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Livros O
bardo em questão Como era o rosto de Shakespeare?
Essa é a mais nova dúvida, entre as muitas, a respeito do poeta
 Jerônimo
Teixeira
A biografia do autor central dos palcos e das letras
ocidentais é rica em hipóteses à espera de comprovação,
e Stephanie Nolen, repórter do jornal canadense The Globe and Mail,
levantou mais uma, em 2001. Ela descobriu o retrato na casa de Lloyd Sullivan,
um engenheiro aposentado de Ottawa. A tradição familiar dizia que
o quadro viera da Inglaterra, que seu pintor era um antepassado de Sullivan, o
ator John Sanders, e que o retratado era William Shakespeare. O Rosto de
Shakespeare (tradução de Maria Alice Máximo; Record;
384 páginas; 54,90 reais) traz a reportagem de Stephanie sobre o quadro,
entremeada de ensaios produzidos por historiadores e críticos especializados
no teatro e nas artes da Inglaterra elisabetana.
Submetido a vários testes forenses, como raios X e fotografia com luz ultravioleta,
o quadro resistiu bravamente. Ficou confirmado que ele não é uma
das fraudes deliberadas que proliferaram ao longo do século XIX, quando
havia até negociantes de arte especializados em vender retratos do bardo.
Daí a provar que o modelo para o "retrato Sanders", como ficou conhecido,
foi mesmo o autor de Hamlet e Macbeth há uma longa distância.
Em um dos cantos do quadro, aparece a data de 1603, ano em que Shakespeare teria
39 anos. Alguns dos estudiosos congregados por Stephanie como Stanley Wells,
organizador da obra completa do poeta pela editora da Universidade de Oxford
acreditam que o retratado parece mais jovem. Ninguém se arrisca a identificar
categoricamente a figura como Shakespeare, e Jonathan Bate, da Universidade de
Liverpool, até apresenta uma hipótese alternativa: o modelo poderia
ser John Fletcher, dramaturgo e parceiro de Shakespeare em peças como Dois
Parentes Nobres. Existem apenas duas imagens
reconhecidas por estudiosos como sendo realmente do escritor inglês
uma gravura na primeira edição de suas obras completas, em 1623,
e uma estátua em seu túmulo, em Stratford. As duas foram feitas
depois da morte do autor, por artistas medíocres que produziram uma figura
rígida, um rosto sem personalidade. O aspecto mais frustrante da investigação
acadêmico-detetivesca conduzida por Stephanie é o seu caráter
inconclusivo. Conferir a Shakespeare uma face mais familiar e próxima seria
um modo de humanizar um gênio literário que parece sobre-humano em
sua amplitude. Na biografia de Shakespeare, não
falta apenas uma imagem mais simpática. Apesar de o nome do bardo aparecer
em vários documentos de sua época, especialmente litígios
monetários o escritor parece ter sido um tremendo sovina ,
há lacunas em áreas sensíveis. A sexualidade, as idéias
religiosas e políticas, a causa da morte do escritor estão abertas
às mais selvagens especulações. A partir do século
XIX, questionou-se até a autoria de suas peças. Para os chamados
"anti-stratfordianos" referência a Stratford, local do nascimento
do escritor, em 1564, e de sua morte, em 1616 , Shakespeare, que afinal
era um mero ator sem educação universitária, teria apenas
assinado a obra de outro escritor. Hoje francamente desacreditadas, essas teses
contaram com adesões célebres, como as de Mark Twain e Sigmund Freud.
Há teses doidas que vão em sentido
contrário: Shakespeare, além de ter produzido a mais admirável
obra dramática e poética que se conhece, ainda teria encontrado
tempo para navegar pelo mundo com o aventureiro Francis Drake ou para revisar
a tradução da Bíblia comissionada pelo rei James.
Não existem evidências concretas de nenhum desses feitos, mas há
uma coincidência intrigante no texto inglês da Bíblia.
No salmo 46, a 46ª palavra do início para o fim é
"shake" (balançar, tremer); a 46ª do fim para o início
é "spear" (lança), formando o nome do bardo. A Bíblia
foi publicada em 1611, quando Shakespeare tinha 46 anos (ou 47, depois do aniversário).
Uma provável coincidência. Enfim, o mito de Shakespeare não
se nutre só de seu gênio. Também comporta uma boa dose de
trivialidades.
As muitas especulações em torno
da vida do autor de Romeu e Julieta AUTORIA
A teoria: Shakespeare não escreveu sua obra
porque não tinha formação para tanto. O dramaturgo Christopher
Marlowe, o filósofo Francis Bacon e o conde de Oxford são candidatos
a autores "reais" Os indícios: ele
nunca freqüentou uma universidade Os fatos:
sua formação não foi tão ruim incluía
língua e literatura latinas. A tese é totalmente desacreditada O
ROSTO A teoria:
um quadro achado no Canadá em 2001 seria o único retrato
do autor em vida Os indícios: o quadro
é datado de 1603, quando o bardo teria 39 anos, e foi feito por um provável
ator da época, John Sanders Os fatos:
testes mostraram que o quadro não é uma fraude, mas não
há como comprovar quem é o retratado REVISOR
BÍBLICO A teoria: o
bardo colaborou na tradução da Bíblia do rei James,
um dos pilares da língua inglesa moderna Os
indícios: por meio de um jogo matemático, acha-se o nome "Shakespeare"
oculto num dos Salmos. Seria uma assinatura cifrada do autor Os
fatos: tudo indica que se trata de coincidência. Não há
evidência da participação do autor na tradução
HOMOSSEXUALIDADE A
teoria: embora casado e pai de três filhos,
Shakespeare manteve relações extraconjugais com homens
Os indícios: seus sonetos narram uma paixão
bissexual. Num deles há uma alusão ao pênis do amado, chamado
de "o senhor-senhora da minha paixão" Os
fatos: já é aceito que ele pode ter sido amante do conde de
Southampton, homossexual notório a quem dedicou poemas |
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