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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Um "nobre idealista"
na avenida
Uma análise do
tortuoso caminho
de um samba-enredo campeão,
até chegar ao ponto
que queria
A vencedora do Carnaval de São Paulo
foi a escola de samba Império de Casa Verde. O enredo tinha
por título Brasil, Se Deus É por Nós, Quem
Está contra Nós? Acompanhemos a letra do samba, de
autoria de Waguinho, Carlos Junior e Raphael. O começo é
assim:
"Desbravando o continente
Voando numa nave espacial
Vejo o fim do então primeiro mundo
O medo do futuro é universal".
A palavra mais intrigante do trecho é
o "então" anteposto à expressão "primeiro mundo".
Quereria dizer que o tal "primeiro mundo" não existe mais?
E, em caso positivo, em que sentido: o de que o "primeiro mundo"
não ocupa mais a honrosa posição de primeiro?
Ou de que não existe mais de vez, quer dizer: desapareceu?
Quando se lê o verso inteiro e se percebe que se descortina
o "fim" do "então primeiro mundo", as mesmas dificuldades
se multiplicam. É de dar nó no labor do pobre exegeta.
Fujamos para o verso seguinte: "O medo do futuro é universal".
Se há medo do futuro, é porque há futuro. É
um consolo, mas o fato é que o medo se espraia universalmente.
O cenário, contemplado deste privilegiado ponto de observação
que é uma nave espacial, é sombrio, eis o que se pode
concluir sem medo de errar. Tal conclusão é corroborada
pelos versos que vêm a seguir:
"É nova era
O ser humano se transforma em munição
(...)
Vaca louca adoidado, até frango tá
gripado
Veja só que ironia, o alerta é
geral".
Evidencia-se aqui a intenção
de realçar o desatino que caracteriza a vida contemporânea,
marcada não só por guerras, mas também por
bizarras epidemias, como a da vaca louca e a da gripe do frango.
Vivemos a ante-sala do apocalipse. O ensaio geral do caos. O mundo,
eis a triste realidade, está perdido. Ou não? Talvez
não. O estribilho seguinte anuncia uma exceção,
nesse cenário dantesco: "Sou mais você, Brasil / Ó
pátria mãe gentil / Esculturada por Nosso Senhor /
Terra do samba e do amor". O samba prossegue enumerando as qualidades
de nossa gente:
"É lindo ver meu povo brasileiro
Otimista e guerreiro
Nunca perde a esperança
Sempre se virando como pode
Quem não pode se sacode
Em busca do seu ideal".
Neste ponto, a letra dá uma virada
surpreendente. "Por falar em sonhos e conquistas" é o verso
seguinte, e é notável como os autores recorreram a
esse coloquial "por falar em" para introduzir um novo e decisivo
elemento no enredo uma pessoa descrita como um "nobre idealista,
revolucionário imperial". Releve-se o oximoro, a figura que
junta duas palavras inconciliáveis, contido na expressão
"revolucionário imperial". Fixemo-nos no que vem a seguir,
uma homenagem póstuma ao "idealista" em questão:
"Saudade, vá de encontro ao infinito
Nesse imenso azul e branco
Que hoje serve de manto
Pra esse ser iluminado
Que ao lado de Deus
Se faz presente na avenida
Eterna estrela dos meus carnavais
Valeu, descanse em paz".
Não bastasse o samba, o homenageado
mereceu uma enorme escultura, no último carro alegórico
da escola. Quem era? Quem? O "importante empresário", como
diz o site da escola, Francisco Plumari Júnior. Mais conhecido
como "Chico da Ronda", Plumari era tido como um dos maiorais do
jogo do bicho em São Paulo, até ser assassinado num
posto de gasolina, em 2003. Ele foi fundador, presidente e patrocinador
da Império de Casa Verde, que hoje tem seu filho como presidente
e a filha como vice. No samba, ele triunfa sobre um mundo dilacerado
e destaca-se como expoente da ilha de bem-aventurança chamada
Brasil. Na vida real, morreu miseravelmente, enquanto trocava os
pneus do carro, furados por objetos postos no asfalto para forçá-lo
a parar.
Nos desfiles do Rio de Janeiro, o Salgueiro
homenageou os falecidos bicheiros Miro e Maninho, pai e filho, cujas
estampas apareciam nas camisetas usadas por uma de suas alas, e
o presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel honrou, num
discurso, o foragido da Justiça César Andrade, sobrinho
e sucessor do famoso Castor de Andrade. O deputado Antonio Carlos
Biscaia (PT-RJ) viu em ambas as atitudes "apologia ao crime" e anunciou
providências. Não se duvida da têmpera de Biscaia,
que como procurador se notabilizou no combate aos chefões
do bicho. Mas o mais provável é que continuem a prevalecer
vozes como a do carnavalesco da Império de Casa Verde, Victor
Santos, que gritava, em comemoração à vitória:
"Viva os bicheiros". E repetia, e repetia: "Viva os bicheiros".
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