela universidade.

Quando examinamos as universidades particulares de primeira linha pelo mundo afora, verificamos que nelas manda quem é responsável por seu sucesso ou seu fracasso. Escolhem-se os dirigentes por critérios meritocráticos, dentre candidatos buscados por seus dotes de liderança intelectual e administrativa. Nas melhores públicas, em que o Estado é o responsável, as regras são parecidas. A meritocracia reina suprema. Os grupos de interesse não têm espaço para mandar. Nenhum dirigente fez campanha para ser escolhido, fez conchavo ou deve favores. A política não entra – nem pela porta nem pela janela.

Ao que tudo indica, não queremos universidades geridas como Harvard nem como todas as grandes universidades do mundo, seja na Europa, seja alhures.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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