Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

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O bardo em questão

Como era o rosto de Shakespeare?
Essa é a mais nova dúvida, entre as
muitas, a respeito do poeta


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

A biografia do autor central dos palcos e das letras ocidentais é rica em hipóteses à espera de comprovação, e Stephanie Nolen, repórter do jornal canadense The Globe and Mail, levantou mais uma, em 2001. Ela descobriu o retrato na casa de Lloyd Sullivan, um engenheiro aposentado de Ottawa. A tradição familiar dizia que o quadro viera da Inglaterra, que seu pintor era um antepassado de Sullivan, o ator John Sanders, e que o retratado era William Shakespeare. O Rosto de Shakespeare (tradução de Maria Alice Máximo; Record; 384 páginas; 54,90 reais) traz a reportagem de Stephanie sobre o quadro, entremeada de ensaios produzidos por historiadores e críticos especializados no teatro e nas artes da Inglaterra elisabetana.

Submetido a vários testes forenses, como raios X e fotografia com luz ultravioleta, o quadro resistiu bravamente. Ficou confirmado que ele não é uma das fraudes deliberadas que proliferaram ao longo do século XIX, quando havia até negociantes de arte especializados em vender retratos do bardo. Daí a provar que o modelo para o "retrato Sanders", como ficou conhecido, foi mesmo o autor de Hamlet e Macbeth há uma longa distância. Em um dos cantos do quadro, aparece a data de 1603, ano em que Shakespeare teria 39 anos. Alguns dos estudiosos congregados por Stephanie – como Stanley Wells, organizador da obra completa do poeta pela editora da Universidade de Oxford – acreditam que o retratado parece mais jovem. Ninguém se arrisca a identificar categoricamente a figura como Shakespeare, e Jonathan Bate, da Universidade de Liverpool, até apresenta uma hipótese alternativa: o modelo poderia ser John Fletcher, dramaturgo e parceiro de Shakespeare em peças como Dois Parentes Nobres.

Existem apenas duas imagens reconhecidas por estudiosos como sendo realmente do escritor inglês – uma gravura na primeira edição de suas obras completas, em 1623, e uma estátua em seu túmulo, em Stratford. As duas foram feitas depois da morte do autor, por artistas medíocres que produziram uma figura rígida, um rosto sem personalidade. O aspecto mais frustrante da investigação acadêmico-detetivesca conduzida por Stephanie é o seu caráter inconclusivo. Conferir a Shakespeare uma face mais familiar e próxima seria um modo de humanizar um gênio literário que parece sobre-humano em sua amplitude.

Na biografia de Shakespeare, não falta apenas uma imagem mais simpática. Apesar de o nome do bardo aparecer em vários documentos de sua época, especialmente litígios monetários – o escritor parece ter sido um tremendo sovina –, há lacunas em áreas sensíveis. A sexualidade, as idéias religiosas e políticas, a causa da morte do escritor estão abertas às mais selvagens especulações. A partir do século XIX, questionou-se até a autoria de suas peças. Para os chamados "anti-stratfordianos" – referência a Stratford, local do nascimento do escritor, em 1564, e de sua morte, em 1616 –, Shakespeare, que afinal era um mero ator sem educação universitária, teria apenas assinado a obra de outro escritor. Hoje francamente desacreditadas, essas teses contaram com adesões célebres, como as de Mark Twain e Sigmund Freud.

Há teses doidas que vão em sentido contrário: Shakespeare, além de ter produzido a mais admirável obra dramática e poética que se conhece, ainda teria encontrado tempo para navegar pelo mundo com o aventureiro Francis Drake ou para revisar a tradução da Bíblia comissionada pelo rei James. Não existem evidências concretas de nenhum desses feitos, mas há uma coincidência intrigante no texto inglês da Bíblia. No salmo 46, a 46ª palavra do início para o fim é "shake" (balançar, tremer); a 46ª do fim para o início é "spear" (lança), formando o nome do bardo. A Bíblia foi publicada em 1611, quando Shakespeare tinha 46 anos (ou 47, depois do aniversário). Uma provável coincidência. Enfim, o mito de Shakespeare não se nutre só de seu gênio. Também comporta uma boa dose de trivialidades.

 

As muitas especulações em torno
da vida do autor de Romeu e Julieta

AUTORIA

A teoria: Shakespeare não escreveu sua obra porque não tinha formação para tanto. O dramaturgo Christopher Marlowe, o filósofo Francis Bacon e o conde de Oxford são candidatos a autores "reais"

Os indícios: ele nunca freqüentou uma universidade

Os fatos: sua formação não foi tão ruim – incluía língua e literatura latinas. A tese é totalmente desacreditada

 

O ROSTO

A teoria: um quadro achado no Canadá em 2001 seria o único retrato do autor em vida

Os indícios: o quadro é datado de 1603, quando o bardo teria 39 anos, e foi feito por um provável ator da época, John Sanders

Os fatos: testes mostraram que o quadro não é uma fraude, mas não há como comprovar quem é o retratado

 

REVISOR BÍBLICO

A teoria: o bardo colaborou na tradução da Bíblia do rei James, um dos pilares da língua inglesa moderna

Os indícios: por meio de um jogo matemático, acha-se o nome "Shakespeare" oculto num dos Salmos. Seria uma assinatura cifrada do autor

Os fatos: tudo indica que se trata de coincidência. Não há evidência da participação do autor na tradução

 

HOMOSSEXUALIDADE

A teoria: embora casado e pai de três filhos, Shakespeare manteve relações extraconjugais com homens

Os indícios: seus sonetos narram uma paixão bissexual. Num deles há uma alusão ao pênis do amado, chamado de "o senhor-senhora da minha paixão"

Os fatos: já é aceito que ele pode ter sido amante do conde de Southampton, homossexual notório a quem dedicou poemas

 

 
 
 
 
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