Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

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Música
Rap do além

Em discos, roupas e num documentário
que concorre ao Oscar, Tupac Shakur
faz mais sucesso morto do que em vida.
Quem lucra é sua mãe


Paula Aoyagui

DA INTERNET
Trailer do filme

Em 1996, aos 25 anos, o cantor de rap americano Tupac Shakur foi assassinado a tiros depois de assistir a uma luta do boxeador Mike Tyson em Las Vegas. Não se pode dizer que foi o fim de uma carreira promissora. Muito pelo contrário. Como uma espécie de James Dean do submundo do gangsta, a ala mais barra-pesada do rap, Shakur tornou-se mais cultuado depois de morto do que em vida. Em volta dele criou-se uma indústria lucrativa, cujos dividendos alimentam a conta bancária de Afeni Shakur, a mãe que controla seu espólio com mão-de-ferro. Dona de uma gravadora, ela lançou dezesseis discos do filho desde sua morte, contra apenas quatro em vida. Roupas com sua marca ajudaram Afeni a faturar 24 milhões de dólares nos últimos três anos. Shakur tem presença assídua no ranking das celebridades mortas mais lucrativas da revista Forbes, ao lado de figuras como o roqueiro Elvis Presley. Nada indica que essa fonte vá secar, pois ele deixou mais de 200 canções inéditas, além de dezenas de horas de depoimentos gravados. Esse material é a base de Resurrection, biografia do artista que concorre ao Oscar de documentário e acaba de sair em DVD no Brasil. A produção é da MTV americana e da própria Afeni, que zelou para que nada manchasse a imagem de um rapper durão, mas sensível às causas sociais – uma lorota marqueteira, manjada entre os artistas do gênero e que vem a calhar para os negócios.

Resurrection tem edição ágil de videoclipe e sua narrativa impressiona por ser construída somente com falas do rapper, que conta sua vida desde a infância. Tudo no filme é feito para transformá-lo no santo que ele não foi. Populista, Shakur fala de sua juventude sofrida e se autoproclama um porta-voz dos negros e oprimidos. Na vida real, o cantor ficou mais conhecido como autor de letras machistas e que faziam apologia da violência. Chegou a ser preso por assédio sexual e foi um incitador da rivalidade sangrenta entre os rappers das costas leste e oeste dos Estados Unidos – provável razão de seu assassinato, ainda não desvendado. Sua mãe, é claro, aparece em destaque. Os primeiros dez minutos da fita são um longo elogio a Afeni, ex-militante do grupo radical Panteras Negras que passou quase toda a gravidez na cadeia e se afundou nas drogas enquanto o filho levava uma vida desgarrada nas ruas. Com uma mãozinha do além, ela riu por último.

 

TUPAC SHAKUR S/A

Depois de sua morte, em 1996, foram lançados 16 discos do artista, contra apenas 4 em vida

Somente nos últimos três anos sua obra rendeu 24 milhões de dólares

O filme Resurrection, que mostra a biografia do cantor narrada por ele mesmo, concorre ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem

 
 
 
 
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